Copa do Mundo 2026: França se defronta com Marrocos na busca pelo tri
Redação Online
Publicado em 8 de julho de 2026 às 21:56 | Atualizado há 43 minutos
Choque de gerações e geopolítica se encontram hoje, às 17h, nas quartas de final da Copa do Mundo. A partida terá transmissão da TV Globo, SBT e CazéTV - Foto: Fifa
Marcus Vinicius Beck
Pelé, o Rei Pelé, disse que Kylian Mbappé poderia sucedê-lo. Não era brincadeira. O ídolo brasileiro se via no craque francês. “É um atacante que raciocina rápido. Quando a bola chega, ele já sabe o que fazer e para onde se movimentar”, vibrava, no fim de sua vida.
Há boas razões para se acreditar na vitória francesa hoje, a partir das 17h, contra o Marrocos — Mbappé é uma delas. Mas nada está garantido nas quartas de final da Copa do Mundo. Já pensou se os africanos eliminam seus colonizadores, em cujo domínio viveram por 44 anos?
Albert Camus, goleiro existencialista, ensina: “A bola nunca chega por onde a esperamos.” Talvez até se ajeite na geopolítica, como um Tratado de Fez ludopedicamente esmigalhado.
Les Bleus encantaram o mundo na Copa da Espanha, em 1982. Seus quatro mosqueteiros — Genghini, Giresse, Tigana e Platini — tornavam o meio-campo leve. Platini dava o tom ali e, atento, fazia lançamentos precisos. Era um detalhista, um Gustave Courbet dos gramados.
Naquela Copa, o futebol-força alemão venceu o toque francês. Nem sempre os germânicos demonstraram técnica. Às vezes, como fizera Schumacher, jogadores eram nocauteados em campo — o zagueiro Patrick Battiston, por exemplo, desmaiou após o arqueiro adversário acertá-lo.
Esse time, na base do toque, ganharia do Brasil de Zico e Sócrates no México, em 1986. Após a glória, uma geração perdida deixaria a França sem ir para a Copa da Itália, em 1990, e dos EUA, em 1994. O país só voltaria a disputar um Mundial quatorze anos depois, ao sediá-lo.

Mantra
Sob o mantra black-blanc-beur, Les Bleus cantavam: “allez les Bleus!”. Venceram a edição de 1998, fracassaram em 2002, chegaram à final em 2006. Favoritos, fizeram o mundo rir com as crendices de Raymond Domenech, que hoje, além de mero folclore, é sobretudo um passado.
Didier Deschamps, desde 2012, treina a França. Vitorioso, ele é campeão e vice-campeão mundial. Faz um bom trabalho, talvez o melhor dentre as seleções, porque achou um jeito de Dembélé, Cherki e Olise atuarem juntos. Tchouaméni e Rabiot marcam e criam no meio.
Mbappé é o maior nome da atualidade, embora ainda não tenha conquistado uma Bola de Ouro. Em 2018, foi o mais jovem desde Pelé a marcar dois gols num mata-mata de Copa do Mundo. Tinha 19 anos. Só ele, o Rei e Giuseppe Bergomi atuaram numa final sendo sub-20.
“Que jogador! Dá gosto vê-lo em campo. É um cara do bem. É o estilo de jogo que eu adoro”, elogiou Ronaldinho Gaúcho. Já o ídolo Zinedine Zidane, campeão do mundo em 98, acredita que ninguém irá superá-lo. “Ele fará história e vai superar a todos”, limitou-se a dizer.
Aos 19 anos, Mbappé já havia conquistado aquilo que o gênio argentino Lionel Messi mais almejava: o título mundial. No Catar, em 2022, o camisa 10 francês mandou a bola para as redes três vezes. Foi épico. Messi também se provou decisivo, extraordinário, com dois gols.
Seria o último tango dele? Aos 35, Messi, maior jogador deste século, ergueu o troféu que lhe faltava. O que mais poderia querer? Pelos campos cataris, andou — sempre discreto, meio desligado, como se não estivesse ali. Deu um drible em todos, pois não deixou a albiceleste.
Multiculturalismo refina jogo francês no Mundial
Não foi a primeira vez que o argentino e o francês duelaram. Quatro anos antes, em 2018, o multiculturalismo, sob o comando de Didier Deschamps, derrotou o pálido time hermano, cujo treinador, Jorge Sampaoli, sequer conversava com o seu auxiliar, Sebastián Beccacece.
Ao mesmo tempo, Mbappé explodia. O difícil, o sublime, envolvia os olhos, como quando vimos Ronaldo Fenômeno. Era velocidade, drible, finalização. Aquele tipo de jogador que aparece a cada vinte, trinta anos, mas que, diabolicamente, seduz ao mostrar sua arte: o gol.
“Nous reviendrons”, advertiu o francês, abalado. Sim, o atacante perdeu o título em 2022 e, agora mais experiente, aos 27 anos, ele está de volta. É a referência do time que busca o tri.
A saber se os marroquinos hoje vão dispensar a bola, como fez o Brasil — recuado e abdicando da posse diante da Noruega —, ou se pretendem tocá-la até encontrar os espaços. O meio-campista Ayyoub Bouaddi, aos 18 anos, revelação desta Copa do Mundo, pensa o jogo com a pelota nos pés. Arma e cadencia, tal qual um veterano cheio de classe.

Segundo Mohamed Ouahbi, técnico do Marrocos, Bouaddi tem serenidade e autoridade, atributos incomuns em atletas de sua idade. “É o tipo de jogador que eu sempre adoro ter no meu time. Sempre joga de cabeça erguida e demonstra muita autoridade em campo”, disse.
Nascido em Senlis, no norte da França, o meia também impressiona fora dos gramados. Seu nível intelectual o leva a se destacar, já que venceu, aos 15 anos, um concurso de oratória no Palácio do Eliseu, residência oficial do presidente da França. Estudioso, cursa matemática.
Dentro de campo, Bouaddi compreende o que precisa ser feito para seu time jogar bem. “Eu conheço a minha função. Estou lá para trazer equilíbrio ao time”, afirmou. “Sei que não estou lá para marcar hat-tricks, embora eu adore fazer isso. Se isso acontecer, ficarei feliz.”
Por isso, Deschamps — o homem que reinventou a seleção francesa — está preocupado. “O perfil do Marrocos não é o mesmo de quatro anos atrás”, observou o técnico francês, durante coletiva de imprensa. “Eles disputaram a final da Copa Africana de Nações, têm jogadores de alto nível e não estão aqui apenas para competir. Estão aqui para vencer.” Cautela é tudo.