Rolling Stones, com blues e rock, dispensam nostalgia no disco ‘Foreign Tongues’
Redação Online
Publicado em 9 de julho de 2026 às 22:05 | Atualizado há 2 horas
Músicos se mostram atentos ao mundo e seus dilemas - Foto: Mark Seliger
Marcus Vinícius Beck
Os Rolling Stones querem fúria e folia. É a primeira sensação ao ouvir o disco “Foreign Tongues”, disponível nas plataformas digitais desde a meia-noite de sexta-feira (10). Nada vai ser tão bom nas próximas horas quanto o sarcasmo e o rockão das majestades satânicas.
Até aí, tudo bem. São os Stones e seu 25º álbum. As guitarras decolam num voo petulante, referência ao blues de Chicago. Keith Richards afina sua Telecaster em open G (sol aberto), à maneira de Robert Johnson. Isso desafia a lógica, como se houvesse outro acorde por trás.
Assim é o riff de “Rough And Twisted”, a 1ª faixa de “Foreign Tongues”. Richards conheceu essa forma de tocar no fim dos anos 60, quando Ry Cooder lhe mostrara o velho segredo dos blueseiros. Na sequência, levou-o para os instrumentos elétricos. Trouxe mistério, enigmas.
Aos 82 anos, Mick Jagger está jovial. Fica evidente: um stone não envelhece. Quando a gaita sussurra seu lamento bluesy, o coisa-ruim dá as caras, ansioso por soprar certas simpatias — algo que, a julgar por “Sympathy For The Devil”, de 1968, não chega a ser uma novidade.
Jagger reforça esse espírito ao dizer que as 14 músicas de “Foreign Tongues” iriam passear por “diversos gêneros”. É, baby, o som é forte, você é doce, você me deixa forte, você me deixa fraco — para citar a letra do rock “Love Is Strong”, do CD “Voodoo Lounge”, de 1994.
“Os Stones são uma banda de rock que também tem a capacidade de fazer baladas, música country ou música dançante. Então, não ficamos presos a um único estilo”, disse o vocalista, em Nova York (EUA), durante uma prévia do novo disco para amigos, jornalistas e artistas.
Seção rítmica
Para dar coesão aos ritmos, é necessário cozinhar bem. Se a bateria simples e elegante de Charlie Watts deixou saudade — ainda que apareça em registros de arquivo —, as baquetas de Steve Jordan e as linhas de baixo de Darryl Jones conferem peso sem dispensar o groove.
Como nos anos 1960, Jagger se apoia na música black americana. “Eu estava lá quando o raio caiu”, vocaliza, em “In The Stars”, a 2ª faixa de “Foreign Tongues”. O cantor inglês, em meio a acordes rápidos de guitarra que conversam entre si, clama contra a finitude da existência.
“Você quer dançar até o teto desabar? / Sim, as guitarras estão gritando e o coral canta”, suplica. Jagger não deveria parar de cantar. Nem Richards deixar de criar seus riffs. Ou Ron Wood abdicar dos seus solinhos. Esses caras criam a trilha sonora do mundo há 60 anos.
Entre os guitarristas, rola uma simbiose. Wood vê-a como se fosse pura tecelagem, união de acordes e solos entrelaçados por tons. Já Richards, gargalhando com sua voz grave e rouca, tem uma receita intuitiva. “Riffs, você não pode forçá-los. Simplesmente eles vêm até você.”
Mick Jagger vocaliza versos sensuais em balada soul

Agora mudou o clima. Ao estilo de “Miss You”, do LP “Some Girls”, de 1978, Mick Jagger entoa tons de sensualidade. Não se trata de nostalgia tampouco repetição. Os Stones, sob a produção de Andrew Watt, de 35 anos, soam modernos na balada soul “Jealous Lover”.
Ao escutá-la, fica difícil não dançar. Jagger, irônico, canta sobre o fim de um relacionamento: “Nós já fomos tão generosos, compartilhando segredos/ Agora a fruta está azedando, estou com gosto ruim na boca.” É como se o eu lírico, sufocado e aflito, beijasse arames farpados.
Só que, por mais que haja desilusão amorosa, “Foreign Tongues” confronta os poderosos. Durante a Guerra do Vietnã e em Maio de 68, os Stones retrataram a atmosfera soturna em “Street Fighting Man”, de “Beggars Banquet”, de 1968, e “Gimme Shelter”, de “Let It Bleed”, de 1969. Mais ricos do que há 60 anos, cutucam o “magnata louco Mr. Musk”, dono do X.
Descrita pela Agência EFE como uma “faixa cativante, dançante e aparentemente inocente”, a faixa “Mr. Charm” traz um termo que seria confundido com Donald Trump. Na música “Divine Intervention”, Robert Smith, do The Cure, se junta aos Stones com sua guitarra.

Críticas
A banda, depois de passar por Nova York, espinafra os EUA no country “Ringing Hollow”. Jagger se lamenta, pois “vi seus filmes/ fumei seus cigarros”, numa referência à sociedade de consumo: “A Estátua da Liberdade não fica bem quando está com cara de poucos amigos.”
Em “Covered In You”, o vocalista se diz “cansado de todos esses autocratas / Eles parecem estar se reproduzindo como um enxame de ratos imundos com seus mísseis em desfile”. A caneta mickjaggeriana está afiada, em sintonia com o mundo pós-moderno e seus dilemas.
O beatle Paul McCartney toca baixo nesta faixa. “Cheguei em casa naquele dia e fiquei dizendo para todo mundo: ‘É realmente emocionante. Nem todo mundo toca com os Stones’”, afirmou McCartney, feliz, em um depoimento à revista britânica “New Musical Express”.
A jornalistas, Jagger falou sobre a produção do “Foreign Tongues”: “Ter apenas quatro semanas nos deu uma sensação de urgência. Nos divertimos no estúdio, mas também isso exige concentração — você precisa fazer valer a pena os cinco minutos de cada música.”
O frontman desempoeira ainda a gaita em “You Know I’m No Good”, de Amy Winehouse. “Back In Your Life” antecede o retorno ao início, simbolizado em “Beautiful Delilah”, de Chuck Berry. “Eu adorava a naturalidade dele”, disse Keith Richards ao “The Guardian”.