Amazônia registra menor desmatamento para o primeiro semestre desde 2016
Fernando Henrique - Estágio DM
Publicado em 10 de julho de 2026 às 08:41 | Atualizado há 2 horas
Área de floresta amazônica monitorada pelo Inpe registra o menor índice de alertas de desmatamento para um primeiro semestre desde 2016 | Foto: Reprodução/Agência Brasil
Os alertas de desmatamento da floresta amazônica no primeiro semestre deste ano chegaram ao menor patamar da década. Entre janeiro e junho foram perdidos 1.295km² de vegetação nativa no bioma, o índice mais baixo da série histórica do sistema Deter, do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisa Espacial), iniciada em 2016.
No cerrado, a área sob alerta para desmate foi de 3.142 km² nos primeiros seis meses do ano, a mais baixa desde 2021. O número representa queda de 6% na comparação com o mesmo período de 2025 — na amazônia, a redução foi de 38%.
Os dados foram divulgados nesta sexta-feira (10). O Deter emite alertas de desmate para orientar ações de fiscalização. Já os números oficiais são de outro sistema do instituto, o Prodes, mais preciso e divulgado anualmente.
Os biomas são os maiores do país e representam, juntos, três quartos do território nacional (49% concentrado na amazônia e 24%, no cerrado). A área de vegetação sob alerta de desmate em ambas as regiões neste ano chega a 4.437 km², equivalente a quase três vezes a da cidade de São Paulo.
Queda também é registrada no mês de junho
Considerando apenas o mês de junho, a amazônia perdeu 297 km² e o cerrado, 482 km², o que representa, respectivamente, uma redução de 35% e 5% na comparação com 2025.
O ministro do Meio Ambiente e Mudança Climática, João Paulo Capobianco, ressalta que, em ambos os casos, os índices deste ano seguem uma tendência de queda no desmate.
“Os números estão mostrando que esse processo de redução está sendo cumulativo, redução sobre redução. Então, estamos numa trajetória positiva, tanto na amazônia como no cerrado”, afirma à Folha.
Em ambas as regiões, o início do ano tem taxas mais baixas de desmate devido à estação chuvosa, que dificulta a derrubada, e também à maior presença de nuvens, que pode prejudicar a obtenção de imagens de satélite.
O pico do desmate normalmente acontece entre maio e setembro, quando a precipitação diminui.
Devido a essa dinâmica sazonal, o Inpe considera, para fins de monitoramento, o período de 12 meses que vai de agosto de um ano a julho do ano seguinte.
Segundo essa métrica, desde agosto de 2025, a área sob alerta de desmate na amazônia é de 2.486 km², redução de 37% em relação ao período anterior (3.960 km²). No cerrado, a taxa é de 4.686 km², o que representa queda de 8% na comparação com o intervalo de agosto de 2024 a junho de 2025.
Governo atribui resultado à atuação conjunta
Capobianco — que era o braço direito de Marina Silva e assumiu a pasta quando ela deixou o cargo para ser candidata nas eleições deste ano — diz que os resultados atuais foram alcançados a partir de uma ação constante do governo federal junto a governadores e prefeitos.
“É um resultado do Estado brasileiro: são várias políticas, de vários órgãos, de diferentes instâncias federativas que estão operando”, ressalta, acrescentando que esse modelo de construção de política pública a torna mais resiliente a eventuais mudanças de governantes.
“Estão sendo construídos instrumentos que dão uma condição de políticas mais estruturantes e que apontam para uma perspectiva de continuidade mais interessante, independente de quem estaria, digamos, na chefia ou na coordenação disso”, afirma o ambientalista.
El Niño preocupa autoridades para o segundo semestre
A chegada do El Niño acende os alertas para uma possível seca intensa neste segundo semestre, o que pode levar tanto a mais desmate como a mais incêndios florestais. O fenômeno irá colocar à prova a Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo, aprovada em 2024, após as grandes queimadas daquele ciclo.
O El Niño normalmente causa estiagem nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, condição que facilita o espalhamento das chamas — provocadas por ação humana, como queimadas e incêndios criminosos e acidentais.
Estados concentram maiores áreas desmatadas
Os estados de Mato Grosso (489 km²), Pará (391 km²) e Amazonas (184 km²) lideraram o desmatamento da amazônia neste ano, até o momento. Já no cerrado, os maiores desmatadores foram Maranhão (839 km²), Tocantins (825 km²) e Piauí (368 km²).
A dinâmica do desmate é diferente nos dois biomas. Enquanto na amazônia ele se concentra em áreas públicas não destinadas e áreas protegidas invadidas, no cerrado ele se concentra em áreas privadas.
Vale lembrar que a legislação ambiental é mais permissiva para o cerrado. Segundo o Código Florestal, no bioma é possível desmatar até 80% da área de imóveis (ou até 65% em alguns locais, quando estão em regiões de transição para a floresta amazônica). Na amazônia, o limite é de 20%.
As autorizações para desmate são concedidas pelos órgãos ambientais dos governos estaduais. Por isso, é essencial a atuação das gestões locais para coibir a destruição do bioma, especialmente diante do afrouxamento do licenciamento ambiental promovido pela nova lei geral deste dispositivo.
Desmatamento é principal fonte de emissões no Brasil
O desmatamento é a principal fonte de emissões de gases de efeito estufa no Brasil. Em 2024, último ano analisado, respondeu por 42% do total de carbono emitido pelo país, segundo dados do Seeg (Sistema de Estimativa de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa). A meta de zerar o desmate é essencial para o cumprimento do plano climático nacional assumido pelo governo federal sob o Acordo de Paris. (Jéssica Maes/FOLHAPRESS)