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Memes da machosfera chegam às escolas e acendem alerta sobre misoginia

Fernando Henrique - Estágio DM

Publicado em 13 de julho de 2026 às 09:47 | Atualizado há 7 horas

Escolas ampliam debates sobre masculinidade após disseminação de termos da machosfera entre estudantes | Foto: reprodução
Escolas ampliam debates sobre masculinidade após disseminação de termos da machosfera entre estudantes | Foto: reprodução

Sobrou nada para o betinha, cara de sigma. Essas são algumas das expressões que têm se disseminado por meio de memes e piadas entre crianças e adolescentes ainda que eles não compreendam seu verdadeiro significado.

Aparentemente inofensivos, esses termos vêm sendo reproduzidos em escolas e redes sociais como brincadeira, mas têm origem em comunidades misóginas da internet que defendem a ideia de dominação e superioridade masculina e opressão às mulheres.

A gíria betinha, por exemplo, é usada para tirar sarro do “homem beta” que se contrapõe à ideia do “homem alfa”. Essas classificações dividem os homens em dois extremos: enquanto o alfa é visto como dominante e confiante, o beta é caracterizado por ser submisso e inseguro.

O vocabulário é importado diretamente da “machosfera” virtual, uma subcultura online que vem preocupando as escolas por se perpetuar cada vez mais precocemente entre as crianças.

Por um lado, os educadores entendem que muitas vezes os alunos reproduzem essas expressões sem a intenção de perpetuar o discurso misógino. Por outro lado, temem que, sem intervenção diante dessas situações, essas ideias passem a ser naturalizadas e consideradas aceitáveis por eles.

Nas redes sociais, há milhares de memes sobre o betinha. O termo é usado em diversas situações para tirar sarro de alguém que perdeu algo: um jogo, dinheiro, mas, sobretudo, em relações amorosas com mulheres.

“Um dos aspectos mais preocupantes da misoginia online hoje é justamente o fato de ela não se apresentar, na maior parte das vezes, de forma explícita. Ela costuma circular por meio de piadas, memes, gírias e conteúdos aparentemente inofensivos”, diz Bianca Orrico, psicóloga da Safernet Brasil.

“O problema é que o humor não elimina o potencial de dano de uma mensagem. Pelo contrário, ele pode funcionar como uma forma de naturalização”, afirma.

Escolas investem em debates sobre masculinidade

É exatamente pela preocupação com a naturalização dessas ideias que algumas escolas têm trabalhado o tema logo nos primeiros anos da vida escolar. No colégio Equipe, em Higienópolis, na região central de São Paulo, o assunto é tratado já no 6º ano do ensino fundamental.

“O que temos percebido é que as ideias e termos da comunidade ‘red pill’ começam a se disseminar cada vez mais cedo e eles vão tendo acesso a esses conteúdos aos poucos. Aparece como uma brincadeira, um meme e, se não houver uma problematização, eles naturalizam esse discurso”, diz Maurício Freitas, orientador do colégio.

Para trabalhar essas questões, a escola tem feito rodas de conversas com os meninos para abordar as masculinidades. Freitas conta que eles sentem dificuldade no início em falar sobre o assunto, mas aos poucos vão se abrindo e acabam revelando inseguranças.

“Nós trabalhamos essas questões de acordo com a faixa etária. Com o 7º e o 8º ano, nós costumamos puxar um debate sobre o que eles enxergam como positivo em ser homem e mulher. Muitas vezes os meninos ficam em silêncio e isso já é um sintoma do que é ser homem na nossa sociedade.”

Freitas diz que os meninos têm dificuldade em apontar pontos positivos em ser mulher. Eles enxergam, por exemplo, que homens enfrentam menos perigo ao andar sozinhos, são mais ouvidos, têm suas opiniões mais respeitadas e são menos cobrados pela aparência. Em relação a elas, porém, dificilmente conseguem indicar algo vantajoso.

“Aos poucos, eles vão percebendo que o homem está em privilégio, mas também sentem dificuldade de sair desse lugar mesmo tendo consciência. Eles também acabam percebendo que muitas vezes reproduzem um comportamento machista e violento por se sentirem inseguros ou terem medo de sofrer bullying.”

Para ele, essa reflexão leva os meninos a perceberem comportamentos que têm dentro da escola e são consequência do machismo, por exemplo, questionar mais a autoridade de professoras mulheres ou responderem mais rapidamente quando têm a atenção chamada por um professor homem.

“Se não forem convocados a refletir sobre isso, essas situações passam despercebidas e acabam sendo naturalizadas. Assim como as piadas e os memes com os quais são bombardeados nas redes sociais.”

No colégio Gracinha, na zona oeste de São Paulo, a coordenadora Celina Fernandes também diz sentir resistência inicial dos meninos para falar sobre o assunto. Para ela, a dificuldade ocorre por insegurança dos meninos e falta de referencial sobre masculinidades saudáveis.

“Há muito tempo nós nos acostumamos a falar sobre o feminismo, a valorização da mulher e o empoderamento das meninas. A gente entendeu que só isso não era suficiente, porque os meninos não estão enxergando o seu lugar nessa discussão. Eles se sentem perdidos.”

Enquanto vê as meninas empoderadas, sabendo dizer o que querem e colocando limites em relação ao seu corpo e nas relações, Fernandes observa os meninos sem referencial para agir. Esse descompasso entre os gêneros tem gerado conflitos e frustração em ambos.

“Percebemos uma falta de compreensão mútua. Muitas vezes os meninos se aproximam das meninas de uma forma que elas não aceitam, que entendem como assédio ou abusiva. Eles ficam frustrados com isso e sem entender como agir. E muitos recorrem ao discurso que encontram nas redes sociais para se sentirem compreendidos, o que só aumento o abismo.”

Para Fernandes, além da escola, é fundamental que as famílias discutam com os filhos sobre relacionamentos e sexualidade. “Se eles não encontram um espaço em casa, na escola ou com os amigos para conversar sobre a masculinidade, eles vão buscar na internet. E lá, o que mais encontram são os discursos misóginos e que reforçam uma masculinidade violenta.”

Estudo aponta explosão de grupos misóginos

Um estudo feito pelo DesinfoPop (Laboratório de Estudos sobre Desordem Informacional e Políticas Públicas), da FGV (Fundação Getulio Vargas), identificou um crescimento de mais de 600 vezes de grupos que proliferam mensagens misóginas nas redes sociais entre 2019 e 2025.

Para Orrico, é nessa lacuna de referenciais que os meninos muito cedo encontram compreensão no discurso de ódio.

“A adolescência é justamente uma fase de construção de identidade, pertencimento e valores. Muitas vezes, os meninos estão aprendendo e reproduzindo uma linguagem para se integrar a um grupo e, gradualmente, passam a ter contato com conteúdos mais ideológicos que dão sentido a essas expressões.”

Por isso, diz que por mais inocente que algumas piadas possam parecer, como o meme do betinha, eles são feitos para gerar identificação. “Primeiro vem a piada, depois, a repetição e em seguida, a naturalização. E, em alguns casos, isso pode abrir caminho para conteúdos mais explícitos de hostilidade contra mulheres e meninas.”

Tanto a psicóloga como os educadores aconselham que os pais busquem entender a origem dos termos e piadas reproduzidas pelos filhos. Também defendem que conversem com as crianças e adolescentes sobre o significado deles, de acordo com a capacidade de compreensão de cada faixa etária.

“Quando adultos tratam essas falas apenas como brincadeira, sem diálogo ou contextualização, corremos o risco de perder oportunidades importantes de educar para um uso das tecnologias de forma mais crítica, ética e responsável”, diz Orrico.

Glossário da machosfera

Incels: abreviação de “involuntary celibates” (celibatários involuntários). São homens que alegam, de forma ressentida e violenta, não conseguir parceiras sexuais ou românticas por culpa das mulheres ou de padrões sociais.

Red pill: termo inspirado no filme “Matrix”, em que o protagonista toma uma pílula vermelha que dá a ele consciência da realidade. Na machosfera descreve homens que acreditam ter “despertado” para uma suposta realidade em que as mulheres manipulam e exploram os homens. Pregam que o homem deve reassumir o domínio e manter a mulher submissa.

Alfa: é o topo da hierarquia social masculina. É a idealização do homem dominante, líder, fisicamente forte, financeiramente bem-sucedido e sexualmente atraente.

Beta: é o homem comum, visto como submisso, cooperativo e sem dominância social. São frequentemente ridicularizados por serem, na visão da machosfera, usados pelas mulheres apenas por estabilidade financeira.

Sigma: popularizado em redes como o TikTok, é o homem visto como um “alfa solitário”, que não precisa de validação social e foca apenas o próprio sucesso. O termo é frequentemente usado para mascarar isolamento e desprezo pelas mulheres.

Chad: é o homem visto como geneticamente perfeito, atraente, confiante e sexualmente ativo. Na visão desses grupos, é o único tipo que as mulheres realmente desejam, independentemente do caráter.

Stacy: equivalente feminina do Chad. É o termo usado para descrever mulheres consideradas extremamente atraentes e de alto status social, que supostamente só se interessariam por Chads, desprezando todos os outros homens.

Tradwife: mulheres que defendem o retorno aos papéis tradicionais de gênero, nos quais elas serão exclusivamente donas de casa e submissas ao marido. (Isabela Palhares/FOLHAPRESS)


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