Espanha tenta frear ataque da França na semifinal da Copa do Mundo 2026
Redação Online
Publicado em 13 de julho de 2026 às 20:26 | Atualizado há 60 minutos
Time espanhol se defende sem dispensar a posse de bola - Foto: Fifa
Marcus Vinícius Beck
Depois de três fracassos consecutivos, a seleção espanhola volta a sonhar em uma Copa do Mundo. Pela semifinal, nesta terça-feira (14/7), às 16h, La Furia tenta reduzir a velocidade do ataque francês. Será uma final antecipada do torneio, um tempo a flutuar como um veleiro.
“Ontem e amanhã”, escreveu o poeta Federico García Lorca (1898-1936), “comem escuras flores de duelo”. No Estádio de Dallas, os espanhóis esgueiram-se das mortes pretéritas, dor de véu dispensada, com pranto de seda e pluma. De novo, o bardo de Andaluzia é evocado.
Campeã da Eurocopa, vice da Nations League e invicta nas Eliminatórias, a Espanha chega à 3ª semifinal de sua história. A equipe, comandada por Luis de la Fuente, gosta de controlar o meio a partir dos passes trocados entre Rodri, Pedri e Dani Olmo. Fica, muitas vezes, chato.
É um time que se defende tendo a bola. Por isso, o goleiro Unai Simón foi vazado apenas uma vez em toda a Copa. A dupla de zagueiros, Aymeric Laporte e Pau Cubarsí, garante a serenidade ao arqueiro. Os laterais Marc Cucurella e Pedro Porro fecham a defesa ibérica.
Embora abaixo do que joga no Barcelona, o ponta-direita Lamine Yamal inferniza defesas com sua velocidade. Canhoto e driblador, ele forma um talentoso trio de ataque ao lado de Nico Williams e Mikel Oyarzabal. Fez 19 anos no último dia 13, seis dias antes da decisão.
Para a jovem estrela, os franceses temem os espanhóis. “Fomos nós que os eliminamos [na Euro 2024]. Somos duas das melhores seleções do mundo, para mim as duas melhores, e não temos medo de nada”, disse, na sexta-feira (10), após vencer a Bélgica pelas quartas de final.

Tiki-taka
Filho de pai marroquino e mãe guinéu-equatoriana, o jogador não havia nascido quando a seleção roja mudou sua identidade. Durante a partida contra a Tunísia, em 2006, a equipe de Luis Aragonés começou a trocar passes precisos. Mudou-se, assim, o estilo do jogo espanhol.
Até 2006, o time ibérico se destacava por sua Fúria. Aragonés contava com jogadores de qualidade técnica, como Xavi Hernández e Andrés Iniesta, conhecidos pela capacidade de cadência — característica que, para Iniesta, põe aquela seleção dentre as maiores já vistas.
Entre 2008 e 2012 — período coroado pelo técnico Vicente del Bosque —, a Espanha burilou o tiki-taka. Venceu a Euro em 08, depois conquistou a Copa em 10 e, por fim, retornou ao topo da Europa em 12. De 64 a 08, pararam nas quartas de qualquer competição disputada.
Era uma sina, talvez melodramática demais, como se fosse um enredo de Pedro Almodóvar. Parecia que, em 2010, o jejum seguiria — houve uma derrota por 1 a 0 para a Suíça, logo na estreia. Depois desse revés, La Fúria alcançou o mata-mata. E fez sempre o placar mínimo.
Jogava-se com as ideias de Pep Guardiola, o técnico revolucionário do Barcelona. A seleção, tal qual o clube catalão, marcava por pressão, recuperava a bola tão logo a perdia, ditava o ritmo, trocava passes e freava o adversário. Só tinha um detalhe: tudo isso feito sem Messi.
Diante dos franceses, La Roja quer cadência e passes

O craque e analista Tostão sintetizou o fim do encanto: “No Mundial de 2014, esperava-se o mesmo sucesso, mas o time, sem um ótimo atacante e com vários jogadores mais veteranos — especialmente Xavi, grande organizador da equipe —, foi um fracasso.” Caiu na 1ª fase.
Na Rússia, os espanhóis já não tinham mais o time a ser batido. Naquele ano, caíram nas oitavas de final, diante dos anfitriões. Em 2022, agora em solo catari, os mil passes de Luis Enrique ficaram na batalha entre ibéricos e mouros — de novo, nas oitavas e nos pênaltis.
Dessa vez, o desafio é, por assim dizer, vertical: conter o ataque francês. O técnico Didier Deschamps desloca a pressão para o lado espanhol. Segundo ele, os rivais são favoritos. “É uma equipe muito boa, com muitos pontos fortes”, disse à Federação Francesa de Futebol.
Rotulado de pragmático, por vezes retranqueiro, Deschamps balançou no cargo após perder a semifinal da Eurocopa 2024. Foi de virada, o que dificultou as coisas. Mas o selecionador, campeão Mundial em campo e do lado de fora, percebeu ser inevitável repensar suas ideias.

Poderio
Desde então, remodelou seu time e, sobretudo, encontrou uma solução à sua inquietação: fazer Ousmane Dembélé, Michael Olise, Désiré Doué e Bradley Barcola jogarem juntos. Até aqui, tem funcionado: marcaram 16 gols em seis jogos. O jogo bonito lembra o Brasil de 1982.
Les Blues, assim, chegam à 8ª semifinal de sua história. Neste time, o craque chama-se Kylian Mbappé, filho de camaronês e mãe argelina. Com oito gols na edição deste ano, é rápido, driblador e artilheiro. Costuma desequilibrar, como quando diante do Paraguai.
Manu Koné e Adrien Rabiot asseguram o equilíbrio ao meio-campo. Multicultural e africana — metonímia da diáspora —, a seleção possui ainda um sólido sistema defensivo. Sofreu, ao todo, dois gols em toda Copa — nenhum no mata-mata. Mike Maignan trabalhou pouco.
Apesar desse poderio, o atacante espanhol Nico Williams não teme os franceses. “Muito pelo contrário, nosso time já provou isso [poder vencê-los]. Vencemos as duas últimas partidas [contra a França]”, disse Williams à imprensa. Quem passar será favorito para ganhar a Copa.
