Alta dos combustíveis faz transporte pesar mais no orçamento das famílias brasileiras
Aline Drumond - Estágio DM
Publicado em 15 de julho de 2026 às 16:52 | Atualizado há 1 hora
Transporte registrou a maior alta entre os gastos apontados pelos brasileiros como os que mais pesam no orçamento | Foto: Reprodução
Os gastos com transporte ganharam peso no orçamento das famílias brasileiras e passaram a figurar entre as principais despesas mensais da população. O aumento foi identificado na 13ª edição dos Indicadores de Qualidade do Trabalho da Sondagem do Mercado de Trabalho, divulgada na última terça-feira (14) pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre).
O levantamento mostra que, em junho, os brasileiros apontaram alimentação, contas de serviços públicos e aluguel ou financiamento da moradia como os três gastos que mais comprometem a renda. No entanto, o transporte registrou a maior alta na comparação com o mesmo período do ano passado.
Entre os entrevistados que incluíram o transporte entre as três despesas de maior impacto no orçamento, o percentual saltou de 2% em junho de 2025 para 27,6% em junho de 2026, avanço de 25,6 pontos percentuais.
Segundo o superintendente adjunto do FGV Ibre, Rodolpho Tobler, esse crescimento reflete principalmente o encarecimento dos deslocamentos, impulsionado pela alta dos combustíveis.
De acordo com o pesquisador, o cenário é consequência das oscilações no mercado internacional de petróleo provocadas pelo conflito no Oriente Médio, fator que elevou os custos tanto do transporte individual quanto do coletivo e tende a manter os preços em níveis elevados nos próximos meses.
O CEO da Asset Wealth Management, Gustavo Assis, também avalia que o comportamento acompanha a evolução da inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Segundo ele, o grupo de transportes permanece entre os mais instáveis, influenciado pelos reajustes dos combustíveis, das tarifas de transporte público e pelos custos relacionados aos veículos.
Famílias enfrentam maior pressão para fechar as contas
Além do aumento dos gastos com transporte, a sondagem mostra que ficou mais difícil equilibrar o orçamento doméstico. Nos últimos três meses, abril, maio e junho, 69,1% dos entrevistados disseram conseguir pagar as despesas essenciais, percentual inferior aos 72,4% registrados em fevereiro.
Na avaliação de Rodolpho Tobler, a piora não está necessariamente ligada à redução da renda das famílias. Para o pesquisador, o principal fator é a pressão exercida pelo aumento dos custos, que compromete uma parcela maior do orçamento e dificulta manter as contas em dia.
Satisfação no trabalho diminui e cresce preocupação com o mercado
Além da pressão sobre o orçamento, a pesquisa identificou uma piora na percepção dos trabalhadores em relação ao próprio emprego. No trimestre encerrado em junho, 64% dos entrevistados afirmaram estar satisfeitos com o trabalho, percentual inferior aos 68% registrados em janeiro deste ano.
Ao mesmo tempo, aumentou o número de pessoas que disseram estar insatisfeitas com a ocupação. O índice passou de 5,7% para 6,9% no mesmo período.
Entre os principais motivos para a insatisfação, a remuneração foi o fator mais citado. Segundo a sondagem, 57,9% dos entrevistados consideram que o salário recebido não acompanha suas expectativas ou necessidades.
Na avaliação do superintendente adjunto do FGV Ibre, Rodolpho Tobler, o resultado está diretamente ligado ao aumento do custo de vida. Para o pesquisador, o mercado de trabalho continua aquecido, mas a renda tem sido insuficiente para compensar a elevação das despesas das famílias.
A pesquisa também revela cautela em relação ao futuro do emprego no país. Cerca de 41% dos entrevistados afirmaram acreditar que conseguir uma colocação no mercado de trabalho é uma tarefa difícil.
Segundo Tobler, a percepção está relacionada ao ritmo da atividade econômica. Na avaliação dele, caso a desaceleração da economia persista, a expectativa é de que o mercado de trabalho também enfrente um cenário mais desafiador nos próximos meses.
O CEO da MA7 Negócios, Matos, avalia que esse sentimento reflete as características do mercado de trabalho brasileiro. Para ele, muitos trabalhadores acreditam ser possível encontrar uma nova fonte de renda, principalmente por meio da informalidade ou de trabalhos autônomos. No entanto, essa facilidade costuma vir acompanhada de vínculos mais frágeis e da ausência de mecanismos de proteção, como seguro-desemprego e FGTS.
Na visão do especialista, esse contexto faz com que os brasileiros tenham confiança para buscar novas oportunidades, mas, ao mesmo tempo, convivam com a insegurança provocada pela falta de estabilidade financeira em caso de perda de renda.