Enem aumenta ansiedade e compromete saúde mental de estudantes, alerta especialista
Léo Carvalho
Publicado em 17 de julho de 2026 às 14:20 | Atualizado há 2 horas
Pressão por resultados no Enem gera síndrome do desempenho e compromete a saúde de estudantes | Foto: Divulgação
A preparação para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) tem provocado um aumento significativo nos casos de ansiedade entre estudantes, especialmente aqueles que estão concluindo o Ensino Médio. Segundo a pesquisa “Escolha Profissional e Ansiedade”, da Fundação Getulio Vargas (FGV), 63% dos alunos relatam sentir ansiedade severa ao pensar no futuro profissional e na realização do exame.
Especialistas atribuem esse cenário ao que chamam de “síndrome do desempenho”, fenômeno em que o estudante passa a associar seu valor pessoal exclusivamente à nota obtida no Enem. A consequência é uma rotina marcada por autocobrança, excesso de estudos e sensação constante de insuficiência.
De acordo com Juliana Evelyn, coordenadora pedagógica da Rede Enem, plataforma de educação digital, a combinação entre a intensa preparação para a prova e o período de formação da identidade vivido por jovens de 17 e 18 anos torna o processo ainda mais desgastante.
“A exigência por uma rotina de estudos intensa, somada ao processo de construção de identidade característico dessa faixa etária, resulta em uma sensação constante de insuficiência. O estudante é bombardeado com a ideia de que precisa ser o melhor o tempo todo, o que transforma a preparação em um fardo”, afirma.
Redes sociais aumentam a pressão
Segundo a especialista, a ansiedade também é potencializada pelo ambiente digital. Em plataformas como Instagram e TikTok, estudantes são frequentemente expostos a vídeos que mostram jornadas de estudo de até 12 horas diárias, cronômetros de produtividade e rotinas altamente organizadas.
Essa comparação constante cria uma expectativa difícil de ser alcançada. Para Juliana, muitos candidatos acabam comparando sua realidade, marcada por cansaço e dúvidas, com conteúdos cuidadosamente editados para as redes sociais.
Além do impacto emocional, o excesso de pressão também compromete o desempenho intelectual. O estado permanente de estresse reduz a capacidade de concentração, dificulta a retenção de conteúdos e aumenta a ocorrência dos chamados “brancos” durante as provas.
Sintomas vão além da ansiedade
Quando a preocupação deixa de ser natural e passa a representar um risco à saúde, alguns sinais costumam aparecer. Entre eles estão insônia persistente, isolamento social, dores de cabeça frequentes, problemas gastrointestinais e outros sintomas físicos relacionados ao estresse.
Nesses casos, o vestibular deixa de ser apenas um desafio acadêmico e passa a atuar como um fator de adoecimento, afetando diretamente a qualidade de vida do estudante.
Desigualdade aumenta a cobrança
A pressão pela aprovação imediata também tem forte relação com a realidade socioeconômica dos candidatos. Para muitos estudantes da rede pública, conquistar uma vaga na universidade logo após o Ensino Médio representa a única oportunidade de continuar os estudos antes da necessidade de ingressar no mercado de trabalho.
Segundo Juliana Evelyn, esse contexto faz com que um ano adicional de preparação seja encarado como fracasso, percepção reforçada pela cultura do imediatismo presente nas redes sociais.
Descanso também faz parte da preparação
Como forma de enfrentar esse cenário, Juliana orienta estruturar planos de estudos que incluem períodos obrigatórios de descanso e utilizar os erros dos simulados como instrumentos de aprendizado, e não como indicadores de incapacidade.
Para a especialista, preservar a saúde mental é tão importante quanto manter uma rotina de estudos consistente.
“O Enem é apenas uma prova, e não um atestado sobre a inteligência do aluno. O futuro não cabe em um gabarito de 90 questões. O descanso é parte fundamental da preparação e nenhum curso vale o sacrifício da saúde”, conclui.