Garrincha foi herói de pernas tortas que deu alegria para o povo
Redação Online
Publicado em 2 de agosto de 2026 às 21:55 | Atualizado há 3 horas
Alegria do Povo: Garrincha fez história com a camisa do Botafogo nas décadas de 1950 e 1960 | Foto: Botafogo/ Divulgação
Marcus Vinícius Beck
Outro dia, depois de fuçar no Globoplay, encontrei o filme: “Garrincha, Alegria do Povo”. Pelas lentes do cineasta Joaquim Pedro de Andrade, Manoel Francisco dos Santos emergiu como um Charles Chaplin da bola. Ele bailou e enganou, enganou e bailou, fazendo sorrir quem o assistia em suas troças e galhofas. Zombou de tudo e de todos, malandro que é.
Garrincha divertiu o proletariado. Era espontâneo, amavelmente inconsequente, com um instinto de Macunaíma — o anti-herói do escritor Mário de Andrade, publicado em 1928. Não se conhecia, na época, um modelo alternativo a esse, capaz de despertar os sonhos da classe operária que, olhando em retrospecto, entendia-se carente de deuses e de milagres.
Daí a identificação imediata entre Mané e os geraldinos. Mas, se um dia ele foi adorado por nos fazer gracejar, hoje o ponta-direita está esquecido. Os jornalistas não o colocam dentre os maiores já vistos. São raros os que o testemunharam ao vivo nos estádios. Diante da finitude, batemos um bolão em amnésia. Nem a picardia de Garrincha consegue escapar dessa sina.
Mané foi imprevisível e lúdico, ao contrário do Rei Pelé, um James Joyce das chuteiras, um Ludwig van Beethoven, o melhor de todos. Ai meu Deus, minha Nossa Senhora da Cancha, meu Senhor da Peleja! Garrincha não tinha tanto o que fazer, senão brincar mais e melhor.
O craque e analista Tostão, nos últimos anos, insiste que Garrincha foi muito mais do que um driblador, um bailarino, homem que dava espetáculos. Foi, assevera o cronista, craque. Jogava com alegria, espontaneidade, deixando os marcadores no chão e batidos no lance. Aí, segundos depois, percorria uma odisseia e botava seus companheiros em boas condições.

Craque
Garrincha não cruzava, Garrincha passava a bola, me ensina Tostão. “Quando não tinha um companheiro em condições de recebê-la, driblava mais um, dois rivais ou entrava pelo meio para finalizar e fazer o gol”, escreve o tricampeão, na crônica “O Poeta da Bola”, de 2003.
Há muitas lendas. Sempre se falou que o treinador do Botafogo, Gentil Cardoso, ao ver as pernas arqueadas de Mané, declarou: “Aqui dá de tudo, até aleijado.” Na biografia “Estrela Solitária — Um Brasileiro Chamado Garrincha”, o jornalista Ruy Castro desmente. Ruy, no entanto, confirma outra história, a de que Garrincha driblou o experiente Nilton Santos.
Detalhe: não só driblou-o, como o fez duas vezes. O herói, ainda, enfiou a redonda por baixo das pernas de Nilton noutra jogada. Via-se um jogador despreocupado, uma garrincha, ave pequena de dorso preto em listras, que comia insetos inofensivos. As pernas dispostas para dentro, em vez de inviabilizar a prática futebolística, tornaram-se fontes de jogadas plásticas.
Uma delas ocorreu em 1958, na Itália. Antes da Copa daquele ano, a Seleção viajou ao país mediterrâneo, onde disputou um amistoso contra a Fiorentina. Garrincha sambou na defesa da viola, indo para lá, indo para cá, tal qual um dançarino sobre o palco em noite de estreia.

Dribles plásticos de Garrincha levavam público a aclamá-lo
O escritor Eduardo Galeano, em “Futebol ao Sol e à Sombra”, descreve: “Garrincha invadiu a área, deixou um beque sentado e se livrou de outro, e de outro. Quando já tinha enganado até o goleiro, descobriu que havia um jogador na linha do gol: Garrincha fez que sim, fez que não, fez de conta que chutava no ângulo e o pobre coitado bateu com o nariz na trave.”
Com sua prosa poética e elegante, Galeano narra que o arqueiro tornou a incomodar Mané, que “meteu-lhe a bola entre as pernas e entrou no arco”. Garrincha, conta o uruguaio, anda olhando para o chão, “Chaplin em câmera lenta, como que pedindo desculpas por aquele gol, que levantou Florença”. Só se escutam, no estádio, aplausos para o herói macunaímico.
Garrincha, mesmo assim, foi considerado inapto. Um psicoteste, feito por João Carvalhaes, deu o ponta-direita por pouco confiável. Era a véspera do jogo contra a União Soviética, pela fase de grupos: ninguém queria a derrota. O técnico Vicente Feola escolheu o bom senso em detrimento da psicologia. E o escrete, com o seu anjo de pernas tortas, venceu por 2 a 0.
Na “Manchete Esportiva”, após a partida, o jornalista Ney Bianchi reportou: “Garrincha faz assim com a perna. Puxa a bola para cá, para lá e sai de novo pela direita. Os três russos estão esparramados na grama, Voinov com o assento empinado para cima: 38 segundos. Garrincha chuta violentamente, sem ângulo. A bola explode na trave esquerda de Iashin.”

Decisivo
A Seleção, nas quartas de final, eliminou País de Gales, com golaço de Pelé. Na semifinal, o time brasileiro goleou os franceses por 5 a 2. Garrincha desequilibrou, desarrumou a defesa, deu para Zito, Zito para Didi, que passou para Vavá: 1 a 0. Na final, contra a Suécia, Mané aniquilou a defesa nórdica, chegando à linha de fundo quinze vezes. Era difícil pará-lo.
José Miguel Wisnik, em seu “Veneno Remédio”, apontou que a carreira de Mané se esplende entre 1958 e 1962. Para o escritor e professor da USP, as pernas arqueadas, fazendo do déficit uma vantagem, são um momento de afirmação positiva desse complexo, o que conferiu um certo toque popular às formulações cosmopolitas da bossa nova e da arquitetura de Brasília.
Garrincha, como um herói em sua odisseia, ganhou ainda uma Copa, a de 62, sozinho. Pelé, naquele ano, estava machucado, vítima de uma entrada agressiva no segundo jogo. Mané marcou gol de falta, de pé direito, de esquerda. Ajudou Amarildo, ajudou Vavá. Jogou pela direita, pela esquerda, pelo meio. Fomos, assim, bicampeões. Hoje resta-nos a lembrança.