Caixa-preta revela falha no degelo antes da queda de avião da Voepass em Vinhedo (SP)
Aline Drumond - Estágio DM
Publicado em 6 de agosto de 2026 às 10:20 | Atualizado há 2 horas
Avião da Voepass que caiu em Vinhedo (SP) em agosto de 2024, deixando 62 pessoas mortas | Foto: Nelson Almeida/AFP
A investigação da Polícia Federal sobre a queda do avião da Voepass em Vinhedo (SP) aponta que a tripulação identificou uma falha no sistema de degelo ainda durante o voo. O problema foi registrado na caixa-preta da aeronave, que caiu em 9 de agosto de 2024 e deixou 62 mortos.
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De acordo com o laudo pericial, o equipamento apresentou problemas durante o trajeto entre Cascavel (PR) e Guarulhos (SP). A perícia também constatou que falhas no sistema de degelo já haviam sido registradas em voos anteriores. A informação coincide com o relatório final divulgado pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) em 23 de julho.
Os registros do gravador de voz da cabine mostram que os pilotos tentaram fazer o sistema voltar a funcionar enquanto a aeronave emitia diferentes alertas. A gravação também revela que, nos minutos que antecederam a queda, foram registrados avisos relacionados à perda de desempenho, ao estol, situação em que a aeronave perde sustentação, e à proximidade do solo.
A Polícia Federal apontou ainda que procedimentos indicados pelo fabricante para situações como as enfrentadas durante o voo não foram realizados no momento considerado adequado. Os diálogos da cabine fazem parte do laudo pericial obtido pelo programa Fantástico.
A investigação da Polícia Federal chega à fase final. A corporação deve divulgar a conclusão do inquérito nesta quinta-feira (6).
Falha no sistema de degelo foi identificada durante a subida
O primeiro alerta relacionado ao sistema de degelo apareceu enquanto o avião ainda ganhava altitude após deixar Cascavel com destino a Guarulhos.
Na gravação, o piloto identifica uma falha e orienta a retirada do sistema, dizendo: “É o ‘Airframe’ que deu ‘fault’… pode tirar, pode tirar… pelo menos a gente já sabe que tá…”.
Logo depois, o copiloto comenta sobre as condições encontradas durante o voo e menciona a necessidade de alterar a altitude para evitar a formação de gelo: “Olha a situação, se bem que não tá reportado isso aí, mas pra gente não pegar gelo teria que ir no 110, né?”.
O comandante, então, faz uma referência ao personagem Herbie, do filme Se Meu Fusca Falasse, ao comentar sobre a aeronave: “Foi só eu falar. O avião escutou. Esse avião parece aquele Fusquinha, Herbie lá… Herbie, filme bem antigo.”
Segundo a PF, o alerta identificado como AIRFRAME FAULT correspondia a uma falha no sistema pneumático responsável pelo degelo da aeronave. O procedimento estabelecido pelo fabricante para esse tipo de ocorrência orientava que a tripulação deixasse imediatamente a região em que havia formação de gelo.
Os dados registrados durante o voo, porém, indicam que a aeronave permaneceu naquela área e não realizou a ação prevista no procedimento naquele momento.
Gelo se intensifica nos minutos finais do voo
A situação voltou a se agravar quando o avião já estava próximo de São Paulo, quase uma hora depois dos primeiros registros relacionados ao sistema de degelo.
O copiloto relatou a presença de gelo de forma direta: “Bastante gelo”. Em seguida, ele tentou novamente colocar o sistema em funcionamento e disse: “Ligar o airframe”.
O comandante respondeu que o equipamento continuava sem funcionar: “Essa bosta não tá funcionando, né?”. O copiloto confirmou: “É.” Na sequência, ele voltou a registrar a presença de gelo: “Gelo.”
Pouco depois, o alarme de estol permaneceu acionado durante 48 segundos. Na sequência, o sistema de alerta de proximidade do solo, conhecido como TAWS, passou a emitir repetidamente a orientação “Pull-up… Pull-up”, que indica a necessidade de uma ação imediata para evitar o impacto contra o terreno.
A investigação também identificou que os computadores da aeronave emitiram alertas relacionados à degradação do desempenho e ao aumento da velocidade. Os avisos ocorreram antes de o avião perder sustentação, entrar em estol e, posteriormente, cair.
PF aponta combinação de fatores para a queda
O laudo da Polícia Federal concluiu que os pilotos não executaram, no momento recomendado, procedimentos determinados pelo fabricante para situações envolvendo falha no sistema de degelo, degradação do desempenho, formação severa de gelo e recuperação de estol.
Segundo informações divulgadas pelo Fantástico, a PF considera que o acidente foi provocado por uma combinação de fatores. Entre eles estão as falhas recorrentes no sistema de degelo, a operação da aeronave em uma região com formação severa de gelo, o descumprimento dos procedimentos estabelecidos pelo fabricante e uma sequência de falhas nas barreiras de segurança que deveriam atuar antes da ocorrência do acidente.