Brasil

Pacientes relatam piora de câncer após tratamento com testosterona

Léo Carvalho

Publicado em 6 de agosto de 2026 às 13:03 | Atualizado há 1 hora

Três mulheres afirmaram abandonar tratamento convencional após  seguir protocolo com altas doses de hormônios | Foto: Getty Images
Três mulheres afirmaram abandonar tratamento convencional após seguir protocolo com altas doses de hormônios | Foto: Getty Images

LAIZ MENEZES / FOLHAPRESS – Três pacientes com câncer de mama afirmam ter sido induzidas por uma médica e um cirurgião-dentista a aderir a um protocolo com altas doses de testosterona e outros hormônios que, segundo eles, seria capaz de curar a doença. Segundo os relatos, os tumores evoluíram de estágio inicial para cânceres avançado ou metastático.

A médica Lana Tiani Almeida da Silva chegou a ser investigada em 2024 após declarações públicas em que negava a existência do câncer de mama, e a Justiça determinou que ela retirasse do ar os vídeos em que fazia tal afirmação. Ela também foi investigada pelo Conselho Regional de Medicina (CRM) do Pará, e o processo tramita sob sigilo no Conselho Federal de Medicina (CFM). A médica permanece com o registro ativo.

O cirurgião-dentista Marco Antônio Botelho Soares, por sua vez, é investigado pelo Ministério Público de São Paulo. No ano passado, ele foi indiciado pela Polícia Civil por suspeita de charlatanismo, falsidade ideológica e exercício ilegal da medicina. Segundo o Conselho Federal de Odontologia (CFO), o registro profissional de Botelho foi cassado, e ele está impedido de exercer a profissão por atuar fora do âmbito da odontologia.

Apesar das investigações, ambos continuam realizando consultas virtuais e atuando por meio de uma rede de médicos e outros profissionais que seguem o mesmo protocolo, embora o paradeiro dos dois seja desconhecido. Procurados pela reportagem em diferentes ocasiões, por mensagens e ligações telefônicas, eles não responderam até a publicação da matéria e bloquearam dois números da repórter.

As três pacientes, que tiveram suas identidades preservadas e receberam nomes fictícios, afirmam que decidiram seguir o tratamento alternativo em um momento de vulnerabilidade, quando tinham receio de iniciar ou dar continuidade ao tratamento convencional contra o câncer, baseado em cirurgia, quimioterapia e radioterapia. Elas relatam que acreditaram na promessa de cura por meio de hormônios e vitaminas.

Segundo o endocrinologista Felipe Gaia, presidente da regional São Paulo da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), o método representa um “disparate”. O especialista explica que cerca de dois terços dos cânceres de mama são hormônio-dependentes e que o tratamento convencional busca justamente bloquear ou reduzir a ação desses hormônios.

A reportagem teve acesso a exames, fotografias, prescrições médicas e conversas por WhatsApp entre os profissionais e as pacientes.

Alice, de 46 anos, recebeu em 2024 o diagnóstico de carcinoma invasivo de mama em estágio 2. Após indicação de uma amiga, participou de um curso de reposição hormonal ministrado por Marco Botelho, em São Paulo, pelo qual pagou R$ 800.

Os cursos oferecidos pelo cirurgião-dentista já haviam sido alvo de investigação do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp). Segundo o órgão, Botelho comercializava uma técnica de modulação hormonal com nanopartículas que prometia curar doenças graves, incluindo o câncer.

Posteriormente, Alice foi orientada pelo próprio Botelho a consultar Lana Almeida, que prescreveu testosterona, progesterona, estradiol e outros medicamentos manipulados. Segundo a paciente, os produtos foram adquiridos na farmácia Nanofármacos, da qual Botelho é representante.

Ela afirma ainda que exames de imagem eram interpretados pela médica como “calcificações”, e não como tumor.

Calcificações mamárias são depósitos de cálcio comuns no tecido da mama e, na maioria das vezes, benignos. Entretanto, determinados padrões podem indicar câncer em estágio inicial, motivo pelo qual costumam ser investigados com exames complementares e biópsia.

Segundo Alice, enquanto seguia o protocolo hormonal, o tumor evoluiu e hoje ela convive com câncer metastático em estágio 4, sem possibilidade de cura.

Outra paciente, identificada como Fernanda, de 35 anos, relata que recebeu diagnóstico de câncer de mama em outubro de 2024 após detectar um nódulo em exames de rotina. Depois de acompanhar vídeos de Marco Botelho nas redes sociais, entrou em contato com ele e foi encaminhada para consulta online com Lana Almeida.

Segundo Fernanda, durante o atendimento a médica afirmou que o nódulo era apenas uma “calcificação” e prescreveu prasterona, testosterona, progesterona, estradiol, vitaminas, melatonina e ocitocina.

Ela manteve o tratamento até agosto de 2025, quando começou a emagrecer rapidamente e percebeu o surgimento de uma mancha escura na mama. Ao procurar outro especialista, iniciou o tratamento oncológico convencional. Segundo ela, o tumor aumentou de aproximadamente um centímetro para oito centímetros e segue em tratamento.

A terceira paciente, identificada como Jéssica, de 44 anos, havia tratado um câncer de mama diagnosticado em 2017 com cirurgia, quimioterapia e radioterapia. Em 2022, após interromper o bloqueador hormonal para tentar engravidar, descobriu uma metástase óssea na coluna e conheceu Marco Botelho pelas redes sociais.

Ela participou do curso promovido pelo cirurgião-dentista, entrou em contato com outras pacientes que diziam ter obtido sucesso e passou a utilizar cremes de testosterona, progesterona e suplementos.

Segundo Jéssica, mesmo apresentando um câncer receptor hormonal positivo, que utiliza hormônios para crescer, os profissionais insistiram na reposição hormonal.

O mastologista Guilherme Novita, presidente da Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM), afirma que a administração de estrógeno, progesterona ou testosterona em pacientes com esse tipo de câncer pode favorecer o crescimento de células tumorais remanescentes.

Jéssica relata que, quando seu quadro piorou em 2025, ouviu da médica que a causa seria espiritual e decidiu abandonar o tratamento. Posteriormente, médicos que a atenderam atribuíram a piora do quadro ao uso dos hormônios.

Em contato telefônico realizado no dia 23 de junho, a repórter se passou por uma paciente que havia recebido diagnóstico de câncer de mama após uma biópsia. Segundo a reportagem, Marco Botelho respondeu: “Fique tranquila que não é câncer, é cálcio. Não se estresse com isso.”

Em outra simulação realizada no mesmo dia com Lana Almeida, a médica também orientou que não seria necessário seguir o tratamento convencional, afirmando que trataria o câncer por meio de reposição hormonal e suplementação de vitaminas.

No dia seguinte, a reportagem voltou a procurar os dois profissionais, desta vez identificando-se como jornalista. Até a publicação da matéria, nenhum deles havia se manifestado.


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