Incerteza sobre futuro fiscal nas eleições pesa sobre Bolsa e real
Fernando Henrique - Estágio DM
Publicado em 30 de agosto de 2026 às 17:41 | Atualizado há 53 minutos
Eleições aumentam volatilidade e colocam Bolsa e real sob pressão | Foto: Reuters
A campanha eleitoral começou em 16 de agosto e já tem reverberado nos preços dos ativos brasileiros. A indefinição sobre a abordagem dos candidatos para a trajetória da dívida pública tem alimentado as expectativas de juros mais altos e pressionado a Bolsa e o real.
O fator, em conjunto com a guerra no Oriente Médio e a pressão inflacionária decorrente do conflito, é apontado como um dos fatores por trás da saída de investidores estrangeiros do Ibovespa e do fluxo cambial negativo em agosto.
Segundo dados da B3, o saldo dos investidores internacionais está negativo em R$ 18,7 bilhões no mês, o pior resultado de 2026. No acumulado do ano, porém, o saldo ainda permanece positivo em R$ 22,3 bilhões.
A isso se soma o fluxo cambial negativo do mês. Segundo dados do Banco Central, divulgados na quarta-feira (26), houve saída líquida de US$ 2,55 bilhões do início do mês até a última sexta-feira (21). Apenas na semana passada, o fluxo cambial registrou saída líquida de US$ 4,055 bilhões.
Volatilidade eleitoral pesa sobre o mercado
Segundo o JP Morgan, a volatilidade associada às eleições brasileiras tem pesado sobre o mercado. O fator foi um dos motivos para o banco reduzir sua recomendação para as ações brasileiras de “overweight” (acima da média) para “neutra” no início do mês.
O movimento do fluxo estrangeiro contrasta com o observado no início do ano. Em janeiro, o volume de recursos estrangeiros que entrou na Bolsa foi de R$ 26,5 bilhões valor semelhante ao registrado em todo o ano de 2025. No mesmo mês, o fluxo cambial também foi positivo, em US$ 5,1 bilhões.
Parte do ânimo era sustentada pela expectativa de que a Selic recuaria para a faixa de 12%. A queda da taxa básica aumentaria a atratividade das ações em relação à renda fixa e também poderia favorecer o real, já que investimentos estrangeiros em ativos brasileiros aumentam a demanda pela moeda.
O cenário mudou. Agora, a projeção é de apenas mais uma redução de 0,25 ponto percentual na taxa, levando a Selic para 13,75%, segundo analistas consultados pelo Boletim Focus.
A Bolsa e o real também eram beneficiados pela narrativa predominante de diversificação das carteiras globais. Em meio às instabilidades provocadas pelas políticas externa, comercial e econômica de Donald Trump nos Estados Unidos, investidores globais buscavam mercados menos expostos às incertezas e com potencial de retorno.
“Do ponto de vista doméstico, a forte queda dos juros que esperávamos no início do ano não se concretizou, e projetamos que a Selic encerre o ano em 13,75%, o que não deverá produzir um impacto significativo sobre as ações”, diz o J.P. Morgan em relatório assinado pelos analistas Rodolfo Angele, Emy Shayo Cherman, Adrian E. Huerta e Diego Celedon.
Dívida pública preocupa investidores
O banco também destaca o cenário fiscal como um fator de peso sobre o mercado acionário. O estoque da dívida bruta passou de 71,7% do PIB (Produto Interno Bruto), em dezembro de 2022, para 81,9% em junho deste ano.
“As perspectivas para a política econômica continuam incertas, já que quem vencer as eleições de outubro terá de lidar com taxas de juros reais elevadas e com déficit fiscal. Do ponto de vista mais técnico, o Brasil costuma apresentar desempenho inferior nos seis meses que antecedem as eleições”, afirma o banco.
O Morgan Stanley também reforça a preocupação com o cenário fiscal. Para o banco, o próximo governo não precisará corrigir imediatamente as contas públicas, mas terá de convencer o mercado de que a trajetória da dívida pode ser estabilizada.
“Nosso cenário pessimista considera a apresentação de um plano limitado de consolidação fiscal, o que representaria uma percepção de continuidade da política econômica. Já o cenário otimista considera um plano crível de consolidação fiscal, associado à percepção de uma mudança de política”, afirma.
Para o banco, uma percepção de continuidade fiscal sem credibilidade após as eleições poderia pressionar os ativos. Nesse cenário, o real poderia se desvalorizar e o dólar chegar a R$ 6,00, diante do temor que a inflação passe a responder mais à política fiscal do que à monetária.
Caso seja apresentado um plano amplo de consolidação fiscal, com reformas das despesas obrigatórias, ou uma estratégia considerada robusta e crível, o Morgan Stanley estima que o dólar poderia ficar entre R$ 5,25 e R$ 4,50.
Juros futuros afetam empresas
Para João Daronco, analista da Suno Research, a volatilidade dos ativos tende a aumentar em anos eleitorais à medida que o pleito se aproxima. O período costuma elevar a pressão por gastos e medidas de caráter eleitoral.
“Se você tem um fiscal um pouco mais frouxo, os juros futuros tendem a refletir isso. No Brasil de hoje, eles estão em um patamar bem elevado”, afirma.
A alta dos juros futuros afeta diferentes setores da economia brasileira e tende a se refletir no desempenho das empresas na Bolsa.
Para os bancos, por exemplo, o aumento do risco de inadimplência tende a reduzir a disposição para ampliar a oferta de crédito. No varejo, juros mais altos encarecem o custo financeiro das empresas e, ao mesmo tempo, reduzem a disposição dos consumidores para comprar.
Eleição pode definir trajetória fiscal a partir de 2027
Para Luan Aral, especialista em dólar da Genial Investimentos, a eleição é importante porque pode mudar a trajetória das contas públicas a partir de 2027.
“Qualquer presidente, qualquer candidato que assumir em 2027, terá problemas graves. E a continuidade da atual política fiscal, sem ajustes, com certeza tende a manter um prêmio de risco elevado, fazendo a curva de juros continuar para cima.”
Aral afirma que o mercado não precisa necessariamente aprovar o candidato vencedor, mas avaliar sua capacidade de conduzir as contas públicas. “A divisão mais importante não é Lula contra Flávio, e sim programa fiscal contra programa fiscal não crível”, afirma. (Matheus dos Santos/FOLHAPRESS)