Luiz Melodia, meio século depois, tem LP ‘Maravilhas Contemporâneas’ reeditado
Redação Online
Publicado em 30 de agosto de 2026 às 18:47 | Atualizado há 26 minutos
Artista carioca diz que título do disco remete ao samba-canção e soul | Foto: Daryan Dornelles
Marcus Vinícius Beck
Começa o som e Luiz Melodia solta a voz no toca-discos. Se a gente falasse menos, meu caro, talvez compreendesse mais. Escute: “Teatro, boate, cinema/ Qualquer prazer não satisfaz.” Timbre malandro de mil novecentos e setenta e seis explodindo no ouvido versos noturnos.
Melodia, essa pérola negra, canta num discaço. Sim, amigo, “Maravilhas Contemporâneas” há de seguir como marco da música popular brasileira. Mas tudo o que se tem, ouça só, não representa nada. Na trilha sonora, o diagnóstico consumista: “O jovem tem seu automóvel.”
O LP, em audição perpétua na alcova onde batuco estas notas, está em pré-venda. Isso mesmo, o álbum vai ganhar reedição pela Noize. Onze faixas escritas e cantadas por esse artista que fez o morro encontrar o asfalto — coisa boa de se apreciar, biscoito finíssimo.
A agulha gira e crepita sensações, entoando os lampejos do desejo. Lançada há 50 anos, a obra aprofunda a identidade de Melodia, que nela transita entre samba, funk, jazz, blues e MPB. O músico não preteriu a sua prosódia, muito singular: era um lírico urbano, daqueles beijos demorados, afirmados, os quais dispensavam as mentiras, ai de mim e de nós dois.
Então, beirando a mexicano e americano, quase cigano, o trovador entoa as “Maravilhas Contemporâneas”. Solos de guitarra evocam a black music, de viés jazzy e até roqueiro — diferente do que se fazia em 76 no Brasil. Como disse o jornalista Thales de Menezes, da Folha de S. Paulo, os versos melodianos “trombavam com o ufanismo” daquela época.
Tudo passa
No som, passa a vida, passa o ar: sonhos de Luiz Melodia. O ritmo, com percussão, embala confissões do eu lírico. Quer ser bem amado, guerreiro adorado, encontrando o seu terreno ao sul, roçando o amor e lembrando “os velhos amigos, os dias fingidos, clarão do lugar”. “Passa a vida ferida, passa o ar/ Mas eu quero é encontrar…”, vocaliza, em “Veleiro Azul”.
Segundo Melodia, o título do disco remete ao samba-canção e ao soul, dentre outros sons — as belezas do nosso tempo. À Trip, ele explicou que o maior legado de sua trajetória seria a “liberdade de fazer o que quiser, quando quiser”. Guiou-se pela arte, conforme o filme “No Coração do Brasil”, de Alessandra Dorgan, e o chamaram de marginal por isso — que erro.
“Eu entendo a juventude transviada/ E o auxílio luxuoso de um pandeiro/ Até sonhar de madrugada…”, entoa o cantor. “Juventude Transviada”, na análise de Eliete Negreiros, da vanguarda paulista, revela versos soltos, sem “preocupação com a lógica, texto enigmático”. O andamento é desacelerado, como se não pudéssemos vacilar na “quebrada da soleira”.
Com esse repertório lírico e essa musicalidade, Melodia havia encantado a geleia geral da zona sul carioca. O poeta Waly Salomão, artista ligado à contracultura, ficou enlouquecido. Mostrou-o aos tropicalistas, incluindo Torquato Neto, morto em novembro de 1972 — e Torquato talvez pensasse no esplendor perolizado que se tornaria o poeta do Estácio.
Desejos do dia de agora: o lado B do disco

Foi “Pérola Negra”, o elepê de 1973, que debutou esse herói baudelairiano. A faixa-título acabou regravada por Gal Costa no disco “Fatal”, de 1971, aumentando o interesse por Luiz Melodia. “É lógico que [isso] foi emocionante”, diria, anos depois, o compositor. Além de Gal, Maria Bethânia incluiu, em seu disco de 1972, o samba-canção “Estácio, Holly Estácio”.
Façamos um retorno às “Maravilhas Contemporâneas”. Melodia, em “Amor”, recita: “A cor do seu sangue é vermelho/ Vermelho é a cor do amor/Amor são palavras citadas/ Que um dia, tal poeta citou.” Ao fundo, a percussão suaviza a vida, enquanto o cantor avisa que os bardos sempre são malandros. O lado A, evocando o passado, fecha com “Baby Rose”.
Disco virado, aí é “Questão de Posse”. Lá vem Melodia descendo a ladeira do Estácio e, de repente, vê a Unidos de São Paulo. No som, o artista cochicha: “Eu quero é mel, eu quero é mel.” A guitarra murmura em meio a assobios de gaita e sussurros — “estou contigo, nêgo”.
Blues
Vem, então, o blues “Memórias Modestas”. A pérola negra garganteia o amor pelas pessoas queridas. Meu bem, meu deus, chuvas haverão de cair e molharão o show jazzy de “Mary”, invocada na terceira faixa do lado B. Sopros metalizam almas e caem no “Paquistão”, dono da madrugada, mestre dos afagos, faca molhada, ronronando os desejos “do dia de agora”.
O eu lírico — ou seria o próprio Melodia? — confessa sua tristeza quando chega o carnaval. Sendo a voz poética ou apenas o narrador, o fato é que, como eu escuto agora, eram apenas duas noites de alegria. Ele lamenta: “Perdi minha Maria”. Ela morreu ao fim da folia.
Fim do disco. Tudo acaba, feito birita e fumaça, é a única questão. A Noize Record Club, com a revista #176, lançará o LP na segunda quinzena de novembro de 2026, embora já esteja em pré-venda. Detalhe: será editado em vinil azul-claro translúcido. Nada mais apropriado.