Cavalhadas de Corumbá de Goiás reúnem mouros e cristãos em tradição de quase 275 anos
Léo Carvalho
Publicado em 1 de setembro de 2026 às 14:16 | Atualizado há 1 hora
Cavaleiros mouros e cristãos se enfrentam durante as tradicionais Cavalhadas de Corumbá de Goiás | Foto: Michelly Matos
Corumbá de Goiás se prepara para receber milhares de visitantes durante uma das manifestações culturais mais tradicionais do Estado. Entre os dias 4 e 6 de setembro, as Cavalhadas voltam a ocupar o Campo das Cavalhadas Rei Hastímphilo Cesas Curado Fleury, no Bairro 9 de Junho, com três dias de apresentações que reconstituem, a cavalo, a histórica disputa entre mouros e cristãos.
A expectativa da Associação de Cultura e Defesa do Patrimônio Histórico do município é de que mais de 15 mil pessoas acompanhem o espetáculo ao longo da programação. As apresentações serão realizadas das 15h às 18h, com entrada gratuita.
A tradição é encenada em Corumbá de Goiás desde 1752 e permanece diretamente ligada às famílias do município. Ao todo, são 24 cavaleiros, sendo 12 mouros e 12 cristãos, liderados pelos respectivos reis. Eles entram na arena montados em cavalos ornamentados e utilizam espadas, lanças e garruchas durante as cenas que representam a batalha medieval.
O som das armas também faz parte da encenação. Balas de festim são disparadas contra o solo para reproduzir o efeito sonoro característico dos confrontos.

Mais do que uma apresentação, as Cavalhadas mobilizam moradores durante todo o ano. Os próprios cavaleiros são responsáveis pelos animais que utilizam e treinam os cavalos para acompanhar o ritmo das músicas executadas pela Banda de Música 13 de Maio, que participa da tradição há mais de 135 anos.
Costureiras, cozinheiras, ajudantes e outros moradores também integram a preparação. Parte da estrutura, das refeições e dos ensaios é organizada pela própria comunidade, que contribui com recursos e trabalho para manter a manifestação.
Para o historiador Ramir Curado, autor de livros sobre a formação histórica e populacional de Corumbá de Goiás, a força das Cavalhadas está justamente na relação entre a manifestação e as famílias locais.
“As Cavalhadas em Corumbá envolvem muito a comunidade local porque têm forte apelo emotivo e tradicional. São vivências passadas entre gerações, onde famílias inteiras de descendentes dos antigos cavaleiros, desde as suas origens medievais, participam”, afirma.
Segundo o historiador, os integrantes desempenham os personagens de maneira contínua, com funções que tradicionalmente passam de uma geração para outra. A participação pode ocorrer de pai para filho ou de tio para sobrinho, reforçando a ligação da festa com a história do município.
Reis carregam décadas de tradição
Entre os personagens centrais da encenação está o Rei Mouro, atualmente interpretado pelo pecuarista José Quirino Gouveia de Moraes, o Juca, de 70 anos. A relação dele com as Cavalhadas começou aos 22 anos.
Em 2026, Juca completa 45 participações no espetáculo. Conforme Ramir Curado, ele é o cavaleiro que participou do maior número de Cavalhadas em Corumbá de Goiás. Sua primeira participação ocorreu em 1980, quando atuou como soldado mouro, no retorno da manifestação depois de quase 25 anos de interrupção.
A tradição também chegou à família. Neste ano, as filhas de Juca participarão dos festejos como mascaradas.
“A nossa apresentação é feita com espontaneidade. Pagamos as despesas do evento entre nós mesmos. A emoção é incrível. Toda vez que entro em campo sinto mais a força e a responsabilidade da minha encenação. As Cavalhadas são a minha vida, a minha história”, afirma.

Do lado cristão, o personagem é interpretado por Eudes Soares Cardoso, secretário de Finanças da Prefeitura de Corumbá de Goiás. Ele participa das Cavalhadas desde 1993, quando entrou como sétimo soldado cristão.
Eudes tornou-se embaixador cristão em 2014 e passou a interpretar o Rei Cristão em 2019. De acordo com Ramir Curado, ele possui vínculos familiares com personagens que participaram das Cavalhadas corumbaenses em gerações anteriores.
“Desde pequeno vivo essa tradição. Eu não tenho palavras para representar o que sinto quando entro na arena. É uma alegria muito intensa. Esse momento é o mais precioso que compartilhamos entre nós, corumbaenses. É a nossa tradição”, afirma Eudes.
Espetáculo termina com vitória cristã
A programação é dividida em diferentes momentos ao longo dos três dias. As cenas representam episódios da batalha entre os dois grupos e chegam ao desfecho no terceiro dia, quando a narrativa contempla a vitória dos cristãos, seguida pelo batismo e pela conversão dos mouros ao cristianismo.
Os mascarados também têm papel importante durante as apresentações. Nos intervalos, eles circulam entre o público e fazem brincadeiras por meio de gestos e pantomimas, especialmente para divertir as crianças.
Qualquer pessoa pode participar como mascarado, mas é necessário realizar a inscrição antecipadamente, junto à Secretaria de Turismo de Corumbá de Goiás, com prazo de uma semana antes do início das Cavalhadas.
O Campo das Cavalhadas contará com arquibancadas, arena para as apresentações, barracas de comidas e lanches e banheiros químicos.
Tradição nasceu no período do ciclo do ouro
A história das Cavalhadas se mistura à própria formação de Corumbá de Goiás. O município foi fundado em 1752, durante o período de exploração do ouro, quando a região ainda era um arraial de mineradores.
A manifestação reproduz uma tradição de origem medieval associada à disputa entre mouros e cristãos e chegou ao cotidiano cultural da cidade ainda no século XVIII.
Ao longo do tempo, a festa incorporou diferentes saberes e práticas, reunindo música, artesanato, gastronomia e manifestações populares. A preparação envolve moradores de diferentes gerações e mantém uma relação direta com a memória das famílias que participam do espetáculo.
Centro histórico é outra atração
Quem visitar Corumbá de Goiás durante o período das Cavalhadas também pode aproveitar a viagem para conhecer o patrimônio histórico do município.
O Centro Histórico da cidade foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 2004. O conjunto preserva o traçado urbano irregular, moldado pelas colinas e pelo Rio Corumbá, além de construções que conservam características das técnicas utilizadas no período colonial.
Edificações em adobe, taipa de pilão e pau a pique fazem parte da paisagem. Entre os pontos de interesse está a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Penha de França, ligada à origem do povoado, além do antigo Cine Esmeralda.

O centro pode ser percorrido a pé, em um roteiro que reúne arquitetura, ruas de pedra, casarões históricos, gastronomia e artesanato. A viagem também pode incluir atividades de contato com a natureza. Uma das principais atrações da região é o Salto Corumbá, parque ecológico localizado na Serra dos Pireneus.
O complexo tem como principal atração o Salto de Corumbá, cachoeira com 50 metros de queda que dá nome ao parque. O local ganhou projeção internacional e já foi destaque na revista National Geographic.
Além da principal queda, o parque reúne outras seis cachoeiras, entre elas as do Poço Rico, do Ouro e da Gruta, além de três quedas conhecidas como Cachoeiras da Gruta.
O espaço oferece opções de day use, camping e hospedagem, além de restaurante, piscinas, bares, lanchonetes, banheiros e vestiários. Entre as atividades disponíveis estão passeios a cavalo, tirolesa, arvorismo e boia cross.
Dessa forma, a programação das Cavalhadas pode ser combinada com um roteiro que percorre diferentes períodos da história de Corumbá de Goiás e inclui atrações de natureza, transformando o feriado em uma oportunidade de conhecer uma das cidades históricas mais tradicionais do Estado.
