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Tina Werneck chega tinindo em seu primeiro disco solo

Redação Online

Publicado em 1 de setembro de 2026 às 21:08 | Atualizado há 54 minutos

Cantora e compositora Tina Werneck | Foto: Helena Cooper
Cantora e compositora Tina Werneck | Foto: Helena Cooper

Marcus Vinícius Beck

Tina Werneck chegou tinindo. Aos 57 anos, a cantora lançou nas plataformas digitais seu primeiro disco solo. Evoca-se o gerúndio do verbo ser — sendo: ao mesmo tempo em que fala e escuta, toca e coloca as palavras, Tina dá conta da vida prática, do trabalho e de casa.

Não se compreende música: escuta-se. E sonha-se, claro, movendo-se e deixando-se levar em um grande risco, como numa dança incerta. Aí, querendo voar, tropeça-se nos sons e joga-se aos pés da harmonia, porque é preciso apreciar os cochichos e os murmúrios instrumentais.

Tina conta que, para ela, compor, produzir e lançar suas canções foi um acontecimento. “A cada single, eu viajava muito nas possibilidades de arranjo, na pré-produção, na preparação vocal”, revela ao Diário da Manhã. “A média dos meus lançamentos, de 2020 para 2024, foi de um a dois singles por ano. Algumas músicas eram feitas e passavam na frente de outras.”

A artista lembra à reportagem daqueles dias. Lançando single a single, ela achou melhor fechar um disco completo e, assim, a cantora e os músicos organizaram a gravação de cinco faixas em dois anos. “Você sabe, a minha ‘gravadora’ se chama Meu Bolso Records”, afirma, sorrindo. “O produtor Guilherme Gê trabalha em muitas frentes e o nosso tempo foi esse.”

Tina Werneck possui uma longa vivência na música. Toca violão clássico, domina a viola de arco, o canto coral, o rock progressivo, o som do Clube da Esquina e de todos os mineiros, o choro e suas modulações, a bossa sempre nova de Tom Jobim, a arte de Pat Metheny com a Naná Vasconcelos. É um rio que deságua no oceano musical do improviso e da orquestra.

Rock progressivo: cantora confessa inspiração na banda Yes | Foto: Helena Cooper

Reclusão

Mutatis mutandis — perdão, leitor, pelo latim musical —, Tina voltou-se ao violão na reclusão pandêmica de 2020. Neste ínterim, ela confessa, amadureceu como compositora e cantora, ganhando segurança em si e na sua performance. A artista diz gostar de ter essa história contada em “Cheguei Tinindo”, tanto que incluiu na obra os singles já gravados.

Este repórter põe pra rodar o disco: “Quero Voar” ressoando. A canção, em tom de paquera, se inspira na festa do Caxiri dada pelo povo indígena Desana, cuja festividade tem alegria. A introdução invoca “Roudabout”, do Yes, que abre o álbum “Fragile”, lançado em 1971 — obra-prima e delicada. Como diz Jobim, citado por Tina, “a gente só copia aquilo que ama”.

“Vento na ribeira/ Levanta a areia/ Me incendeia…” Na trilha sonora, a artista carioca sopra a poética sob o olhar. Embaixo da palmeira na qual gorjeia o buriti, o vento carrega o cheiro daquele beijo. “Um gosto do manacá/ Eu te quero muito, é o meu desejo/ Eu quero amar…”

“Ouço Yes desde os 12 anos de idade. Mergulhei na obra dessa banda inglesa, que me tocou profundamente. Por causa do álbum ‘Fragile’, eu quis estudar violão clássico, o que me deu uma base musical bem sólida. Quando compus ‘Quero Voar’, queria uma introdução, então peguei a harmonia do B e cantarolei de brincadeira a intro de ‘Roudabout’, do Yes”, diz Tina.

Chegou o pop rock. “Eu Deixo”, feita com a compositora Germana Guilherme, rola no som e fala em empoderamento feminino. Na sequência, vem um choro pentatônico e de harmonia simples, que vocaliza — “com metáforas astronômicas”, na visão de Tina — as sensações do desejo. É para se entregar, as dúvidas se impondo, a vida se abrindo: “Orbitando em Você”.

Canções inéditas revelam força criativa e parcerias

Artista carioca fecha disco com participação de Leila Pinheiro | Foto: Helena Cooper

Para a artista, a pandemia foi um catalisador dessa “potência criativa”. “Sobre os temas de feminismo, autoamor, empoderamento, eles estão na órbita da vida das mulheres, sobretudo aquelas que estão buscando se constituir como mulheres autônomas, com olhar carinhoso e encorajador para si mesmas. Há anos faço terapia e sem isso não teria feito esse álbum”, diz.

Na quarta música, intitulada “Zambizo”, há sensação de alto-astral — sambinha, sambinha em 7, zambizo. Segundo Tina, a introdução remete a “Fragile”, do Yes, cuja faixa “The Fish” lhe foi uma “nítida inspiração”. Logo depois, tendo participação de Muiza Adnet, começa “Água”: soa dinâmica e reflexiva, inspirada na destruição do Rio Tapajós pelo garimpo.

“Cheguei Tinindo” salta da MPB-fusion-rock à balada “Teresa e Januário”. A letra se baseia no romance “Teresa Batista Cansada de Guerra”, do escritor Jorge Amado, cujo enredo fala a respeito da violência do patriarcado brasileiro. O romantismo, de sabor positivo e sem jogos, trata de afeto e amor. Já “Ouronágua” é uma música instrumental típica da MPB mineira.

Memórias do autor

Enquanto o timbre farfalha no quarto, o autor deste texto rememora o sol a brilhar sobre as águas da Baía de Guanabara. Ele anda pela Rua Almirante Alexandrino, em Santa Teresa, no Rio de Janeiro, durante o período em que morou no bairro, e vê diante dos seus olhos o mar imenso e eterno. É uma beleza real, disso tenho certeza, mas impalpável — tal qual a vida.

Até que, em “Sete Cores do Meu Céu”, o riff parece algo do Pink Floyd. Ecos de uma viagem sonora e profunda. A canção, assim como “Coisas Incríveis”, desnuda o romantismo que se motivou pela leitura de “Dão Dalalão”, do escritor Guimarães Rosa. Então, ansiando por leveza, o amor não é correspondido — quem nunca, ora, quis chamar atenção de outrem?

A viagem se encerra com “Egípcio”, instrumental, e “O Amor Vai Chegar”, samba-jazz de partido alto com participação da cantora Leila Pinheiro. “A Leila chegou como ‘madrinha’, dando aquele aval de luxo pra essa sua amiga aqui. É uma sorte de quem tem uma estrada e mora no Rio, né?”, explica Tina Werneck ao DM. Ela, de fato, chegou tinindo — ouça.


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