Noruega se despede do rei Harald V após 13 dias de luto nacional
Heloysa Camilo - Estágio DM
Publicado em 9 de setembro de 2026 às 11:02 | Atualizado há 39 minutos
Após 13 dias de luto nacional, Noruega se despede de Harald V | Foto: REUTERS
A Noruega encerrou nesta quarta-feira (9) um período de 13 dias de luto nacional pela morte do rei Harald V, que morreu aos 89 anos após mais de três décadas no trono. A despedida oficial foi realizada em Oslo, com a presença de membros de famílias reais europeias e asiáticas, além de chefes de Estado e outras autoridades internacionais.
O dia começou com um cortejo a pé que saiu do Palácio Real em direção à Catedral de Oslo. A procissão foi acompanhada por salvas de canhão disparadas da Fortaleza de Akershus. Ao longo da Avenida Karl Johan, dezenas de milhares de pessoas se reuniram para prestar homenagem ao monarca. Segundo a polícia, o público permaneceu em silêncio durante a passagem do caixão.
Na catedral, uma cerimônia religiosa teve início às 13h, no horário local, depois de um minuto de silêncio observado em todo o país.
Entre os convidados estavam o príncipe William e a princesa Anne, do Reino Unido; o príncipe herdeiro Akishino e a princesa herdeira Kiko, do Japão; o rei Felipe VI, a rainha Letizia e a rainha Sofia, da Espanha; representantes da família real da Suécia; e o rei Frederik e a rainha Mary, da Dinamarca.
O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, também participou das homenagens. Ele chegou a Oslo na noite anterior e se reuniu com o primeiro-ministro norueguês para tratar da guerra entre Ucrânia e Rússia. Os Estados Unidos foram representados por Allison Hooker, subsecretária de Estado para Assuntos Políticos.
Despedida termina na cripta real
Depois da cerimônia religiosa, um segundo cortejo conduziu o caixão até a cripta real, localizada na Fortaleza de Akershus, com vista para o porto de Oslo. Harald será colocado em um sarcófago ao lado dos pais.
Com a saída do novo rei, Haakon VIII, da cripta, o luto nacional será oficialmente encerrado. As bandeiras, mantidas a meio mastro desde a morte de Harald, voltarão a ser hasteadas. Os sinos das igrejas de todo o país também tocarão durante uma hora.
A operação de segurança para a cerimônia foi considerada pela polícia norueguesa a maior já planejada pela corporação. Escolas chegaram a liberar estudantes para que pudessem acompanhar o funeral.
Centenas de milhares de noruegueses já haviam passado pelo Palácio Real nos últimos dias para deixar flores, velas e bandeiras. A comoção também foi registrada na capela real, onde cidadãos fizeram fila para prestar suas últimas homenagens.
Família real vive momento delicado
A despedida de Harald acontece em uma fase especialmente turbulenta para a monarquia norueguesa. O novo rei, Haakon VIII, assumiu o trono após a morte do pai, mas parte da família enfrenta problemas de saúde e controvérsias que ganharam repercussão pública.
A rainha Mette-Marit, mulher de Haakon, compareceu ao funeral acompanhada da rainha Sonja, viúva de Harald. Ela se recupera de um transplante de pulmão realizado em junho e, na semana passada, precisou cancelar sua participação na cerimônia de juramento do marido no Parlamento devido a complicações relacionadas à cirurgia.
Também esteve presente Marius Borg Høiby, filho de Mette-Marit de um relacionamento anterior. Ele cumpre prisão domiciliar e utiliza tornozeleira eletrônica após ter sido condenado por crimes que incluem estupro e violência doméstica. Høiby recorreu da sentença.
A participação dele no funeral chamou atenção porque esteve entre os responsáveis por carregar o caixão durante o traslado para a capela real, provocando críticas em alguns setores da Noruega e também no exterior.
Um rei popular entre os noruegueses
Harald V deixa uma imagem marcada pela proximidade com a população e por uma postura considerada inclusiva durante seu longo reinado. Em seu primeiro pronunciamento como soberano, Haakon descreveu o pai como um homem e pai maravilhoso. A população também demonstrou forte apoio à monarquia durante os dias de luto.
Uma pesquisa do instituto Norstat para a emissora NRK, divulgada em 1º de setembro, apontou que 72% dos noruegueses continuam favoráveis à monarquia, enquanto 20% disseram preferir uma república ou outra forma de governo.
“Ele significava muito para mim, para a minha família e para todo o país”, afirmou Elisabeth Kallevik Nesheim, de 66 anos, que viajou da costa oeste da Noruega para participar das homenagens.
Mais de 30 anos no trono
Harald nasceu em 21 de fevereiro de 1937, em Skaugum, nos arredores de Oslo. Filho do rei Olav V e da rainha Märtha, ele tinha duas irmãs mais velhas, as princesas Ragnhild e Astrid.
Aos 53 anos, tornou-se rei após a morte do pai, em 17 de janeiro de 1991. Ele foi o primeiro príncipe a nascer na Noruega em 567 anos.
Antes disso, Harald havia assumido algumas funções de regência enquanto o pai enfrentava problemas de saúde. Ao longo do reinado, manteve a tradição familiar expressa pelo lema: “Damos tudo pela Noruega”.
Mesmo diante dos problemas de saúde e após a decisão de sua prima, a rainha Margrethe II, de abdicar do trono dinamarquês, Harald afirmou que não pretendia seguir o mesmo caminho. Em 2024, reforçou que havia feito um juramento ao Parlamento norueguês e que pretendia mantê-lo durante toda a vida.
Harald e Sonja desafiaram tradições
A história de Harald também ficou marcada pelo casamento com Sonja Haraldsen, uma plebeia de Oslo. O relacionamento começou anos antes do casamento e precisou da autorização do governo e das lideranças parlamentares.
Os dois se casaram na Catedral de Oslo em 29 de agosto de 1968. Tiveram dois filhos: a princesa Märtha Louise, nascida em 1971, e Haakon, nascido em 1973.
A escolha de Sonja representou uma mudança importante dentro da tradição da família real norueguesa. Durante décadas, a monarquia também passou por transformações institucionais, incluindo a alteração constitucional que garantiu que o filho mais velho pudesse herdar a coroa independentemente do sexo.
Saúde marcou os últimos anos
Os problemas de saúde de Harald foram recorrentes nos últimos anos e, em diferentes ocasiões, levaram Haakon a assumir temporariamente as funções do pai.
O rei foi hospitalizado diversas vezes por infecções e problemas respiratórios. Em 2024, durante uma viagem à Malásia, precisou ser internado devido a uma infecção e posteriormente retornou à Noruega em um avião militar. Ele também passou por procedimentos cardíacos, incluindo a implantação de um marca-passo definitivo.
Harald ainda havia sido submetido a uma cirurgia para substituir uma válvula cardíaca em 2020 e enfrentava dificuldades de mobilidade. Em 2005, passou por tratamento para a retirada de um tumor na bexiga.
Apesar das limitações físicas, permaneceu no cargo até sua morte, sem abdicar da coroa.
Polêmicas também atingiram a família
Nos últimos anos, a família real norueguesa também esteve envolvida em controvérsias.
A princesa Märtha Louise, filha de Harald, deixou de exercer funções oficiais em 2022 para separar seus compromissos comerciais das atividades da Casa Real. A decisão ocorreu após críticas relacionadas à sua atuação em terapias alternativas e à relação com o americano Durek Verrett, que se apresenta como xamã.
O casamento dos dois, realizado em 2024, voltou a provocar questionamentos devido às restrições impostas à imprensa norueguesa e à venda de direitos de cobertura para uma revista britânica.
Outro caso que afetou a imagem da monarquia foi o de Marius Borg Høiby, que passou a ser alvo de acusações graves e acabou condenado. O processo ainda não está encerrado, já que ele recorre da decisão.
Mette-Marit também enfrentou repercussão após admitir que manteve uma amizade com Jeffrey Epstein, embora tenha afirmado não ter conhecimento dos crimes cometidos por ele.
Com a morte de Harald, a monarquia inicia agora uma nova etapa sob Haakon VIII. O funeral desta quarta-feira representa, portanto, não apenas a despedida de um rei que permaneceu 34 anos no trono, mas também a passagem definitiva para uma nova geração da família real norueguesa.
