Carta enviada à ONU cita risco de interferência dos EUA nas eleições de 2026
Aline Drumond - Estágio DM
Publicado em 21 de setembro de 2026 às 12:01 | Atualizado há 38 minutos
Carta enviada à ONU alerta para riscos ao processo eleitoral brasileiro nas eleições de 2026 | Foto: Ricardo Stuckert/PR
O Instituto Vladimir Herzog enviou ao secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, uma carta sobre o risco de interferência dos Estados Unidos nas eleições brasileiras de 2026. O documento foi encaminhado em 19 de setembro e pede que os países-membros da organização reconheçam o resultado das urnas no Brasil, independentemente de quem vencer a disputa.
A entidade também defende que as missões internacionais de observação eleitoral tenham autonomia para acompanhar o processo brasileiro. Na avaliação apresentada na carta, uma eventual contestação do resultado por governos estrangeiros poderia favorecer a circulação de desinformação e estimular questionamentos internos contra as instituições responsáveis pelas eleições.
O alerta ocorre após a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) apontar, em relatório encaminhado ao governo federal, ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e ao Ministério da Justiça, que a possibilidade de influência ou interferência dos Estados Unidos no processo eleitoral chegou a um “nível de criticidade”. O documento da agência também registra uma tendência de aumento da pressão norte-americana sobre o Brasil.
Carta cita medidas adotadas pelo governo Trump
Ao justificar a preocupação, o Instituto Vladimir Herzog reúne na carta uma série de episódios envolvendo as relações entre Brasil e Estados Unidos. Um deles é um documento com 21 exigências apresentadas pelo governo norte-americano durante as negociações relacionadas ao tarifaço. Entre os pontos estava a defesa da participação de chamados “dissidentes políticos” nas eleições brasileiras. A proposta não avançou nas negociações diplomáticas.
O instituto também menciona as tarifas aplicadas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros e as sanções impostas a autoridades do país. Outro episódio citado é a classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho como organizações terroristas. Na avaliação apresentada pela entidade, essa medida poderia ser utilizada como justificativa para uma eventual ação norte-americana em território brasileiro.
A carta ainda menciona a tentativa de envio de dois assessores do governo Trump ao Brasil, que tiveram os vistos negados pelas autoridades brasileiras. De acordo com o documento, os representantes pretendiam questionar aspectos relacionados às eleições. O governo dos Estados Unidos, porém, nega essa interpretação e afirma que a viagem teria caráter regular.
O texto também lembra que parlamentares norte-americanos manifestaram preocupação com a atuação do próprio governo dos Estados Unidos em relação ao Brasil. Em dezembro do ano passado, os deputados Linda Sánchez e Adriano Espaillat, acompanhados de outros 48 parlamentares, enviaram uma carta a Trump na qual condenaram ataques à democracia brasileira e possíveis interferências na política do país.
Instituto teme contestação do resultado eleitoral
Na carta enviada a Guterres, o Instituto Vladimir Herzog afirma que as medidas econômicas, diplomáticas e políticas adotadas pelos Estados Unidos precisam ser observadas também sob a perspectiva eleitoral. A entidade sustenta que existe o risco de essas ferramentas serem usadas para influenciar o ambiente político brasileiro em favor de grupos alinhados ao governo norte-americano.
O diretor-executivo do instituto, Rogério Sottili, afirma no documento que, caso o resultado das urnas seja contrário a essa expectativa, a estratégia poderia avançar para uma segunda etapa, marcada por alegações de fraude, questionamentos às instituições e eventual recusa em reconhecer o resultado eleitoral.
A preocupação apresentada pelo instituto é de que uma eventual contestação externa possa repercutir dentro do próprio Brasil. Por isso, a entidade pede que a ONU reforce o princípio de soberania eleitoral e que os países-membros reconheçam oficialmente o resultado proclamado pela Justiça Eleitoral, independentemente do candidato vencedor.
O Instituto Vladimir Herzog já havia levado preocupação semelhante ao Supremo Tribunal Federal (STF). Em agosto, a entidade encaminhou uma carta ao então presidente da Corte, Edson Fachin, na qual alertava para possíveis interferências estrangeiras nas eleições de 2026 e defendia atenção preventiva das instituições brasileiras.
As afirmações sobre uma possível interferência e sobre eventual não reconhecimento do resultado eleitoral correspondem à avaliação e aos temores apresentados pelo Instituto Vladimir Herzog. Até o momento, elas não representam uma confirmação de que o governo dos Estados Unidos adotará essas medidas.