Política

Lula diz na ONU que “Brasil não cabe no quintal de ninguém” e critica interferência externa

Léo Carvalho

Publicado em 22 de setembro de 2026 às 14:39 | Atualizado há 47 minutos

Presidente citou eleições brasileiras, tarifas dos EUA, crime organizado, Gaza e reforma do Conselho de Segurança da ONU | Foto: Yuki Iwamura/AP
Presidente citou eleições brasileiras, tarifas dos EUA, crime organizado, Gaza e reforma do Conselho de Segurança da ONU | Foto: Yuki Iwamura/AP

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) usou o discurso de abertura da 81ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), nesta terça-feira (22), em Nova York, para defender a soberania brasileira e criticar o que classificou como interferência externa em processos políticos. Sem citar nominalmente o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, Lula fez referências ao governo norte-americano ao longo do pronunciamento.

Um dos principais momentos ocorreu quando o presidente afirmou que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”. A declaração foi apresentada no contexto da defesa da autonomia dos países e da rejeição a interferências externas em processos eleitorais.

Lula também levou as eleições brasileiras para a tribuna da ONU. O primeiro turno está marcado para 4 de outubro, e o presidente afirmou que o país terá uma eleição transparente e competitiva, com liberdade de expressão para os candidatos.

Ao abordar o tema, declarou que alguns grupos utilizam essa liberdade para se associar a interesses estrangeiros que, segundo ele, são contrários aos interesses do país. Lula afirmou ainda que não permitirá que “inimigos da democracia”, internos ou externos, interfiram na vontade popular.

Embora não tenha mencionado Trump diretamente em todos os momentos, o presidente fez referências ao governo norte-americano ao tratar das tarifas aplicadas a produtos brasileiros e de questões relacionadas à segurança na América Latina.

Lula afirmou que, apesar das tarifas impostas pelos Estados Unidos, o Brasil registrou novo recorde de exportações. Também citou o Pix e afirmou que o país não pretende ceder a pressões relacionadas ao sistema de pagamentos instantâneos.

Ao falar sobre o combate ao crime organizado, o presidente defendeu que o Brasil mantenha sob seu controle a segurança das próprias fronteiras. Segundo Lula, o enfrentamento às organizações criminosas deve ocorrer com cooperação internacional, mas sem transferência da responsabilidade para outros países.

A guerra no Oriente Médio também ocupou espaço no discurso. Lula criticou as ações do governo de Benjamin Netanyahu em Gaza e afirmou que gerações de palestinos carregarão as consequências do conflito.

Na mesma passagem, o presidente condenou os ataques cometidos pelo Hamas contra civis israelenses, estabelecendo uma distinção entre a crítica às ações do governo israelense e a condenação dos atos do grupo palestino.

Lula também mencionou outros conflitos internacionais e afirmou que o mundo atravessa um período marcado pelo aumento das disputas militares. Para o presidente, a incapacidade de negociação e diálogo representa uma das principais fragilidades do sistema internacional.

Outro eixo tradicional dos discursos de Lula na Assembleia Geral voltou a aparecer. O presidente defendeu uma reforma ampla da ONU e, especialmente, do Conselho de Segurança.

Lula argumentou que a atual estrutura da organização não corresponde mais à realidade mundial e voltou a defender maior participação de países da América Latina e da África nas decisões internacionais.

O presidente também cobrou o fortalecimento do multilateralismo e afirmou que a ONU precisa recuperar capacidade de negociação diante dos conflitos atuais. A reforma do Conselho de Segurança é uma das pautas recorrentes do Brasil nas discussões sobre governança internacional.

Lula também apresentou ações e posições do governo brasileiro em temas como combate à fome, desigualdade, crime organizado e inteligência artificial.

Na área tecnológica, criticou a concentração do desenvolvimento de inteligência artificial nas mãos de poucas empresas e países. Defendeu regras internacionais para o setor e afirmou que a tecnologia deve respeitar direitos humanos e servir também aos países do Sul Global.

O presidente ainda afirmou que o Brasil pretende atuar no combate ao crime organizado sem abrir mão da soberania sobre suas fronteiras.

O discurso marcou a abertura do debate geral da Assembleia Geral da ONU. Por tradição, o Brasil é o primeiro país a discursar entre os chefes de Estado e de governo. Nesta edição, Lula voltou a ocupar a tribuna diante de uma conjuntura marcada por conflitos internacionais, tensões comerciais entre Brasil e Estados Unidos e pela proximidade das eleições brasileiras.


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