Goiás deve registrar 2.150 novos casos de câncer de mama por ano, estima INCA
Léo Carvalho
Publicado em 8 de outubro de 2026 às 12:33 | Atualizado há 2 horas
Avanços no diagnóstico e no tratamento permitem identificar tumores menores e ampliar as possibilidades de cirurgias menos invasivas | Foto: Divulgação
Goiás deve registrar cerca de 2.150 novos casos de câncer de mama por ano, segundo estimativa do Instituto Nacional de Câncer (INCA) para o triênio 2026-2028. A taxa de incidência no Estado está acima da média nacional, e a doença permanece como a neoplasia mais frequente entre as mulheres goianas. Em todo o país, a projeção é de quase 80 mil novos casos anuais no mesmo período, o que representa aproximadamente 30% dos diagnósticos de câncer entre mulheres.
Nas últimas duas décadas, o avanço no conhecimento sobre o câncer de mama modificou de forma significativa as estratégias de diagnóstico e tratamento. De acordo com o mastologista e professor titular da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás (UFG), Ruffo de Freitas Junior, a identificação de tumores em estágios mais iniciais tem contribuído para tratamentos menos agressivos.
“Hoje tratamos lesões muito menores do que há duas décadas, principalmente dentro do sistema Unimed, onde equipamentos como mamografia, ultrassonografia e ressonância magnética das mamas mudaram por completo esse cenário. O entendimento das alterações genéticas também permite identificar mulheres com maior risco, que precisam de um rastreamento mais frequente, separando-as daquelas que podem fazer mamografia a cada dois anos”, explica.

Rastreamento é uma das principais estratégias
A campanha Outubro Rosa reforça a importância do acompanhamento regular para a identificação precoce do câncer de mama. Segundo Ruffo, ainda existe a percepção de que a doença está necessariamente relacionada ao histórico familiar, mas a maior parte dos casos ocorre em mulheres sem familiares que tiveram o diagnóstico.
“As pessoas acham que câncer de mama só acontece em quem tem história familiar. Na verdade, aproximadamente 70% dos casos acontecem em mulheres que nunca tiveram ninguém na família com a doença”, afirma.
Segundo o mastologista, mulheres a partir dos 40 anos devem realizar acompanhamento mamográfico anual. Ele ressalta ainda que mulheres com mamas densas podem se beneficiar de mamografia digital ou com tomossíntese, enquanto aquelas com risco aumentado podem necessitar da associação da ressonância magnética ao acompanhamento.
Um estudo conduzido pela UFG com mulheres goianas também aponta a influência dos hábitos de vida na redução dos fatores de risco. Entre as medidas destacadas estão a alimentação equilibrada, a prática regular de atividade física, o controle do peso e a redução do consumo de álcool.
A alimentação tradicional goiana, com presença de arroz, feijão, frutas, verduras e carnes magras, aparece entre os padrões associados a uma rotina alimentar mais saudável. A atividade física também tem papel relevante.
“Mulheres que fazem exercício físico tendem a ter uma chance menor de desenvolver câncer de mama do que as sedentárias. O controle do peso também é um fator importante, assim como o acompanhamento adequado para quem faz terapia hormonal na menopausa”, afirma o professor da UFG.
Nem toda paciente precisa de quimioterapia
O tratamento do câncer de mama também passou por mudanças importantes. Embora a quimioterapia continue indicada em determinados casos, novas ferramentas permitem avaliar de maneira mais precisa quais pacientes realmente podem se beneficiar desse tipo de tratamento.
Plataformas genéticas, como Oncotype DX e MammaPrint, auxiliam na avaliação do risco e podem permitir que parte das pacientes deixe de receber quimioterapia sem comprometer a eficácia do tratamento.
“Certamente a quimioterapia é o tratamento que mais causa efeitos colaterais, e é extremamente importante em vários casos. Mas existem plataformas genéticas, como o Oncotype DX e o Mammaprint, que permitem, com segurança, deixar de fazer quimioterapia em aproximadamente 40% das pacientes, evitando efeitos colaterais sem reduzir a eficácia do tratamento”, explica.
Além da quimioterapia, o tratamento passou a contar com recursos como imunoterapia, terapias-alvo e os chamados conjugados anticorpo-droga, que levam o medicamento diretamente às células tumorais.
Segundo o mastologista e professor da UFG, essas estratégias também modificaram o prognóstico de subtipos que historicamente apresentavam maior dificuldade de tratamento.
“Isso mudou o prognóstico até de tumores antes considerados mais agressivos, como os casos HER2 positivo e triplo-negativo. Hoje conseguimos uma taxa de cura altíssima para uma doença que, no passado, era difícil de controlar”, afirma Ruffo.
Cirurgias mais conservadoras
Os avanços no diagnóstico também contribuíram para mudanças nos procedimentos cirúrgicos. A retirada completa da mama, conhecida como mastectomia, deixou de ser necessária para muitas pacientes, dependendo das características do tumor e da avaliação médica.
Estudos realizados ao longo de décadas demonstraram que, em determinados casos, cirurgias conservadoras associadas à radioterapia apresentam resultados equivalentes à retirada completa da mama.
“Estudos conduzidos ao longo de mais de 25 anos mostraram que a retirada completa da mama não traz benefício adicional em relação a cirurgias mais conservadoras associadas à radioterapia. Hoje conseguimos identificar apenas o linfonodo sentinela, reduzindo a cirurgia e as complicações de motricidade e força no braço”, detalha Ruffo.
As técnicas de oncoplastia e reconstrução mamária também avançaram, permitindo conciliar o tratamento oncológico com resultados estéticos mais adequados.
“Além do tratamento do câncer, entregar à mulher um resultado estético muito mais adequado, reduzindo o estigma associado à doença”, destaca o professor.
A radioterapia igualmente passou por mudanças. Segundo o mastologista Ruffo de Freitas Junior, tratamentos que anteriormente podiam durar de cinco a seis semanas, em determinadas situações, hoje podem ser realizados em períodos mais curtos. Equipamentos mais modernos permitem concentrar a radiação na região a ser tratada e reduzir a exposição de estruturas próximas, como pulmões e coração.