Nova espécie de peixe da Amazônia é ameaçada pelo garimpo
Fernando Henrique - Estágio DM
Publicado em 12 de outubro de 2026 às 09:11 | Atualizado há 3 horas
Nova espécie de peixe-nuvem, Laimosemion laranja, foi identificada no sul do Amapá e pode estar ameaçada pela degradação de seu habitat | Foto: Reprodução
Pesquisadores descreveram uma nova espécie de peixe-nuvem endêmico da Amazônia do sul do Amapá e ele já pode estar ameaçado de extinção.
Batizado de Laimosemion laranja, em referência à sua coloração alaranjada e ao município de Laranjal do Jari, onde um dos exemplares foi encontrado, o espécime de até 2,7 centímetros vive em poças d’água e igarapés rasos temporários, que podem sumir durante a estação seca amazônica.
A descoberta envolveu pesquisadores da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte), da UFPA (Universidade Federal do Pará), do Instituto Peixe das Nuvens e da Universidade do Oeste da Flórida.
A nova espécie foi observada em corpos d’água que integram o rio Cajari, um afluente do rio Amazonas no sul amapaense e parte da bacia do Amazonas. Os cientistas consideram que a pequena extensão de área, o hábito de vida associado a poças e a falta de conexão entre os corpos d’água e o rio são características que tornam L. laranja endêmico e, assim, defendem medidas para garantir a preservação da espécie.
Garimpo e expansão urbana ameaçam a espécie
O achado foi descrito em artigo publicado em agosto na revista especializada Zoosystematics and Evolution. A região sofre com degradação intensa e avanço do garimpo, principalmente em áreas de entorno da Resex (Reserva Extrativista) do rio Cajari, entre os municípios de Laranjal do Jari e Almeirim.
Em uma das localidades, os espécimes foram coletados em poças criadas a partir de antigas atividades de garimpo, com água avermelhada e grande quantidade de partículas em suspensão, afirmam os autores.
“Tive algumas conversas com agentes fiscais do Ibama que contaram que em Laranjal do Jari a situação é bem complicada porque é muito intensa a atividade garimpeira. Nós só percebemos isso durante a escrita do artigo ao olhar as imagens de satélite”, diz Yuri Abrantes, doutorando da UFRN e primeiro autor da pesquisa.
Nas outras duas localidades, a expansão urbana e o lixo plástico também ameaçam as populações de peixes. “São sinais de que a expansão urbana e o garimpo estão comprometendo a qualidade do habitat e futuramente pode fragmentar a população, que já é reduzida”, afirma Abrantes.
Análises genéticas confirmaram as diferenças
No trabalho, Abrantes e a equipe combinaram caracteres de morfologia, anatomia interna (ossos) e genéticos para reconstruir uma árvore filogenética de L. laranja e dos demais representantes do gênero na bacia Amazônica: L. mabura (da Guiana); L. agilae (com distribuição na Guiana, Suriname e Guiana Francesa); L. cladophorus e L. geayi (Guiana Francesa); L. dibaphus (Amazonas) e L. strigatus (Pará). Os espécimes foram coletados em expedição realizada em 2024.
Os resultados sugerem que a nova espécie está distante geneticamente 5,3% em relação às populações analisadas de L. agilae (da Guiana Francesa) e L. strigatus, e 9,2% em relação à L. dibaphus.
“A gente bateu o olho assim, a gente olhou para aquele padrão de colorido e pensou: ‘Caramba, isso aqui é muito diferente de qualquer coisa que a gente já viu nesse grupo de peixes’”, diz Abrantes. No ano seguinte, a equipe voltou à região para coletar mais exemplares e reunir evidências de que se tratava, de fato, de uma espécie nova.
Os padrões anatômicos do peixe também são diferentes: L. laranja possui oito fileiras transversais de escamas, número diferente das outras seis espécies que compõem o grupo L. geayi, além de 28 vértebras contra 30 ou 31 em L. strigatus. A posição das nadadeiras e características dos ossos da cauda ajudam a distingui-lo.
Ciclo de vida dos peixes-nuvem
A família Rivulidae, cujos representantes são chamados popularmente de “peixes-nuvem” (“killifish” em inglês), é a mais numerosa entre as famílias de peixes de água doce do mundo. Já o gênero Laimosemion contém 35 espécies endêmicas, distribuídas principalmente pela região do Escudo das Guianas.
As estratégias de sobrevivência do grupo, segundo Abrantes, dividem-se em rivulídeos não anuais e rivulídeos anuais. O primeiro grupo, explica o pesquisador, se reproduz e ocupa ambientes aquáticos o ano todo.
Já os rivulídeos anuais possuem um ciclo de vida em que se reproduzem em poças e áreas alagadas durante a estação chuvosa e, quando a seca chega, os adultos morrem, mas os ovos permanecem enterrados no substrato e interrompem seu desenvolvimento embriológico. Quando a chuva retorna, os embriões retomam o desenvolvimento.
Os cientistas pretendem estudar as características biológicas da nova espécie para saber qual dos dois tipos de ciclos de vida ela apresenta, mas alguns dos seus parentes próximos têm ciclos anuais. “Mas, como é um gênero que tem essa facilidade entre caminhar esses dois ciclos de vida, tudo indica que sim”, afirma.
Pesquisa investiga a evolução do grupo
O grupo desenvolve um projeto para identificação e sequenciamento de genoma dos representantes de Rivulidae que ocorrem no Brasil, com coletas já realizadas em locais da Amazônia, Cerrado, Pantanal e Caatinga. Segundo o pesquisador, a ideia é obter uma grande filogenia do grupo para investigar a evolução desta estratégia de “anualismo”.
“Esse projeto reunirá o maior conjunto de dados possível de Rivulidae, com a investigação deste ciclo de vida em diferentes biomas. O que se espera é que os resultados possam contribuir com os próximos ciclos avaliativos da espécie e contribuir para a mensagem de risco de extinção dos rivulídeos”, afirma. (Ana Bottallo/FOLHAPRESS)