Beco das Garrafas vira reduto da boemia no Centro de Goiânia
Redação Online
Publicado em 29 de outubro de 2026 às 20:10 | Atualizado há 5 horas
Entre rock, cerveja gelada e conversas madrugada adentro, Praça José Ximenes reafirma vocação boêmia em Goiânia | Foto: Luciano Freitas
Marcus Vinícius Beck
A noite está amena e reservada. Na jukebox, ressoa o progressivo do Pink Floyd. Eis o velho truque dos bebuns: botar uma música de seis minutos, sem deliberações, de modo que se economizem as fichas. A guitarra, ao fundo, começa a ecoar. Relaxe, você ficou entorpecido.
O som não para. A música não se aquieta. O bar desacelera, feito solo de David Gilmour, uma forma inigualável de dizer muito com poucas notas e que neste instante se espalha pelo Beco das Garrafas, na Rua 3, no Centro. Este cronista, ébrio, ajeita-se na cadeira de plástico.
Desde setembro, a Praça José Ximenes hospeda esse reduto etílico-cultural. É a nova guarida dos botequeiros e notívagos, dos proletários e flanadores. Sob o mantra “rango, viola e rock’n’roll”, o sextou se inicia às quatro da tarde na Toca da Onça. Só termina à meia-noite.
Uma paz emerge nos homens e mulheres fatigados pela jornada laboral e seus pensamentos tomam as cores incertas do crepúsculo. A depender da hora, talvez haja certa dificuldade em atravessar a praça, galera toda compacta, geral em pé, copo americano com cerveja na mão, rindo, falando, pitando cigarro. Efeito do spleen. A classe trabalhadora deságua no sábado.

Chega a cerveja. O músico Danny Cahill, um dos sócios da Toca da Onça, diz ao DM que o espaço recebeu no passado show do cantor Cauby Peixoto. Danny aponta o dedo em direção à placa de metal e conta: ó, naquele lugar esteve a primeira sede da Imprensa Universitária da UFG, inaugurada em 17 de dezembro de 1962. Copo enfim irrigado, um brinde à história.
Até filme foi gravado ali. Um longa que, diga-se, passou por festivais de cinema Brasil afora e traz externas registradas no bar Nova Opção. A cineasta Viviane Goulart, autora de “Vulgo Jenny”, afirma à reportagem sempre ter sido bem atendida por Seu Liberato, figura popular entre taberneiros de diferentes gerações. O homem, aliás, usa um indefectível jaleco branco.
Outro dia, na véspera das eleições presidenciais, acontecia o 19º Ocupem as Ruas. A poucos metros, bandas de hardcore se revezavam na Toca da Onça. Pense no esporro. Seu Liberato, nem aí, sorriu e, feliz, abraçou este escriba. Na sinuca, cinco ou seis jogadores — todos bons — encaçapavam as bolas, como se batessem um taco com o mestre sergipano Carne Frita.

Na tabelinha
O escritor Xico Sá ensina que a gandaia lembra futebol: exige ritmo de jogo, sequência de partidas e resultados. Se o leitor achar por bem largá-la, saiba: ela há de te puxar, ainda que, suplicante, tal qual na velha música do cantor Nelson Gonçalves, peças a tua nova inscrição.
Enquanto beberica, o repórter puxa na memória: “Para dizer toda a verdade, o bar perfeito não existe.” Grande cronista, esse Paulo Mendes Campos, né? Na tabelinha textual, Antonio Prata pisca: “Sou meio intelectual, meio de esquerda, por isso frequento bares meio ruins.”
No caso, o boteco em questão é o oposto disso. A Liberté, na Rua 3, se integra de novo à fauna noturna da cidade. Agora, o espaço ocupa um casarão que, conforme o jornalista Heitor Vilela, um dos idealizadores, já recebeu “iniciativas potentes”, como a Fábrica de Cultura Coletiva, e foi a primeira sede do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da UFG.
“Passamos pela Rua 19. Ajudamos a forjar a Rua 8 como um dos territórios da boêmia e da cultura de Goiânia”, assinala ao DM. “E agora seguimos adiante, com a mesma disposição para disputar a cidade, ocupar o centro e defender nosso direito inalienável à diversão.”
Tim-tim. Hora boa para beber aquela gelada, sobretudo quando se aproxima do fim da tarde e o relógio acalma os desditosos. Ou, a respeito do que escreveu o poeta Charles Baudelaire, o crepúsculo denuncia o sinal de uma festa interior: “vós sois a redenção de uma angústia”.
Sendo assim, regressemos à Toca da Onça. O som agora muda: é Beatles entoando riffs e versos de esperança. Há uma canção deles pra cada momento da vida, se for pensar bem.