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“Vicentina” retrata o luto, a culpa e a solidariedade nas periferias

Fernando Henrique - Estágio DM

Publicado em 1 de novembro de 2026 às 14:37 | Atualizado há 53 minutos

Filme “Vicentina”, de Gabriel Martins, apresenta uma reflexão sobre o luto, a culpa e as relações humanas nas periferias | Foto: Divulgação
Filme “Vicentina”, de Gabriel Martins, apresenta uma reflexão sobre o luto, a culpa e as relações humanas nas periferias | Foto: Divulgação

Cada um faz seu luto como pode. Vicentina, cujo filho era motorista de ônibus, o faz passando de porta em porta para se desculpar pelo filho, que ela julga responsável por um desastre horrível. O ônibus caiu de um viaduto, virado, matando não só o rapaz como quase todos os passageiros.

Não existe nenhuma evidência de que ele fosse o culpado, mas a polícia tem lá suas dúvidas, que os noticiários da TV multiplicam por dois e os programas sensacionalistas, por dez. Vicentina passa os dias e noites vendo televisão, cada dia sentindo mais culpa pelo acontecido.

Em um momento, decide iniciar o seu périplo: visitar cada mãe ou pai de vítima para pedir desculpas pelo mal que o filho teria causado. É evidente que qualquer espectador pode lembrar do acidente de um avião, na Europa, em que o copiloto tomou a cabine de comando até levá-lo ao chão, matando todos os passageiros.

Aqui é um pouco diferente. E pode-se perguntar até que ponto a mídia não bota toda atenção na eventual responsabilidade do motorista, sem atentar à penca de problemas técnicos que podem afetar o comportamento de um veículo.

O importante é que Vicentina se põe a pedir desculpas. Toda a sua vida desenrola-se então num ambiente amarelado, que parece reproduzir sua depressão.

O luto e as relações humanas

O Filme “Marte Um” retrata a história de uma família negra em MG | Foto: Reprodução

É curioso como o diretor Gabriel Martins passa de um filme onde a felicidade dá o tom “Marte Um” para outro em que a dor é o sentimento mais presente. Na expressão da atriz, assim como em seu andar, com ajuda de muleta, a dor se manifesta.

No entanto, será ela o aspecto principal do filme? Ou seria sobretudo um pretexto para que, visita após visita, uma variedade de reações aconteça e fragmentos de vida de pessoas quase sempre modestas, quase sempre negras e periféricas, apareçam. Há quem se alivie ao falar com ela, quem a ofenda, quem partilhe sentimentos ou simplesmente não a receba.

Afinal, o que é a dor? Qual o caminho para seu alívio? Essa é a única pergunta, me parece, que justifica o périplo de Vicentina, que não o torna um exercício penoso e vão, como se somar ao seu o sofrimento dos outros pudesse constituir uma forma de alívio. Em suma, o luto é pessoal, intransferível.

Solidariedade e sentimento de comunidade

O que mais importa, contudo, é outra coisa: a maneira como pessoas quase sempre modestas, pertencentes a uma pequena classe média, podem se identificar, não na dor, mas nos gestos. O que atravessa essas visitas todas é o sentimento de terem algo em comum. Não apenas essa história imediata, a do desastre, mas algo mais difuso: existe uma história não dita que aproxima as personagens.

Sim, são quase todas negras, mas diferentes das de “Marte Um”, que decorriam de um momento de conquistas que levavam à igualdade, ou a algo próximo, a um sonho de igualdade.

Em “Vicentina” tudo aponta para outro lado. O sofrimento de Vicentina antecede o acidente, ele vem de seu corpo, da perna claudicante. Não é um filme de vitória, mas de derrota. Não de todo, entretanto. Em dado momento, Vicentina cruza com um casal de idosos para quem o mais importante no encontro com ela consiste na possibilidade de pedir um dinheiro, uma espécie de indenização pelo acidente que matou seu filho. É um abuso, evidentemente.

Mas a mulher lhe entrega o que pode: existe um sentido de solidariedade que vai além do fato imediato. Um sentido de comunidade, talvez. A algumas variantes dessa comunidade de pequena classe média da periferia é que o filme busca nos apresentar.

A estética e a direção de Gabriel Martins

Diretor e Roteirista Gabriel Martins | Foto: Reprodução

Talvez o maior reparo que se possa fazer a esse filme seja seu tom cavernoso, que apenas por acaso parece coincidir com o amarelão da Netflix, que distribui o filme. Esse tom é de infelicidade, certamente. Mas há um momento em que algo de muito especial acontece.

Estamos em uma sala, com uma mesa atrás das personagens. Ali estão uma garrafa muito branca e um objeto amarelo-vivo. E esses dois criam um contraste que em nada afeta a tristeza do tom, mas lhe tira a atmosfera funérea.

Esse detalhe de direção de arte e, mais do que isso, de direção não importa muito, pois antes de tudo “Vicentina” impõe a originalidade de um olhar capaz de apanhar pessoas e paisagens interiores com a intensidade do vivido.

As diferentes manifestações da dor

De todas as visitas que faz Vicentina, uma me chamou a atenção: a do homem que atribui toda a responsabilidade da tragédia não só ao filho, como à própria Vicentina, como se atribuir a culpa a alguém e alguém que já se sente culpada sem nenhum motivo palpável já o aliviasse.

A cada variante os que são ternos, os que abraçam, os que são distantes ou mesmo hostis revela-se um fragmento de um mundo complexo, atravessado ele mesmo de dores, tristezas, recalques e também alegrias. (Inácio Araujo/FOLHAPRESS)


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