Internacional

Trump sinaliza concessões a Putin por paz na Ucrânia

Fernando Henrique - Estágio DM

Publicado em 8 de novembro de 2026 às 15:24 | Atualizado há 19 minutos

Donald Trump e Vladimir Putin: negociações entre Estados Unidos e Rússia podem envolver concessões territoriais e mudanças na presença militar da Otan na Europa | Foto: Drew Angerer/AFP
Donald Trump e Vladimir Putin: negociações entre Estados Unidos e Rússia podem envolver concessões territoriais e mudanças na presença militar da Otan na Europa | Foto: Drew Angerer/AFP

O governo de Donald Trump sinalizou ao Kremlin que irá ampliar as concessões a Vladimir Putin em troca de uma negociação que possa colocar fim à Guerra da Ucrânia, iniciada pelo russo em fevereiro de 2022.

Nos recados que chegaram ao Kremlin após a visita do negociador Kirill Dmitriev a Trump, na quinta-feira passada (5), o americano está disposto até a retomar os termos que Putin havia imposto em um ultimato ao Ocidente no fim de 2021, que foi ignorado.

Segundo aquela proposta, além da perda territorial de quatro regiões ucranianas e da confirmação da neutralidade de Kiev, sem apoio da Otan, Putin ainda ganharia alguma forma de retirada de forças ofensivas da aliança militar liderada pelos EUA do Leste Europeu no caso, os Estados Bálticos.

Em troca, o Kremlin fez saber que está disposto a algum cessar-fogo mesmo antes de um tratado de paz definitivo, o que poderia ocorrer já na primavera europeia, no fim de março de 2027.

Até aqui, a Rússia dizia só topar uma trégua final sob suas condições. Mas a pausa de combates em torno da cidade sitiada de Olechki, promovida pela primeira-dama Melania Trump, vem sendo citada com um exemplo que pode ser ampliado.

Negociações devem ser retomadas em Abu Dhabi

O cenário antecede a retomada das negociações diretas entre russos e ucranianos, mediadas pelos Estados Unidos em Abu Dhabi. Elas estão marcadas para esta terça (10) e quarta (11), e neste domingo (8) a França disse que deverá haver algum tipo de participação europeia.

As trocas de sinais foram relatadas à reportagem por quatro pessoas com conhecimento do assunto em Moscou, uma delas ligada ao time negociador que vai ao emirado árabe. Todas ressaltam que, por ora, são apenas possibilidades.

A motivação do republicano é acelerar as conversas depois da derrota que o seu Partido Republicano sofreu nas eleições de meio de mandato na semana passada, que tirou do presidente o controle das duas Casas do Congresso.

Com isso, há o risco de que iniciativas de política externa de Trump sofram interferência congressual. A leitura inicial do Kremlin é de que algo que se assemelhe a um acordo de paz seja colocado à mesa retiraria fôlego da eventual oposição dos democratas.

O Kremlin também celebrou a escolha do radical Stephen Miller para o cargo de chefe de gabinete de Trump nesta nova fase do governo. Como um fundamentalista do movimento populista do presidente, ele até já criticou Putin, mas reserva suas queixas maiores a Volodimir Zelenski.

Otan é principal obstáculo às concessões

Reunião de líderes da Otan | Foto: Jan Van de Vel/Nato/Pool/Anadolu Agency via Getty Images

Há diversos óbices à proposta sendo ventilada em Moscou. O maior é a eventual inclusão da Otan na negociação mais geral, que desde antes da guerra era o principal motivador estratégico de Putin acerca do conflito.

Não parece haver chance de que países como a Polônia, onde aliás os EUA têm estacionados 10 mil soldados, ou a Lituânia, que sedia a primeira brigada alemã no exterior desde a Segunda Guerra Mundial, aceitem a sugestão inicial de Putin de retirada de forças para as fronteiras da Otan em 1997 quando ambos os países do Leste Europeu não integravam a aliança.

Alemanha, França e Reino Unido, principais países do continente, também não se dobrariam, e quaisquer decisões no âmbito da Otan precisam de consenso. O que Trump pode fazer é ser unilateral, recuando pessoal e armamentos americanos, mas mesmo isso parece radical demais.

Seja como for, houve até um sinal de fumaça público das intenções do republicano. Seu genro Jared Kushner, principal negociador de Trump ao lado de Steve Witkoff, causou alarme na Europa ao fazer uma publicação comentando a enésima frase do sogro acerca de uma paz iminente na Ucrânia.

A longa exposição diz que está sendo preparado um acordo que inclua a relação da Europa com a Rússia como um todo, exatamente o que Putin sempre quis.

Ele listou cinco objetivos: “consultas de segurança permanentes, comunicação de crise confiável, maior transparência militar, medidas recíprocas para reduzir riscos escalatórios e um arcabouço durável de longo prazo para a segurança europeia”.

Os termos reproduzem o que Putin defende, e nas “medidas recíprocas” reside o temor europeu de concessões indevidas. Com efeito, a Ucrânia e suas demandas não foram nem citadas.

Zelenski pode enfrentar pressão por perda territorial

Zelenski admite possível perda territorial sob pressão de Trump | Foto: Reprodução/Redes Sociais

Assim, a chance de Zelenski, que já foi chamado de “insolente” por Miller, ter de aceitar a perda de cerca de 20% de seu território já sob ocupação russa parece crescer. A ideia europeia de uma força de paz permanente na Ucrânia, algo que o Kremlin rejeita, também fica distante nesse cenário.

Os observadores russos ouvidos pela reportagem lembram, de todo modo, que Trump já se inclinou bastante em favor de Putin desde que voltou ao poder no ano passado, mas retrocedendo depois. Então, todos sugeriram cautela acerca das chances de algo evoluir.

Há outros fatores: o polêmico acordo de compra de diesel russo por parte de Trump não só não reduziu o preço dos combustíveis nos EUA: ele não chegou a ser concretizado de fato até aqui, com navios mudando de rota no meio do caminho. Há dúvidas em Moscou se o republicano terá condições de entregar alguma de suas promessas.

Putin mantém ofensiva e perdas russas aumentam

De seu lado, Putin mantém a guerra em alta temperatura, tendo promovido um grande ataque no sábado (7) à Ucrânia. Segundo as pessoas consultadas pela reportagem, o russo deverá aumentar a pressão sobre a infraestrutura energética do vizinho até a chegada do inverno europeu, no próximo mês.

O presidente russo, dizem, acredita que pode vencer a Ucrânia militarmente, apesar de a frente de batalha no leste ter se estabilizado nos dois últimos meses.

O custo é brutal para ambos os lados, mas um vazamento raro de dados do Serviço Federal de Estatísticas da Rússia neste fim de semana deu uma dimensão da tragédia.

Segundo as informações obtidas por hacker de Belarus, ao menos 450 mil russos já morreram na guerra, e a intensidade das perdas está crescendo. O número inclui civis, mas diz respeito majoritariamente a militares. A cifra bate com a de institutos ocidentais, e até aqui o governo não negou os números. (Igor Gielow/FOLHAPRESS)


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