“A poesia de Belchior é muito profunda”, afirma Ana Cañas
Redação DM
Publicado em 20 de julho de 2023 às 00:19 | Atualizado há 3 anos
Ana Cañas, 42, se interessa por amar e mudar as coisas. Na adolescência, descobriu – por meio de Elis Regina – a profundidade existencial e metafísica da poesia cantada por Belchior, artista que homenageia nesta quinta, 20, em show realizado no Teatro Goiânia, às 20h. Para ela, uma das sensações da música brasileira produzida na última década, o trovador cearense representa a vida e o oculto. “É refinado porém acessível”, define ao DM.
Com “Amor e Caos”, seu primeiro disco, Ana chacoalhou o cenário musical em 2007 e, como viver é melhor que sonhar, ganhou o prêmio “revelação do ano”. Desde então, sua carreira sempre esteve nos holofotes. Fez os discos “Hein” (2009), “Volta” (2012), “Tô na Vida” (2015) e “Todxs” (2018), com o qual, por causa da capa que remetia à liberdade feminina e letras que falavam sobre sexo, causou alvoroço. Caretas são caretas, não é? Nem de blues gostam.
À esquerda e ativa nas redes sociais, Ana nunca se esquivou em colocar sua voz à disposição para combater o machismo estrutural da sociedade brasileira. E tudo isso temperado ao sabor de beats eletrônicos, grooves dançantes e versos politizados. Por pouco, não ganhou o Grammy Latino, ao ser indicada na categoria Melhor Álbum de Pop Contemporâneo, em 2019. A paulistana, de fato, é uma artista corajosa. Quer se reinventar – sempre.
Em 2020, isolada em casa, com um vírus desconhecido lá fora, sem vacina nos postos e um governo que desdenhou da dor coletiva brasileira, Ana resolveu fazer uma live para celebrar a obra belchioriana. E não só repercutiu, como também levou-a a dar um (necessário) passinho além, porém guiado por uma interpretação cênica poderosa, intensa e necessária. Afinal de contas, ano passado morremos, mas neste ano não morreremos.
A homenagem a Belchior virou disco, disponível no streaming, e ganhará registro audiovisual. A seguir, numa entrevista concedida ao Diário da Manhã em novembro do ano passado, Ana fala sobre existencialismo, sexualidade, música, machismo e relacionamento aberto. “Sou atraída pela inteligência, potência, verdade e talentos”, revela.
Diário da Manhã – Ana, como vai de vida?
Ana Cañas – Olá! Vai bem, obrigada! Tô trabalhando muuuito para finalizar o DVD e o disco ao vivo, mas muito feliz com os shows e com essa turnê do Belchior.
DM – Conte-me as lembranças de seu primeiro contato com a obra de Belchior?
Ana – Meu primeiro contato com a obra dele foi igual ao de muita gente: através da voz da Elis, ainda na adolescência. Só tomei contato com as gravações dele algum tempo depois. Meu disco favorito é “Alucinação” de 76, uma obra-prima.
DM – As músicas dele nos ajudaram a lidar com a pandemia. Como foi perseguir as emoções reais do trovador cearense no disco “Ana Cañas Canta Belchior”?
Ana – Foi um desafio imenso e ainda é um aprendizado. A poesia de Belchior é muito profunda, metafísica e existencial. Ela nos atravessa de um jeito único. As emoções reais estão em lugares da nossa alma que, às vezes, nem imaginamos…! Interpretar essa obra genial é transbordar. Até hoje é comum que eu chore na passagem de som, tamanho o poder das palavras escritas por ele.
DM – Belchior fez com que você realizasse “um exercício CDF”, em suas palavras, para desvendar quem é o artista autor de canções como “Coração Selvagem”, “Fotografia 3 x 4” e “Alucinação”. O que ele representa para você em termos artísticos e existenciais?
Ana – Representa a vida, o oculto e o profundo. Ele é muito refinado, mas também muito acessível. É um gênio. Ele escancara feridas, amores, paixões, dores, é uma faca com mel na ponta. Interpretá-lo exige entrega absoluta, verdade e abismos metafísicos e subjetivos.
DM – Você rompeu com a mãe aos 18, até se reconciliar com ela dez anos depois, e sentiu na pele as dificuldades de quem precisa lutar para sobreviver em meio ao machismo. Como foi ir desses lamuriosos anos à cantora que trabalhou com Arnaldo Antunes e Nando Reis?
Ana – Foi um processo árduo mas muito transformador. Me tornei cantora para sobreviver e ter o que comer. Na época, distribuía panfletos nos faróis em São Paulo e passei a cantar nos bares. Quando olho para trás (e sem querer romantizar sofrimento) sinto que a minha trajetória me deu a oportunidade de entender a vida por um ângulo onde exercitar a humildade e ter coragem eram (e ainda são) fundamentais. Levo tudo isso comigo quando subo no palco e agradeço por todas as oportunidades que tive que me levaram até esse lugar.
DM – Em seus discos, nunca se esquivou de se posicionar politicamente de maneira firme, chegando a levar ovada em show e até mesmo ameaçada de morte. Por que o ódio e a intolerância, especialmente com as mulheres, insiste em dar as caras no Brasil?
Ana – Porque o machismo é estrutural, cultural e favorece privilegiados que não vão abrir mão das posições de decisão e poder facilmente. Então é uma luta diária abrir espaços de reflexões que possam transformar tudo isso. Temos caminhado nesse sentido, mas há muito que ser conquistado ainda. É um processo histórico, coletivo mas também individual.
DM – No disco “Todxs”, em turnê do qual se apresentou em Goiânia no ano de 2019, toca em temas como feminismo e liberdade sexual, numa pegada musical que vai do soul ao blues. Quais são os motivos que te levam a nunca se acomodar em determinada linguagem sonora?
Ana – Essa é uma resposta que eu mesma busco. Sinto que minha discografia reflete momentos pessoais, questões e vivências inerentes à época em que são feitos e gravados. Como artista, acredito na veracidade dos processos e isso se deu dessa forma para mim. Nina Simone dizia “o artista reflete seu tempo” e eu concordo com ela.
DM – Desde que despontou no cenário brasileiro com o disco “Amor e Caos”, nunca deixou de estar em destaque e fez obras marcantes, como “Hein” (2009), “Volta” (2012) e “Tô na Vida” (2015), nos quais é revelado uma compositora politizada, feminista e em defesa das minorias. O que te impulsiona a fazer sua voz estar à disposição de causas tão necessárias?
Ana – O sonho por um mundo mais justo, sem abismos sociais, sem guerra e fome. “Amar e mudar as coisas me interessa mais”.
DM – É importante falarmos sobre redes sociais, território em que você se expõe sem filtros e com coragem. Como lida com os ataques desferidos pelos extremistas que povoam esse lugar?
Ana – Busco nunca responder com violência, pois a agressão diz mais sobre o agressor em si do que sobre nós mesmos. Minhas redes refletem o que sou na vida real, pensamentos e processos. Há os que não suportam mulheres vivendo sua liberdade ou transmutando o machismo. Mas gosto de ser assim e meus quatro planetas em escorpião ajudam um pouquinho ehehe (mas tenho o sol em Virgem, ufa!).
DM – Você já declarou que suas primeiras relações sexuais foram com mulheres, sofreu bullying por se envolver com elas, casou-se com um cara por dez anos e, desde que se separou, sai com mulheres eventualmente. Ainda vive essa abertura para a sexualidade? Como é isso?
Ana – Eu me envolvo com pessoas, seres humanos. Sou atraída pela inteligência, potência, verdade e talentos. São fases. No início, maioria mulheres. Hoje, me sinto livre para essas escolhas. Mas o coração prega peças, né? A gente não escolhe por quem se apaixona! É uma alquimia louca e estamos ao sabor dessa metafísica.
DM – Em matéria de grana, como é viver de arte num Brasil que ataca seus artistas?
Ana – É difícil – e a nossa cultura é muito preciosa! É o alicerce da nossa idiossincrasia. Há que se ter coragem, força, empenho e desbravar caminhos. Mas é muito recompensador, o Brasil tem o povo mais afetuoso do mundo e no palco, isso se revela de maneira única! É onde tudo vale a pena.
Ana Cañas canta Belchior
Hoje, às 20h
Teatro Goiânia
Cruzamento das avenidas Tocantins e Anhanguera, Setor Central
A partir de R$ 78
Ingressomagico.com.br/