Opinião Pública

Artigo de Opinião. Sobre o prazer em queimar bibliotecas

Redação DM

Publicado em 3 de janeiro de 2023 às 14:24 | Atualizado há 4 anos

 



Nós queimamos todo dia/mil bibliotecas de Alexandria”.


Tiago Iorc

Quando, em 2015, Tiago Iorc canta sobre a famosa biblioteca de Alexandria, já falecida há tanto tempo que sua existência se tornou um mito moderno, os versos da canção pareciam mais poéticos que anacrônicos. À época, o assassinato da biblioteca, dada a distância do acorrido, só tocava a realidade por meio de metáfora. Contudo, seja pela distância ou esquecimento – intencional das pessoas ou circunstancial como requinte do tempo -, ignora-se que o prazer em atear fogo aos livros não ficou restrito à antiguidade clássica.

Em 1933, O Bücherverbrennung – termo alemão que desiguina A queima de livros – o fogo promoveu a barbárie como propaganda na Alemanha nazista. Em diversas cidades, sob a justificativa de defesa do patriotismo, qualquer livro considerado crítico ou que discordasse do governo, fora incinerado em praça pública. A ameaça que os livros parecem representar está também na ficção. O escritor norte-americano Ray Bradbury elaborou um romance distópico em que, numa realidade regida pelas mídias audiovisuais, os livros e, principalmente, a leitura fora banida e considerada criminosa. Em Fahrenheit 451, de 1953, ao ser encontrado qualquer livro, aos bombeiros – aqui reside a ironia refinada do autor – cabe o dever e a responsabilidade de queimá-los. Queimar livros e bibliotecas foi e, aparentemente, continua sendo um prazer. Tradicionalmente, temos o hábito de olhar para o passado como algo encerrado, acabado, pretérito perfeito. Entretanto, vez ou outra, por circunstâncias das mais diversas possíveis, o hábito de distanciamento é interrompido pela (re)ação da coisa se repetindo no aqui e agora.

A história está repleta de registros de incêndios de livros, porém, sob pena de injuria sintática ou dissonância semântica, num regime de sombra democrática, não se fala mais em incêndio de livros ou em combustão de bibliotecas. Antes, fala-se em “títulos banidos”, “desmonte de acervo” ou “fechamento da biblioteca” propriamente. Parece ser um problema da contemporaneidade não dar às coisas o nome que elas têm. Entretanto, como se sabe, o diabo está nos detalhes. Diferente da tradição histórica criminosa, na contemporaneidade, a nomenclatura não indica um destino para os livros banidos, àqueles que sofreram desmonte ou aos que tiveram seu espaço fechado. O certo é que, independentemente do nome que receba, essas ações coordenadas impedem os livros de exercer sua função social de servir a uma comunidade.

No Brasil, palco de uma desigualdade extrema, realiza-se sistematicamente diversas “queimas de livros”. Com dimensões continentais que “inviabilizam” o acesso do mesmo para o todo, parte considerável da população vive encarcerada numa margem salarial mínima e refém de impostos estratosféricos de modo que o livro se torna financeiramente inacessível. Nessa condição, as bibliotecas – públicas e principalmente as escolares – significam, por vezes, a única possibilidade de acesso aos livros. Se algum item do acervo é banido, ou se uma biblioteca fechada – contrariando a lei que estabelece a universalização das bibliotecas em escolas – é, como fora no passado, destituir o livro de sua finalidade fundamental: ser lido. O compositor continua: “Não dou razão/a quem perde a razão” nem tão pouco há argumento plausível para que se justifique tal equívoco.

Historicamente, eles já foram considerados indesejáveis, profanos, ameaçadores, provocadores e, ao que parece, mais recentemente, os livros – fechados em salas de leitura, bibliotecas – foram considerados nocivos à saúde da população. À tentativa de bani-los se atribuiu o nome de desenvolvimento. Ora, não há desenvolvimento sem educação, saúde, ciência e a leitura que, por sua vez, atravessa todas elas. O país que ignora essa condição irrevogável da leitura condena seu povo a acreditar na “verdade” contada por terceiros. Se invariavelmente eles foram considerados prejudiciais ao sistema, agora esse sistema, imbuído de uma virtuosa atitude de autopreservação, deseja resguardar-se de uma sociedade “doente” de leitura e pensamento crítico porque sabe que “a frase, o conceito e o verso” como na canção de Caetano “sobretudo o verso é o que pode lançar mundos no mundo” e quando um mundo – uma mente – se expande, as chances deste mundo – indivíduo – ser dominado são menores.

Articula-se essa imagem vilanesca dos livros para convencer a sociedade de que livro bom é livro queimado e, a partir disso, justificar a queima agora não mais o objeto livro, mas do que ele provoca em quem o lê. Em suma, trata-se de uma tentativa para esconder que, por detrás dessa cortina de fumaça, a única instituição ameaçada é o próprio sistema. Mil bibliotecas de Alexandria queimadas por dia e nossa história será esquecida tão rapidamente quanto cinzas que, depois do incêndio, desaparecem no ar. Assim, em harmonia com a canção de Iorc, se antes temíamos, hoje “A gente teima” em resistir a um sistema que não mede esforços para manter para si o controle absoluto e negar ao povo a única coisa que o faria questionar o poder: oportunidade.

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