Dia do homem e a reflexão sobre a masculinidade: ela é tão frágil assim?
Redação DM
Publicado em 18 de novembro de 2022 às 20:01 | Atualizado há 1 ano
Falar sobre a vaidade masculina é ainda um tabu, muito se associa ainda a vaidade ao feminino, entretanto, com o passar dos anos, esse tabu vem sendo fragmentado aos poucos. Percebe-se que os cuidados dos homens em relação à saúde, higiene e aparência têm ganhado força.
Vê-se muitos produtos masculinos voltados para a higiene dos cabelos, barba e pele, o mercado é reflexo deste cuidado com o corpo, mas será que esta atenção com a aparência não é um sinal de fragilidade e a busca pela virilidade?
O professor e designer instrucional Célio Pereira de Sousa Junior responde a estas perguntas de uma maneira mais minuciosa. Ele afirma que cobra-se força dos homens, enquanto das mulheres cobra-se cuidados constantes com a aparência.
“Tanto que os cuidados realizados por homens, na maioria das vezes, têm relação com a manutenção da força. É só olhar pra crescente popularização de perfis ligados a exercícios físicos, bodybuilders, powerlifters, hormonização, sumplementação e afins”, afirma.
Segundo Célio, há uma busca pela virilidade nesse cuidado com a aparência. “Não é que os homens não se cuidam, mas buscam um cuidado que se liga justamente à virilidade. Mas isso não é exatamente a regra, ao mesmo tempo pode-se perceber um aumento da preocupação com roupas, por exemplo. Perfis que falam sobre tênis e roupas também tem se tornado cada vez mais comuns e populares”, explica.
Segundo ele, o homem encara o preconceito com o cuidado com a aparência como regra, e que a vaidade é inteiramente ligada à feminilidade.
“Em geral, homens tem dificuldade de cuidar da própria saúde mesmo em casos de extrema necessidade, isso se reflete também em relação à vaidade e aparência”, resalta.
Célio de Sousa, professor e designer instrucional. Foto: Reprodução/Arquivo pessoal
Os cuidados com a saúde e aparência masculina são muito associados com a homossexualidade, até pouco tempo atrás, programas humorístivos faziam essa relação, o que reforçava o estereótipo de que apenas homens gays cuidassem da imagem.
“A visão que se tem é a seguinte: homens gays e trans são mais próximos do feminino, consequentemente são ‘menos homens’. Se são menos homem, tudo bem se preocupar com a aparência, já que essa preocupação é “normal” para mulheres”< afirma o professor em relação ao que é ligado ao senso comum.
“Então quando se vê um homem com cuidado excessivo com cabelos, unhas, pele, por exemplo, automaticamente o coloca na caixinha de “não é tão homem assim”, Mas reafirmo: o cuidado não tem gênero, nem sexualidade”, afirma Célio. “E isso não é só vestir roupas mais bonitas, também é cuidar justamente das coisas que normalmente são negligenciadas, como exercícios físicos com o objetivo de melhorar a saúde, cuidar da pele, unhas e cabelo, pesquisar sobre moda, escolher com mais cuidado as roupas e coisas assim”, continua.
Célio lança uma pergunta provocativa para que haja uma reflexão acerca do assunto: “E precisamos, também, nos perguntar: qual masculinidade estou reforçando com isso? Aquela que visa o cuidado de si, a valorização do cuidado, o incentivo positivo a outros homens para fazerem o mesmo ou aquela masculinidade que reforça que somente o padrão é válido, que homens gordos são feios, que quem não se veste bem é uma pessoa ruim?”.
Para que a ideia de vaidade masculina seja desmembrada ddo preconceito que a cerca, Célio explica que “vai de conversar com seus pares, incentivar homens próximos a se cuidarem, mostrar através do exemplo e coisas do tipo”.
“Se eu entendo que cuidar da aparência pode ser saudável e positivo, tenho que externar esse pensamento. Grupos de discussão de homens também tem se tornado cada vez mais comuns e a autoestima é tema constante neles, pode ter certeza. Seria um bom começo participar deles”, finaliza.
SAÚDE MENTAL E O MEIO MASCULINO
As redes sociais bombardeiam os usuários com imagens de pessoas com corpos torneados e musculosos, o que as faz buscar por mais treino e procedimentos estéticos.
O psicólogo especialista em Clínica Psicanalítica, Yago Teles Santos, explica os efeitos dessas imagens na mente dos homens e quais são suas consequências.
“Em termos de saúde pública, parece ser um movimento que traz mais benefícios principalmente aos jovens que enlaçaram essa cultura de forma enérgica, e assim se relacionam através de uma atividade saudável, em outra perspectiva, as redes sociais trouxeram a oportunidade de uma tentativa desenfreada de buscar o ângulo perfeito de si, e com a ferramenta da internet, esse sujeito pode controlar o tempo, o espaço, e a imagem, como nunca pôde antes”, relata.
Foto: Reprodução/Matheus Ferrero/Unsplash
O que se tem, segundo ele, é uma “plasticidade oferecida para uma alteração da realidade”, ou seja, há vários filtros nas redes sociais que fazem com que a pessoa da foto fique mais bonita do que a real.
“Essa intensificação de efeitos implica tanto uma motivação para uma mudança de um sujeito quanto a mortificação e inibição de outro”, afirma.
Em relação à saúde mental masculina em relação às cobranças impostas pela sociedade aos homens, ele afirma que “dizer que o homem não é cobrado para que seja homem “como antigamente” é besteira”.
“Apesar da desconstrução que já pode ser observada em alguns cantos da cidade, precisamos de mais algumas gerações para que isso se torne determinante nos campos de interação do homem, pois há uma necessidade aí para além de uma boa vontade, esses lugares carecem de melhores referências do que é ser homem”.
Segundo ele, a falta de contato entre homens e mulheres tem a ver com os lugares que cada grupo frequenta, isso impede um combinação de condições entre estes grupos, o que atrasa uma evolução no discurso da sociedade.
“Digo por experiência própria, basta pisar na beira de um campo de futebol para “pelada” da semana que o que se ouve são conversas que poderia se ouvir há décadas atrás, e não há uma só voz que se oponha a qualquer piada ou argumento machista. Por mais fácil e inofensivo que pareça contestar e querer mostrar que existe outra perspectiva presente, não é, é o contrário”, finaliza.