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Crianças precisam ser crianças

Brincar é um direito conforme o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), no entanto, diante da digitalização é possível que se torne um "dever"

diario da manha

“Menino entra pra dentro, se tu não entrar agora você vai apanhar na hora que chegar em casa”, quem nunca ouviu essa frase na infância, talvez não se lembre de como era brincar na rua. No entanto, essa frase quase que sumiu do nosso cotidiano, uma vez que as crianças atualmente estão mais conectadas aos meios virtuais do que a sociedade propriamente dita.

Se pararmos para pensar, as brincadeiras que brincamos na infância, muito provavelmente, nossos filhos ou sobrinhos não irão conhecer. Mesmo que aos dois anos de idade já saibam ligar um Smartphone, e aos quatro acessar o Youtube ou jogar no Tablet, não saberão o significado de “bandeirinha” também chamado de “pique-bandeira”, ou mesmo “amarelinha”.

Quantos de nós não gostaríamos de voltar no tempo em que brincávamos na chuva e depois comíamos um bolinho quente na casa da vovó? Ou mesmo quando estávamos aprendendo a andar de bicicleta com um “friozinho” na barriga e depois conseguíamos equilibrar com uma mão só? Além do improviso por falta de recursos, quando costurávamos às próprias roupas das nossas bonecas, ou pra ter um carrinho bastava uma tampinha de garrafa e um pedaço de pau. Tudo sem contar o bolinho de terra, que ao brincar tinha várias utilidades.

Era virtual está tirando as brincadeiras que ensinam as crianças a viver no mundo real

A era virtual pode estar tirando dos nossos pequenos as brincadeiras que ensinam a viver no mundo real, a se relacionar com outras crianças diante das diferenças, a tirar deles o tempo que não volta mais. O tempo da infância que é tão precioso em nossas vidas antes que alcancem a juventude e precisem viver “atrás” de uma tela brilhante, que logo se tornará a biblioteca escolar, a sala do trabalho, e o ápice do relacionamento pós-moderno.

Brincar é um direito conforme o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), no entanto, diante da digitalização é possível que se torne um “dever”, já que atualmente é mais comum que os pais digam “filho, saia do videogame, vá brincar com seus amigos lá fora” ao invés de “quero você esteja em casa antes do anoitecer”.

Segundo a psicóloga Kézia Magalhães, a brincadeira é a principal atividade da infância, não apenas porque as crianças brincam muito, mas principalmente por sua influência no desenvolvimento infantil. É uma atividade autorreforçadora em si mesma, tem uma função de descarga de energia vital, gera satisfação na imitação, parte da necessidade de distensão dos músculos, do treino de autocontrole motor, e emocional.

Para Vygotsky, a brincadeira proporciona saltos qualitativos no desenvolvimento e na aprendizagem infantil. Durante a brincadeira acontecem as mais importantes mudanças no desenvolvimento psíquico infantil, as crianças gostam de brincar da mesma coisa, de novo, de novo e de novo e essa repetição as ajuda a elaborar ideias que estejam provocando determinadas angustias, situações que elas não entenderam e querem entender, vemos isso na teoria Freudiana.

O brinquedo possibilita a criação de um mundo onde os desejos podem ser realizados através da imaginação. A imaginação é uma atividade psicológica específica da consciência humana, presente apenas na criança mais velha.

A profissional ainda afirma, “O brincar também é auxiliar do desenvolvimento cognitivo, por meio das brincadeiras a criança vai adquirindo conceitos de tempo e espaço, assim como as noções de regras. O brincar também propicia o desenvolvimento da parte social na criança à medida que ela aumenta a capacidade de convivência com outras crianças. Aprender a lidar com os conflitos relacionados às regras sociais e aos seus próprios impulsos, entendendo os próprios limites e os do outro.”

É preciso que n´´os, que não podemos mais voltar no tempo, cultivemos a fase que será a base de nossas crianças, de nossa sociedade. Diante dos desafios psicoemocionais, precisamos protegê-las do imediatismo decorrente das cobranças profissionais antes que a ansiedade os consuma na era dos “boletos”, a tempo de guardá-los da depressão preparando-os para o gerenciamento das emoções e dos relacionamentos, ensinando-os a conviver e a se comunicar no mundo real.

Não, as crianças não são a geração do amanhã, elas existem hoje, precisam de atenção no presente, da proteção familiar e social agora, elas têm de viver a fase da infância hoje antes que amanhã seja tarde, as crianças precisam ser crianças.

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