A arte de acalentar sonhos
Redação DM
Publicado em 10 de outubro de 2015 às 22:50 | Atualizado há 11 anosSer professor é acalentar sonhos.
Realizar desejos, mostrar caminhos.
Partilhar alegrias…
Conviver com as tristezas.
Transformar planos em realidade.
É ver nas entrelinhas.
Buscar o que está lá no fundo guardado…
Trancado, acanhado e transformá-lo…
Em grandes conquistas e realizações.
O professor semeia e constrói um mundo…
De magia, beleza, sonhos e conhecimento.
Autor Desconhecido
Hoje, farei minhas as palavras do educador Marcelo Cunha Bueno sobre o Ser Professor. “Para mim, ser professor é uma escolha. Pensar nessa figura, nesse habitante da escola, é pensar em alguém que escolheu dedicar seus passos aos outros. Um habitante que se confunde com a própria escola, que se torna um espaço de atravessamento dos outros, dos saberes, das culturas. Esse habitante é o parceiro, o companheiro, aquele que desafia, que frustra, que apresenta caminhos”.
Cunha Bueno ainda diz: “Aprendi a ser professor sendo professor. Tornei-me professor quando percebi que ser professor não é professar linhas, métodos ou didáticas. Ser professor é abrir-se ao outro, às relações. Ser professor é ter uma disposição, uma disponibilidade para ser atravessado pelo mundo. É deixar de ser e ser um outro a todo instante. Para ser esse habitante da escola, é preciso provocar e ser provocado. É essa dinâmica, esse jogo, essa relação, que transforma o professor em estudante! Professor-estudante que se joga nas brincadeiras, nas relações, que dá limites, fronteiras, espaços, que cuida de seu grupo, que cuida de cada um que convive com ele. Alguém que se joga na cultura, enriquece linguagens, compromete-se com as suas escolhas”, conclui ele.
Paulo Freire há muito já falava sobre a boniteza de ensinar e aprender, a boniteza de ser professor. São dele as palavras que quero rememorar por ocasião da comemoração do Dia do Professor: “ensinar e aprender não pode dar-se fora da procura, fora da boniteza e da alegria”. Para esse grande mestre o ofício do educador tem uma essência estética, que se traduzem nos componentes ideológicos e utópicos presentes no ato de educar. Que se revela na crença da relevância social da profissão de educador, na fé de que sua ação é imprescindível à promoção da cidadania plena – pressupostos que a meu ver precisam ser ressaltados, resgatados em âmbito coletivo e individual.
Vivemos uma progressiva desvalorização do professor por parte de vários segmentos sociais. Questões salariais, institucionais e políticas são parte de um quadro que denuncia um histórico de lutas marcadas por alguns avanços e muitos retrocessos. Dentre todos os aspectos que marcam essa trajetória, talvez o mais dramático para campo educacional seja a concordância tácita de boa parte do professorado com uma imagem negativa e depreciativa da própria profissão.
Se de um lado nos deparamos com as transformações das condições objetivas do exercício da profissão docente, que por vezes independem da vontade do professor, por outro lado acredito ser tarefa urgente das coletividades e individualidades envolvidas na esfera educativa pensar uma mudança na própria concepção da profissão de educador. Uma reflexão que contemple a construção de um novo sentido para a nossa profissão.
Nesse contexto de retomada da boniteza de ser professor, penso ser fundamental a cada educador responder a seguinte pergunta: Por que sou professor ou professora? Sei que muitos de nós fazemos constantemente esse questionamento, quando exaustos pela jornada diária de trabalho, ou quando fatigados pelos desafios docentes para os quais envidamos constantes esforços sem, no entanto alcançar sucesso, ou ainda por desejar que nosso salário dure até o fim do mês e atenda nossos anseios de uma vida melhor e mais justa.
Quando sou tomada por esses questionamentos, gosto de recorrer a uma resposta belíssima dita por Moacir Gadotti: A resposta pode ser encontrada em uma mensagem deixada por um prisioneiro de um campo de concentração nazista, que era professor e, depois de viver todos os horrores da guerra, pede aos professores que “ajudem seus alunos a tornarem-se humanos”, simplesmente humanos. E termina: “ler, escrever e aritmética só são importantes para fazer nossas crianças mais humanas”.
Apaixona-me e me impulsiona a idéia de que ser professor(a) é uma possibilidade de ajudar as pessoas a tornarem-se efetivamente humanas. De que nossa profissão lida de maneira única com consciências e sensibilidades. De que não é possível imaginar um futuro para a humanidade sem educadores, mas educadores emancipadores, que não só transformam a informação em conhecimento e em consciência crítica, mas também formam pessoas. E tenham uma crença inabalável na grandeza dessa tarefa.
Paulo Freire nos diz que “Ninguém nega o valor da educação e que um bom professor é imprescindível. Mas, ainda que desejem bons professores para seus filhos, poucos pais desejam que seus filhos sejam professores. Isso nos mostra quanto o reconhecimento do trabalho de educar é duro e difícil. Apesar de mal remunerados, com baixo prestígio social e responsabilizados pelo fracasso da educação, grande parte resiste e continua apaixonada pelo seu trabalho”.
Essa data, 15 de outubro, Dia dos Professores, ainda segundo Paulo Freire “é um convite para que todos, pais, alunos e a sociedade em geral repensemos nossos papéis e nossas atitudes, pois, é com elas que demonstramos o compromisso com a educação que queremos. Aos professores, fica o convite para que não descuidem de sua missão de educar, nem desanimem diante dos desafios, nem deixem de educar as pessoas para serem “águias”. Pois, se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela, tampouco, a sociedade muda”.
(Márcia Carvalho é Pedagoga, Psicopedagoga Mestra em Sociedade, Políticas Públicas e Meio Ambiente, Chefe de Gabinete da AGETUL- Agencia Municipal de Eventos, Turismo e Lazer e Diretora Secretária da Fundação Ulysses Guimarães)