A Celg e o sabor amargo do capitalismo sem risco
Redação DM
Publicado em 1 de dezembro de 2015 às 00:01 | Atualizado há 11 anosSe existe algo inerente à história da Celg, nas últimas três décadas, é o capitalismo sem risco, aquele que, em nome do “desenvolvimento de Goiás”, só serviu para enriquecer empreiteiros, vendedores de tecnologias “milagrosas” e consultores. Rememoremos.
Primeiro: investimentos superfaturados.
Quando se falava dos tristes anos dos governos populistas, em que programas de modernização da agropecuária goiana – irrigação e eletrificação – elevariam a produtividade do campo o desenvolvimento de Goiás, o tempo mostrou ser essa uma meia verdade. E por que foi uma meia verdade? Eis a resposta: a “modernização” da agropecuária goiana foi executada à custa de “investimentos” superfaturados que enriqueceram empreiteiros em troca da quebra da empresa. Veja-se o seguinte exemplo. Cansei de ver regiões que necessitavam de X investimentos com 20 vezes mais obras do que o necessário para satisfazer os eternos financiadores de campanhas políticas que iam à empresa cobrar a conta dos financiamentos de campanhas políticas: os empreiteiros. Creiam no que digo: donos de empreiteiras mequetrefes anoiteceram na classe média e tornaram-se ricos, ao amanhecer, à custa da quebra da empresa. Eis aí a face cruel do capitalismo sem risco que mantém toda uma sociedade prisioneira dos verdadeiros donos do poder.
Segundo: a entrega da Usina Hidroelétrica de Cachoeira Dourada e o maldito contrato superfaturado de compra de energia.
Eis aí mais uma face do capitalismo sem risco. Entregaram a Usina de Cachoeira Dourada para os chilenos que a compraram no melhor dos mundos de eternos lucros sem riscos. Ou seja: vender energia a preços superfaturados à Celg quando, na época, a empresa podia comprar energia a preços substancialmente mais baixos. Simplificando: é como se você tivesse dois açougues para comprar carne. Um vendendo a R$ 30,00 o quilo e outro, a R$ 80,00; e você optasse por comprar do mais caro. Grande negócio para os chilenos, péssimo negócio para o povo de Goiás. Enquanto isso… Bem, enquanto o isso, o governo insiste em manter atores responsáveis por esse “negócio da China” em cargos de direção na Celg. Traduzindo em números: a privatização da Usina Hidroelétrica de Cachoeira Dourada e o contrato de venda de energia atrelado a venda deram um prejuízo de 2,7 bilhões à empresa. Assim, asfixiando a capacidade de investimentos da Celg.
Terceiro: Consultorias e pacotes tecnológicos miraculosos.
A Celg entrou em plena era da globalização (anos 2000) com os discursos da “modernização” sem algo inerente ao atributo fundamental para ser de fato uma empresa moderna: a racionalidade. Resultado: a empresa se viu imersa no mundo dos consultores e softwares milagrosos sem nenhum rumo estratégico. Por causa disso, ganharam rios de dinheiro os tais consultores importados e os vendedores de pacotes tecnológicos. Novamente, o capitalismo sem risco se repetia: ganharam cifras milionárias à custa da quebra da empresa.
Moral da história: se existe uma verdade a ser explicitada é esta: a quebra da maior estatal goiana tem muito que ver com o lucro fácil proporcionado aos eternos financiadores de campanhas políticas que dilapidaram o patrimônio da Celg. É a riqueza fácil à custa de toda uma sociedade que representa o estado de Goiás de verdade e que sempre desconheceu o que de fato se passava nas negociatas dos subterrâneos do poder.
(Salatiel Soares Correia, engenheiro, bacharel em Administração de Empresas, mestre em Planejamento Energético, autor, entre outras obras, do livro A Construção de Goiás)