Brasil

A chave do segredo

Redação DM

Publicado em 17 de junho de 2017 às 03:05 | Atualizado há 9 anos

Vejo essa chuva tombada de secas folhas… Parece-me que a Terra engoliu uma colheitadeira. Será que ainda estamos no outono, ou foi o tempo que se perdeu no tempo? Porque ouço sons amarelos e não há folhinhas verdes para guarnecer de sonhos a alma vil. Contudo, há versos até para a desesperança. Então, vento, por que você se mostra assim tão zangado? Não vê que desse jeito desventura o aventurado? Enquanto a casa inteira treme ao som dos trovões, duma página sagrada, uma prece, eu cravei. Tenho medo de trovões. E foi no meio desse temporal que eu, de tanto medo, começara a sorrir do que vou contar aqui. Foi como se, num repente, uma fórmula mágica de serenidade eu tivesse ingerido.

Confesso, a fórmula não fui eu quem criei, furtei-a de uma menininha… Mas qual? Não me julgue, quem nunca roubou doces de uma criança? Ela, a menininha, ao ser furtada, disse-me: “As coisas na vida apenas acontecem como tem acontecer, e nada que acontece se explica”. – Não foi bem com essas palavras, mas tipo isso. Quero a chave do segredo, eu disse a ela. Fez cara de brava, olhou-me de modo esquisito como se duvidasse muitíssimo… Prometi, jurei, aliancei que não contaria… – e ela fitou-me e disse que revelar um segredo é destruí-lo para sempre.

Depois em silêncio, ficou à espreita, mirando-me com seus olhos verdes de serpente. Será que ela está blefando, só para abusar de minha fobia? Pensei – “Vou esperar até que ela adormeça, assim, em seus guardados encontrarei o fim de meus tormentos”. – Foi aí que a ventania de folhas secas começou e os cadáveres de flores batiam contra o vidro da janela, quando um louva-a-deus adentrou o quarto não sei como. Será que ele veio simbolizar uma esperança alada, para esta minha existência de piano no meio na sala? Observei-o com o descaso de quem está preocupada com coisas mais relevantes: por exemplo, desvendar o segredo da menininha. A infante, sim, agora me lembro, está em seu leito a sonhar com carneirinhos de algodão doce e eu, oh céus!, aqui atormentada por sua sapiência intrigante. Ela, de um suspiro, ronronou tão bonito que me ocorreu a lembrança de que toda criança dormindo é um anjo. Foi nesse exato momento que eu sorri com a certeza da poção de ventura: coisa mais linda do mundo, essa menina seráfica.

O louva-a-deus saltou duas vezes e sobre o criado-mudo pousou… A menininha, como se sua presença sentisse, acordara de pronto e com os seus grandes e verdes olhos mirou o bicho e sem ao menos pestanejar deu-lhe um generoso peteleco. O bichinho rodopiou, rodopiou, ro-do-pi-ou… e quando chegou ao chão já estava sem cabeça. A menina que acabara de se comportar tal qual uma assassina inveterada, sorriu orgulhosa de seu feito. Como pôde agir assim com um bichinho tão inocente? O segredo – pensei – não está na “pseudo-utopia” do agir sem medo e sim em comportar-se corajosamente diante do que lhe assusta antes que, o que lhe assusta, perceba que você está com medo e lhe faça refém. Ela ria do bichinho, ela ria da minha cara espantada… Eu quis fazer um sermão, mas não disse coisa alguma. Ela não parava de rir, olhando para o inseto acéfalo, e eu que pensei em dar um boa bronca, também achei engraçado. Depois mirei a face para a janela e fiz uma careta de deboche para os trovões, fechei as cortinas e adormeci segura e calma, ao lado da corajosa menininha.

 

(Clara Dawn, romancista e produtora de conteúdo do Portal Raízes–portalraizes.com)


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