A eleição de Macri, o Mercosul e o futuro
Redação DM
Publicado em 4 de dezembro de 2015 às 21:38 | Atualizado há 11 anosA presidente Dilma Rousseff já anuncia que vai fazer a Mauricio Macri, presidente eleito democraticamente pelo povo argentino, a desfeita de não ir comparecer à cerimônia sua posse, demonstração clara de sua rudeza política, insatisfação com a eleição de um presidente liberal, com a mudança de rumos do país vizinho, além do desprezo aos princípios mais comezinhos de diplomacia e educação (que parece fazer questão especial de demonstrar também ao governo japonês, no qual já deu o cano da visita por duas vezes).
De qualquer forma, não parece boa ideia, dadas a ênfase de Macri quanto à situação do Mercosul – em especial, a presença da Venezuela em sua composição. Limitada como é, ela não percebe que ele está, antecipada e ardilosamente jogando com os fatos envolvidos, no concerto de medidas que prepara para o seu governo e seu país.
O presidente argentino eleito sabe que, para consolidar seu mandato e poder, precisa criar um clima entusiasmado junto aos eleitores, com vistas à garantia da maioria no Congresso Nacional, nas próximas eleições legislativas. No campo econômico, todavia, com o mercado interno depauperado nos últimos governos kirchneristas, tem de restabelecer os fundamentos da economia de seu pais e atrair rapidamente investimentos internacionais. E neste sentido, o Mercosul é certamente um entrave, pois não permite iniciativas individuais de negociação com os grandes blocos de comércio mundial de parte de seus países-membros.
Por isto, imaginando o que provavelmente se sucederá nas eleições presidenciais da Venezuela (cujo governo conduz o país, mais e mais, o país para um feroz governo ditatorial – o que inclui o frio e covarde assassinato de manifestantes e opositores) no dia seguinte à sua eleição, lançou no colo de Dilma Rousseff a decisão sobre a permanência da Venezuela no Mercosul, invocando a chamada “cláusula democrática”, que consta do Art. 1º do Protocolo de fundação do Mercosul assinado em Ushuaia, Argentina, em 1998, que estabelece o compromisso dos países signatários com a plena vigência das instituições democráticas como condição essencial para a integração à entidade.
Ele parece apostar que ela vai ignorar seu justo apelo e, baseado nesta atitude irá, depois, retirar a Argentina do bloco sul-americano e partirá para a busca de seu ingresso nos grandes blocos de comércio regionais e mundiais, no que será seguido, alegremente, pelo Paraguai, anteriormente expulso do Mercosul pelo simples motivo de ter eleito democraticamente um presidente liberal, depois de promover o impedimento do socialista Fernando Lugo.
Nossa presidente, entrementes a agrura inicial decorrente da abertura do processo de Impedimento, parece sentir-se incomodada com a eleição de mais um presidente liberal, no cone sul. E não é à toa, pois, a julgar pelas falas iniciais, Macri pode se tornar rapidamente a principal voz política sul-americana, pelo simples fato de que o ele diz faz sentido, para governantes dos países de longa tradição democrática.
Vislumbra-se, neste cenário, a atuação conjunta de Argentina e o Paraguai coordenada no sentido de mudança de eixo do direcionamento político e econômico no sul do continente americano, o que pode estabelecer um razoável contraste com o resto dos atuais governos locais – especialmente o Brasil, que os apoia com aliança política e financiamento de importantes investimentos públicos.
Se não prestar atenção nos fatos e agir com a habilidade de estadista, a presidente Dilma Rousseff pode passar à história como a governante distraída que deu ao esperto presidente do país vizinho senha para livrar seu país dos entraves do Mercosul, liberando-o para a adesão a verdadeiros blocos comerciais do mundo, enquanto seu país fica na companhia dos controversos governos dos países vizinhos no pífio Mercosul, que de bloco econômico passou à função de palanque de divulgação do proselitismo ideológico chavista.
Muita gente se esquece do que foi a Argentina até os anos 60. Mas, é um país que, com a direção certa, pode alcançar novamente a riqueza e a admiração internacional em muito pouco tempo e se transformar num curto espaço de tempo, em sério concorrente do Brasil no campo político e comercial, ganhando preferência na atenção de financiamentos e investimentos internacionais, do que decorrerá, naturalmente, sua liderança sobre o bloco político e econômico da América do Sul.
Quanto ao Mercosul, o comportamento de Macri e Rousseff – cada um por suas razões, é sintomático, pois denota uma situação nem merece mais críticas, mas completa mudança na estruturação e rumos. Do jeito que que está, ele está longe de promover a razoável lista de objetivos prometidas na sua criação…
(Severino José, advogado, servidor público estadual e membro do Sintrango – Sindicato dos Servidores do Detran/GO)