A pinguela entre o purgatório e o inferno (intermezzo)
Redação DM
Publicado em 23 de junho de 2017 às 23:03 | Atualizado há 9 anos
Pinguela é uma travessia instável e incerta, com a probabilidade de um escorregão, ou de as águas turvas estarem tão próximas e revoltas, ao ponto de respingar em quem as atravessa, ou desse alguém cair nelas por falta de aptidão e equilíbrio. É bom considerar, ainda, o excesso de autoconfiança de quem se utiliza dela.
Eu não tenho um Caronte para me socorrer nessa tormenta de almas penadas, para percorrer comigo essa pinguela sobre o Rio Aqueronte Brasileiro. Ou para salvar-me da “grande fornalha” de que fala Milton em seu Paraíso Perdido. Dessa forma, percorro o mundo inferior na companhia de todos os anti-heróis cabeças pretas ou brancas.
Já desci da montanha, atravessei a selva do pecado e dos ilícitos; melhor dizendo, desci do Purgatório e já vislumbro, embora negue, a cratera do Inferno Medieval. Lúcifer, “o brilhante resplandecente”, rebelara-se contra o poder e o brilho de qualquer outro astro que não fosse o dele – em sua própria terra, quiçá no mundo. Começou a fazer cálculos (só pensa em lucro, maracutaias) e proferir diálogos de grandeza cosmopolita, imaginando a velocidade da queda de seus cúmplices no Reino Universal. Dentre eles, eu. Meus pecados são agora expostos e vários demoniozinhos cósmicos surgem para acusar-me no tribunal e frustrar meus planos de pôr essa Babilônia nos trilhos da moral, da ordem e do progresso. Porém resistirei à sombra da Besta fabulosa que me persegue disfarçada na voz rouca da Serpente edênica.
Resistirei mesocliticamente enquanto puder, poeta Virgílio, de Eneida; honrarei a “Bíblia da nacionalidade” exibida nOS Sertões, poderoso Euclides da Cunha. Resistirei fortemente aqui, nesse Ante-Inferno, rodeado de vespas, pernilongos e vampiros doidos pelo sangue de um inocente.
Onde está você, Caronte, barqueiro dos mortos ou dos quase mortos? Eu apanas finjo equilíbrio e normalidade nessa pinguela sobre o Rio das Dores e do Infortúnio, mas estou apavorado, em perigo.
Ih, já vejo o Inferno Medieval bem próximo.
(Ercília Macedo-Eckel. www.erciliamacedoeckel.com.br)