Brasil

Abençoada recepção

Redação DM

Publicado em 12 de dezembro de 2015 às 23:19 | Atualizado há 11 anos

Um dia fui visitar um amigo doente, colega de radiofonia, que estava acamado, em sua casa; lá chegando, acionei a campainha e uma jovem veio atender; apresentei-me; mas a mocinha perguntou-me: — Qual é mesmo o seu nome? Repeti-o. — Espere um pouquinho, por favor… Deixou a porta semiaberta e, ao invés de anunciar-me ao irmão, a quem fui visitar, anunciou-me à sua mãe e irmãs que, pressurosas, cuidaram de colocar sobre a mesa uma imensa imagem de Nossa Senhora da Conceição, duas velas acesas e, tomando assento em torno da imagem, munidas de rosários e duas bíblias, começaram a rezar, em voz alta; eu a tudo assistia, curioso, pelo vão da porta; em seguida, a atendente retornou à minha presença e, um pouco assustada, ordenou-me: — Pode entrar… Meu irmão está ali, naquele quarto… E apontou-me uma porta à direita da sala de visitas, enquanto que, na copa, o mulherio daquela casa continuava rezando, em voz alta: — “Nós te pedimos, Nossa Senhora, livrar este lar dos demônios que acompanham certas pessoas…”

É claro que eu entendi a indireta. Aquelas certas pessoas eram os espíritas e, principalmente, eu, graças a Deus um adepto declarado da Codificação Cardequiana, muito conhecido pelo público anapolino em virtude dos programas diários levados ao ar, sobre Espiritismo.

Compreendi a necessidade premente de respeitar as convicções alheias, mormente os excessos religiosos dos fanáticos, e dei tudo por nada; entrei e fui ver o meu amigo. Quando ele me viu, foi logo dizendo: — Ora, então era você?

— Sua irmã não me anunciou?

— Não. Quando minha mãe e as manas começaram a rezar, eu sabia que algum espírita estava em casa… e sorriu, completando: — Espero que não leve a mal a maneira pela qual foi acolhido aqui.

— Claro que não… Expliquei — Aliás, ser recebido, num lar, sob a benção da prece, não é privilégio para qualquer um…

Muita gente não está informada a respeito do Espiritismo, e o supõe análogo a crenças diversificadas que há por aí, onde a mediunidade, mal dirigida por elementos totalmente leigos no assunto, é conduzida a termos iminentes, abusivos e de consequências imprevisíveis.

Há também os que dizem ser o Espiritismo — “coisa do outro mundo”. Aliás, nunca falaram tão acertadamente…

Falaram tão mal do Espiritismo através dos tempos, que muita gente foi ver se aquilo tudo que diziam era verdade: foi, viu — e ficou…

Espiritismo é lógica total.

 

(Iron Junqueira, escritor)

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