Almoço em Brasília
Redação DM
Publicado em 4 de novembro de 2015 às 01:22 | Atualizado há 11 anosO restaurante estava quase que vazio, sentamos, Marília, Ana Paula e eu, a uma mesa localizada em um dos seus cantos, pois, pelas referências que nos orientaram a procurá-lo, fazia-nos imaginar que a partir do meio-dia deveria acorrer muita gente.
Garçons vestidos com esmero e, principalmente, gentis; dois deles rodearam nossa mesa e com a mesura dos que entendem o propósito da profissão, cobriram-nos de atenções; o “maitre”, que se postava à distância, observava a movimentação e após termos acomodado, se aproximou e entabulou uma ligeira conversação (de onde vínhamos, se era a primeira vez que estávamos ali, etc.); sugeriu-nos alguns pratos e os respectivos vinhos.
Após constatar que estávamos “de passagem”, portanto com restrição para bebidas alcoólicas, retirou-se, sem antes deixar-nos a “carta de menu”; ainda conversávamos a respeito da razão da nossa viagem, quando avistamos, sentada sozinha à uma mesa, uma senhora elegantemente vestida.
Meu “vício” de literato levou-me a fazer algumas conjecturas a seu respeito, por que estaria ali sozinha? Será que o possível acompanhante ainda viria? Por quê? Por quê?
Ainda perdido nestas elucubrações, fiquei “satisfeito” ao perceber a aproximação de um senhor, aparentando, semelhantemente àquela senhora, uns sessenta anos de idade e aí aconteceu um encontro carregado de ternura.
Ele, elegantemente trajado (terno e gravata), parou em frente àquela mesa e disse, abstraindo-se da presença dos circunstantes e com modalidade de voz passível de ser ouvida por nós:
– Quanto tempo! mais de 30 anos, oh meu Deus!
Ela se levantou e, só agora percebi que usava um conjunto de saia e casaco que lembrava “Chanel”, seu pescoço era adornado por um belo colar e muita simpatia no olhar; ele se aproximou de braços abertos e se abraçaram, demoradamente, com grande ternura; de onde estava, percebi que ele alisava seu rosto e era correspondido por ela neste gesto.
Era impossível, para mim, não procurar entender, nem que fosse pela metade, aquele encontro; acho, discuti com minhas companheiras de viagem, que aquele era o reencontro de um amor antigo que, por qualquer motivo, foi atropelado no passado pelas circunstâncias da vida – não conseguia ouvi-los, porém, as manifestações de seus olhares e as caricias que trocavam com as mãos, davam-me a certeza de um reencontro arrebatador.
Na saída do restaurante, não contive e me dirigi à mesa dos dois e, com a curiosidade de um “repórter da vida”, dirigi-lhes a palavra:
– Não me deixem viajar com esta incerteza. contem-me a razão deste encontro! Ele falou primeiro:
– O senhor se portava, como observava, como uma pessoa que estava satisfeita com o nosso reencontro, o senhor nos “engolia” com o olhar; a senhora pegou-me pelas mãos e em rápidas palavras, ao descobrir que minha profissão era o mundo da literatura, confirmou pela hipótese:
– Este “rapaz” me prometeu, há muitos anos, amor eterno e eu acreditei; no entanto ele “fugiu” e nunca mais o vi, fiquei com minhas dores! Hoje ele volta, nós dois mais envelhecidos, agora “com o seu testemunho”, jurando, novamente, que não mais me abandonará, devo acreditar?
– Em nome do amor, acredite, pois a senhora poderá repetir, mesmo se acontecer de ele fugir novamente, aquela estrofe da canção de Vinicius de Morais: “O amor será eterno enquanto dure!” E, se a senhora não for romântica a este ponto, repita com a voz popular, “o minuto que passou não volta mais”!
Se não houver desdobramento deste memorável reencontro, valeu pelos minutos que tentaram reconstruir o passado que deixou marcas, segundo penso.
Vocês dois devem ter lido Exupéry e uma das frases do Pequeno Príncipe vem a calhar com este encontro – “Somos eternamente responsáveis pelas pessoas a quem cativamos!”
(Hélio Moreira, membro da Academia Goiana de Letras, Academia Goiana de Medicina, Instituto Histórico e Geográfico de Goiás)