Arma de fogo aumenta em 85% os casos de morte de mulheres
Léo Carvalho
Publicado em 8 de março de 2026 às 12:58 | Atualizado há 4 meses
Estudo aponta que a presença de arma de fogo em casos de violência doméstica aumenta significativamente o risco de morte da vítima | Foto: Divulgação
A presença de uma arma de fogo em episódios de violência doméstica aumenta em 85% o risco de que a agressão termine em morte. O dado é de um levantamento do Instituto Sou da Paz divulgado neste domingo (8).
O cálculo foi feito a partir da comparação entre mulheres feridas e mortas por diferentes tipos de armas. Segundo Carolina Ricardo, diretora-executiva do instituto, as armas de fogo apresentam maior potencial letal. “As armas de fogo matam muito mais as mulheres do que simplesmente ferem”, afirma.
Para ela, o dado ajuda a dimensionar o impacto da circulação de armas no ambiente doméstico. De acordo com a diretora, quando o armamento está presente em um episódio de violência, a chance de a agressão terminar em morte cresce de forma significativa.
Uso de arma de fogo contra mulheres
Segundo o levantamento, 47% dos homicídios de mulheres registrados no Brasil em 2024 foram cometidos com arma de fogo. O dado foi calculado a partir de registros do sistema de saúde analisados na pesquisa.
Quando se observa especificamente os casos de feminicídio, assassinatos motivados por violência de gênero, o padrão é diferente. Levantamento divulgado nesta semana pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública aponta que, nesses casos, as armas brancas predominam.
O estudo mostra que 48,7% dos feminicídios no país foram cometidos com arma branca, como facas ou objetos cortantes, enquanto 25,2% envolveram armas de fogo. Em 2025, o Brasil registrou 1.568 vítimas de feminicídio, número 4,7% maior que o do ano anterior.
A diferença entre os percentuais ocorre porque as pesquisas analisam universos distintos. O estudo do Sou da Paz considera todos os homicídios de mulheres, independentemente da motivação. Já o relatório do Fórum Brasileiro de Segurança Pública se baseia em boletins de ocorrência classificados como feminicídio, crime geralmente associado à violência doméstica ou a relações íntimas.
Arma também intimida
Especialistas apontam que a presença de uma arma dentro de casa não aumenta apenas o risco de morte, mas também pode funcionar como instrumento constante de intimidação em relações abusivas. Segundo Carolina Ricardo, há casos em que o agressor mantém a arma visível ou próxima para ameaçar a vítima.
A pesquisadora também cita episódios de violência não letal em que o armamento aparece como fator de risco. De acordo com ela, a arma de fogo dentro de casa aumenta o risco de morte e também está presente em situações de violência sexual ou psicológica.

Para a cientista social Silvia Ramos, diretora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania, a presença de armas amplia o poder de ameaça do agressor. Segundo ela, mesmo sem uso direto, o armamento pode representar um fator de intimidação dentro da relação.
Especialistas também relacionam o tema ao aumento da circulação de armas no país nos últimos anos. A partir de 2019, durante o governo de Jair Bolsonaro, mudanças na política de armamento ampliaram o acesso de civis a armas e munições, especialmente entre caçadores, atiradores e colecionadores.
As medidas foram revogadas em 2023, já no governo de Luiz Inácio Lula da Silva, mas as armas adquiridas no período permanecem em circulação.
População armada
Atualmente, há cerca de 1,3 milhão de armas registradas nas mãos de caçadores, atiradores e colecionadores no país. Uma auditoria do Tribunal de Contas da União identificou falhas no controle desses registros e apontou que 5.200 condenados pela Justiça conseguiram obter, renovar ou manter certificados entre 2019 e 2022.
Para Carolina Ricardo, o controle dessas armas é um ponto central da discussão. Segundo ela, houve uma expansão significativa no número de registros e agora há um processo de reorganização e fiscalização, com a transferência do controle para a Polícia Federal.
Ela também cita mudanças na Lei Maria da Penha que determinam que autoridades perguntem, ao registrar casos de violência doméstica, se o agressor possui arma de fogo. Caso haja, o delegado deve solicitar ao juiz a apreensão do armamento e comunicar os órgãos responsáveis pelo registro. (ALÉXIA SOUSA/Folhapress)