As redes elétricas estão matando nossas árvores
Redação DM
Publicado em 31 de outubro de 2015 às 21:36 | Atualizado há 11 anosConversando com um engenheiro da Celg, isso recentemente, sobre sua opinião em relação à possibilidade de Goiânia converter a sua rede elétrica aérea para subterrânea, ele não mostrou entusiasmo com a minha ideia. Na verdade, jogou um balde de água fria na ideia, justificando seu ponto de vista no custo elevado dessa conversão. Ele inclusive ressaltou que querer tal coisa é “utopia”. Achei o termo “utopia” impróprio, mas não disse nada a ele.
Se olharmos, por exemplo, o processo histórico da iluminação pública, perceberemos a impropriedade do termo “utopia”. Tudo começou com o uso de óleo vegetal e animal, depois passou a gás e finalmente chegou à luz elétrica. Campos, uma cidade do Rio de Janeiro, foi a primeira a ter luz elétrica nas ruas, isso em 1883, e a energia para isso era produzida por uma usina termoelétrica. Já a cidade do Rio de Janeiro implantou luz elétrica nas ruas em 1904, no ano posterior foi vez de São Paulo. Falar na possibilidade do homem voar há quase cinco séculos atrás, quando Leonardo da Vinci fez os primeiros desenhos de avião e helicóptero, era algo fora da realidade, absurda. Hoje o homem já está fazendo ninho nas estrelas e já pensa em ir embora da Terra.
Além desses aspectos históricos apontados para mostrar a impropriedade da palavra “utopia”, há outros não-históricos que mostram que o uso de redes elétricas subterrâneas é algo possível, pois já é realidade em alguns países. Metades das redes de Tóquio estão debaixo da terra; em cidades europeias isso já acontece 100%; Mumbai (Índia) tem 95% de suas redes subterrâneas; Nova York, 70%; Cabo (África do Sul), 70%. São Paulo tem apenas 7%. Na maioria dos condomínios horizontais de Goiânia, as redes são subterrâneas.
Meu objetivo com este artigo é defender a vida das árvores, mais precisamente as plantadas nas ruas, as quais, infelizmente, por causa das redes elétricas, passam por podas frequentes, e com isso o objetivo do plantio delas acaba não acontecendo plenamente: que é promover às pessoas, sobretudo às que transitam a pé pelas ruas, o conforto térmico como também geração de beleza paisagística à cidade. Muitas, devido às podas frequentes que ocorrem para proteção das redes elétricas, têm o seu ciclo de vida encurtado. Árvores que poderiam viver muitas décadas acabam morrendo muito cedo sem prestar o valioso papel de árvore dentro das cidades. Na minha defesa às árvores com o cabeamento subterrâneo, há também motivação técnica.
Tenho visto muitas árvores maltratadas em Goiânia, alguns até mortas. Goiânia precisa rever sua relação com as árvores, precisa dar-lhes um tratamento especial e de respeito, pois elas, muito além do embelezamento de nossas, são geradoras de bem-estar à população. O aspecto térmico está entre o bem-estar e representa algo essencial, sobretudo nesses dias de calor insuportável que Goiânia está vivendo nos últimos dias.
Só há, portanto, uma maneira de Goiânia poupar a vida das árvores que enfeitam as suas ruas e avenidas e promovem comodidade térmica às pessoas: retirar suas redes elétricas do ar e passá-las a subterrâneas. Redes elétricas debaixo do solo também representam tecnicamente inúmeras vantagens, como baixa vulnerabilidade em relação aos riscos climáticos, maior controle sobre as variações de tensão, redução do número de ligações clandestinas.
O fator climático é um grande gerador de transtorno. Em épocas de chuva, os problemas são frequentes, e muitos bairros acabam ficando horas e horas sem energia por causa das quedas de árvores nas redes elétricas. E, na ocorrência disso, os prejuízos econômicos à população são certeiros, principalmente para os pequenos comerciantes. Essa novela real de todos os anos conhecemos bem, seja como vítimas, seja assistindo aos noticiários.
O custo das redes subterrâneas realmente é maior, mas, ao longo dos anos, esse custo é compensado pela desnecessidade da realização de vários serviços de reparos nas redes aéreas, que consomem um grana preta. Se troca ocorrer, as árvores poderão crescer livremente e assim os passarinhos terão onde pousar e aninhar, e nós o privilégio de apreciar esses poetinhas da natureza que nos oferecem gratuitamente a poesia do seu canto. E junto a isso a sombra, as flores e os frutos dela.
(Sinésio Dioliveira, jornalista)