Brasil canta de galo
Redação DM
Publicado em 24 de maio de 2016 às 02:47 | Atualizado há 10 anos
Países como Cuba, Venezuela, Bolívia e Argentina aprontaram com o governo brasileiro nos últimos 13 anos. Um porto foi construído em Mariel pela Odebrecht em parceria com a cubana Quality. Custos: 957 milhões de dólares, sendo 682 milhões de dólares financiados pelo BNDES. Esse dinheiro dificilmente voltará ao Brasil, porque os cubanos nunca pagam suas dívidas em dia. É bom assinalar que as empresas nacionais cobram melhorias nos portos e essas obras são proteladas. Um detalhe: falou em Odebrecht fica uma interrogação sobre destino de parte desse dinheiro.
A Venezuela do chavismo se protege em função do poderio militar no continente. Suas forças armadas acabam de realizar manobras militares com a participação de 100 mil militares. Alegação esdrúxula: invasão americana. Dezenas de tanques, mísseis russos, aviões de combate, anfíbios chineses e outros equipamentos militares são comprados com a autorização de Maduro. Custos dessas operações: US$500 milhões. Enquanto isso, seu povo passa fome e a resposta que o governo dá é que os preços do petróleo caíram no mercado internacional. Então, como explicar a corrida armamentista? Armas custam caro. Se os líderes da oposição abrem a boca, são trancafiados na cadeia.
A Bolívia mantém Evo Morales em seu terceiro mandato. A informalidade toma conta do mercado de trabalho. A Argentina dos Kirchner afrontavam o Brasil a partir do Mercosul, tratado de comércio entre países latino-americanos. As regras deixaram de ser cumpridas. Hoje, esse comportamento está mudando com o advento do governo de Maurício Macri. Na condição de ministro das Relações Exteriores, a Argentina será o primeiro país a ser visitado por José Serra.
Entendemos que as relações entre os países devam satisfazer aos interesses envolvidos. Entendimentos que resultam na paz, na prosperidade dos povos e assim por diante. O Brasil está sustentando caloteiros, em minha opinião, está fora de cogitação. O Lula suspendeu até dívida de países africanos, quando o nosso povo ainda passa necessidades de toda ordem nos campos da saúde, da educação, do emprego, entre outros.
Com tudo isso, Nicolas Maduro entendeu com o impedimento da presidente Dilma Rousseff de convocar governos e populações do mundo inteiro a defender a petista. E típico do autocrata, ir à televisão e anunciar o retorno imediato ao país do embaixador no Brasil, Alberto Castellar. Como se não bastasse a cantilena do “golpe de estado”, teceu críticas ao governo recém assumido de Michel Temer. Ocupando o Itamaraty, o senador José Serra, que conhece os meados da esquerda, foi implacável. Em duas notas de tom ríspido, rebateu com veemência as críticas da Venezuela e também de Cuba e Equador. O vice-chanceler venezuelano Alexander Yanez pediu a desconsideração do que Maduro disse na televisão. O Brasil se impôs. Cantou de galo em seu terreiro.
Afinal de contas quem é a Venezuela para dar palpites em situação doméstica. Já nem precisa explicar mais que o governo petista traiu a confiança de quem confiou em Lula e Dilma. O rombo foi anunciado publicamente pelo ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, homem que foi inclusive presidente do Banco Central do governo Lula. Não é à toa que os fundadores do Partido dos Trabalhadores saíram da sigla. Quebrar uma empresa petrolífera como a Petrobras só mesmo quem deixou de amar as cores verde e amarela. E adotou a corrupção com base de sustentação do governo.
A Venezuela de Hugo Chávez e Nicolas Maduro mantém sua população sob o jugo da baioneta, em decorrência de comandantes militares também corruptos. Sua vez pode estar chegando. O povo está no sacrifício e lutando. Só resta a luta, porque a fome bate às portas de cada um. Há fila pra tudo. Até para comprar farinha de trigo pré-cozida para fazer arepas, um de seus pratos tradicionais, ou um tipo de pão.
Os soldados estão em toda parte. Armados de fuzil e qualquer reação há sério risco do manifestante parar por semanas, meses e anos na cadeia. A tortura está presente. A comida é racionada e, em muitos casos, a venda ocorre apenas em alguns dias da semana. O governo estabelece turnos para as compras. Exige carnê para os supermercados para a compra de 50 produtos básicos. Antes do pagamento é exigida a impressão digital no equipamento específico. É uma agonia cotidiana. Por todo esse quadro, a ebulição é efervescente. Os protestos são ensaiados em diferentes cidades contra a insegurança, a inflação superior a 720% ao ano, a escassez, a delinqüência é letal. E o atual governo faz de tudo para manter-se no poder, até rasgando a própria constituição elaborada sob o manto do chavismo. Com esta atitude, fica difícil a oposição chegar ao poder.
O Brasil, finalmente após 13 anos, parte para a busca de uma diplomacia distante dos aspectos ideológicos que pouco ou nada constroem. O mapa mundi e livre da submissão a países subdesenvolvidos só tem a fortalecer o Brasil. A nação brasileira só tem a lucrar com o estreitamento de relações com a Europa, Estados Unidos, Japão e as nações da Ásia e África.
(Wandell Seixas, jornalista voltado para o agro, bacharel em Direito e Economia pela PUC-Goiás, ex-bolsista em cooperativismo agropecuário pela Histradut, em Tel Aviv, Israel, autor do livro O Agronegócio passa pelo Centro-Oeste e editor de Agronegócio do Diário da Manhã)