Candomblé de rua toma Santo Amaro no Bembé do Mercado, na Bahia
Fernando Henrique - Estágio DM
Publicado em 19 de junho de 2026 às 11:56 | Atualizado há 1 hora
Cortejo do Bembé do Mercado percorre as ruas de Santo Amaro (BA) durante celebração de religiões de matriz africana | Foto: Tatiana Azeviche/Ascom/SeturBA
Andar pelas ruas de Santo Amaro, a cerca de 80 km de Salvador, é visitar pedaços da história brasileira. Durante o mês de maio, essa experiência na Bahia fica mais intensa ao acompanhar o Bembé do Mercado, considerado por seus membros o maior candomblé de rua do mundo.
A celebração religiosa e cultural na Bahia narra a resistência do povo negro durante a abolição da escravatura. Nos últimos 137 anos, um barracão de axé é montado na praça principal da cidade.
A reportagem acompanhou em maio o cortejo. Fala-se de candomblé de rua porque geralmente esse tipo de manifestação ocorre em espaços fechados como casas ou terreiros de axé.
O cortejo do Bembé passava em frente à casa de Dona Canô (1907-2012), mãe de Caetano Veloso e Maria Bethânia. Lá parava como uma saudação à matriarca.
Fé, ancestralidade e celebração
A partir de 13 de maio, dia da abolição da escravatura no Brasil, reúnem-se filhos e filhas de santo para o xirê. A dança é uma grande roda em saudação aos orixás.
Segundo o vice-presidente da Associação Bembé do Mercado, Babá Geri, os participantes reivindicam o direito à liberdade religiosa, ao respeito e à segurança alimentar.
“O Bembé nasce sob o cunho de falsa liberdade, mas com o tempo nós ressignificamos essa data e hoje ele celebra a vida e a liberdade religiosa. É importante para que a gente possa compreender e estudar a manutenção e sobrevivência das comunidades pretas do Brasil”, afirma Geri, que é babakekerê (ou “pai pequeno”, um cargo no candomblé).
Além dos rituais de fé, o evento transforma a cidade em um grande palco a céu aberto. Muitas manifestações culturais tomam as ruas e animam o povo, vão das batidas de bastões do maculelê à ginga da capoeira.
As comidas sagradas também estão presentes. Dentro do barracão são partilhados o ipeté de Oxum e o amalá de Xangô. Fora, é servida a feijoada de Ogum e o povo bebe dançando o samba de roda tradicional da região.
Tradição, memória e continuidade
Em 2026, participaram representantes de 68 terreiros, em cinco dias de programação, entre os últimos 13 e 17 de maio. O ato virou uma tradição que passa por várias gerações dos adeptos das religiões de matriz africana.
A yalaxé Geovana da Cruz Pires, 29, estava grávida quando “fez o santo”, ritual do candomblé, e participou do Bembé. A filha já tem 10 anos e nunca deixou de frequentar o evento.
A história que começa em 1889, exatamente um ano após a assinatura da Lei Áurea, teve como protagonista o líder religioso João de Obá. Ex-escravizado de origem malê, ele reuniu o povo preto para celebrar a conquista da liberdade. Fincaram uma bandeira branca na praça do mercado municipal e levaram o culto dos terreiros para as ruas.
Após concluir os rituais na praça, os participantes saem para entregar os balaios, presentes preparados pelos terreiros, para Iemanjá e Oxum.
Em um caminhão, rodam as ruas da cidade com paradas em alguns pontos de saudação. Ao redor da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Purificação dão quatro voltas. Também passam por terreiros e casas de personalidades locais. O destino é a praia da Vila de Itapema, onde os presentes são soltos no mar ao cair da tarde de domingo.
“Começamos a cozinhar às 4h do sábado e a finalidade é trazer saúde, paz e afirmação. Todo terreiro de candomblé quando termina uma obrigação, termina com o presente que é a finalização do axé”, explica Mãe Williana de Odé, 53, ialorixá do Ilê Axé Ojú Igbô Odé.
Patrimônio e reconhecimento cultural
A historiadora Ana Rita Araújo Machado, 52, professora da Uneb (Universidade do Estado da Bahia), pesquisa a festa desde 1997. Ela define o ato como uma transgressão.
“Do ponto de vista ancestral, aquilo demarcou um território. A gente está falando de ocupação de espaço político por um grupo de marisqueiras, pescadores e pessoas do candomblé dizendo ‘já que existe estatuto da liberdade, eu quero estar no espaço da cidade’”.
O local escolhido, no largo do Mercado, é simbólico porque anos antes era também um espaço de venda de escravizados.
Segundo Machado, com o Bembé é devolvido o protagonismo da abolição aos negros que resistiram. Funciona como um contraponto ao que foi propagado com foco na princesa Isabel dando a libertação dos escravos, sobre as pessoas que lutaram pelo fim das correntes.
Como marco cultural do Recôncavo baiano, o Bembé do mercado é reconhecido como Patrimônio Imaterial da Bahia desde 2012.
O título de Patrimônio Cultural Nacional foi dado sete anos depois e tramita um processo na Unesco para ser Patrimônio da Humanidade. O reconhecimento também chegou na Marquês de Sapucaí, como tema do carnaval 2026 da Beija-flor de Nilópolis.
“A gente está dando continuidade a um legado. Então, é de muita responsabilidade e de muita importância que a gente mantenha essa memória ancestral viva”, afirma pai Léo de Xangô, 31, do Ilê Axé Okan Aganjú. “Levar o que há de melhor do nosso povo, do povo preto, levar o axé dos orixás, perpetuar isso para que não se perca”. (Adriano Alves/FOLHAPRESS)