Cântico a um líder
Redação DM
Publicado em 9 de julho de 2016 às 02:45 | Atualizado há 10 anosIris Rezende é festejado como um líder carismático e moderno. Sua vida é o foco de artigos, crônicas, livros, programas de rádio e televisão, inclusive dissertações de mestrado e teses de doutorado. Somem-se a isso os discursos, homenagens e títulos que lhe foram prestados no curso da sua vida pública. Além do raro talento político sua alma é centrada na dignidade da população.
Com ações que visaram o bem das gerações futuras. Exagero? É só levantar o que ele fez em quase 60 anos de vida pública. Sua missão sempre foi servir ao próximo respeitando as suas diferenças; exemplo do pai Filostro Machado. E isso se cumpre em cada função pública que exerceu. Iris é o resumo da sabedoria dos antigos em um discurso humanista. Os sábios da tribo Sioux, índios do nordeste dos Estados Unidos, planejavam o futuro pensando na sétima geração. Assim faz o Iris desde que se elegeu vereador. Pessoas anônimas, artistas e intelectuais se encantam com a sua capacidade de contar histórias e realizá-las. Talvez venha do céu o fogo do seu ideal que usa para iluminar o caminho do povo. Iris conversa com as pessoas olhando nos olhos, ninguém é capaz de desviar a sua atenção quando conversa com alguém, principalmente com as pessoas mais simples. Iris sonhou muito, mas a atual mazela da política quebrou a base do seu encanto.
Pedro Ludovico, outro sonhador incorrigível, idealizou aqui um posto avançado para uma nova civilização inaugurada com o Batismo Cultural, em 1942. Sete anos depois Iris Rezende chegava a Goiânia. Em 1965 foi eleito prefeito. Antes deles, Goiás, um dos estados mais pobres do país, vivia de uma tradição agrária rudimentar. Mas, o mutirão, tradição da roça adotada por ele como estilo de administrar, simboliza o jeito peculiar do povo do interior para compartilhar experiência, trabalho e festa. Joseph Campbel, mitólogo norte-americano, diz que aquilo que os homens têm em comum revela-se no mito. Coube ao Iris incorporar a cultura goiana de luta contra as adversidades e projetá-la para o futuro. Sua biografia revela um construtor incansável e ousado.
Nem as derrotas pessoais, como a cassação do seu primeiro mandato de prefeito pela ditadura militar em 1969, lhe tiraram o ânimo. Voltou como governador em 1982 e 1990. Depois vieram as derrotas de 1998, 2002 e 2014. Só as pessoas iluminadas acham força em Deus para superar o deboche dos contrários. Mas Iris é imbatível; sai o líder, entra o mito a iluminar nossa história.
Lembro nessa crônica a lenda Tupi sobre a origem do fogo contada por Levy-Strauss, antropólogo francês, em seu livro “O Cru e o Cozido”: “O herói mítico finge que morreu e atrai os urubus. Estes, que eram os donos do fogo juntam-se em volta do morto e acendem uma fogueira para cozinhá-lo. O herói afugenta os urubus e toma posse do fogo entregando-o aos homens.” As vitórias em 2004 e 2008 são metáforas dessa história. Numa visão antropológica a vida de Íris Rezende tem um formato mítico que se assemelha ao personagem de Strauss. E esta lenda, com versões diferentes, corre longe.
Uma das características do mito é a forma simbólica da narração dos seus feitos. A outra é a de que a história do mito explica a realidade vivida em sua época. Mircea Eliade, historiador romeno, diz que o mito conta a história de um comportamento humano que se torna uma realidade. Iris Rezende, mais do que gestor, é a própria manifestação da cultura viva de Goiás; criou um paradigma com a cara de Goiás. Naturalmente que este padrão está fundamentado em modelos de transformação dos costumes. O exemplo de Iris produziu um novo conhecimento; modernizaram as relações humanas; influenciam o comportamento individual e coletivo; mudaram a ocupação do espaço do homem e leva os estudiosos a um olhar científico sobre as suas ações. Isso o coloca como autor contemporâneo da história goiana. Nessa visão antropológica Iris é a síntese da cultura que transforma e ensina pelo exemplo. Temos em Goiás três modelos: Pedro Ludovico Teixeira que construiu Goiânia, Iris Rezende que a fez metrópole e Marconi Perillo que modernizou a administração pública. Por esse lado penso que o Iris foi mais ousado; construiu a base da estrutura física atual do estado, principalmente casas populares e estradas asfaltadas.
Interessante observar que, com o passar do tempo, Iris ficou mais atento às pessoas. Sobretudo sua dialética que valoriza o outro sem negá-lo. Por essa causa as suas realizações são duradouras. E são cantadas em prosa e verso como cântico a um líder que acaricia todos os tempos. O que faz com que esta representação simbólica do mito Íris Rezende sirva de referência a uma nova prática em época de arrancar as raízes da descrença com os políticos.
(Doracino Naves, jornalista; apresentador do programa Raízes Jornalismo Cultura, PUC TV, sábado, 12h30. Reprise, domingo, 20h)