Celular de Vorcaro chega a Zanin e amplia disputa no STF sobre acesso a provas do caso Master
DM Online
Publicado em 14 de setembro de 2026 às 10:39 | Atualizado há 38 minutos
A Polícia Federal entregou ao ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), uma cópia integral dos dados extraídos do celular de Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. A medida coloca diretamente nas mãos do ministro um dos principais conjuntos de provas digitais reunidos pela investigação e amplia a disputa dentro da Corte sobre quem pode acessar o conteúdo completo das comunicações do banqueiro.
A entrega ocorreu na manhã desta segunda-feira (14), após determinação de Zanin. O ministro havia fixado inicialmente as 23h de domingo (13) como prazo para que a Polícia Federal disponibilizasse o material. A ordem foi dada no momento em que o Supremo se prepara para analisar questões relacionadas às mensagens encontradas nos aparelhos apreendidos durante a Operação Compliance Zero.
O material entregue não é o aparelho físico, mas uma cópia dos dados extraídos pela perícia. O telefone de Vorcaro, um iPhone 17 Pro, foi apreendido em 18 de novembro de 2025, quando o banqueiro foi preso na primeira fase da operação. De acordo com a reportagem, oito aparelhos foram submetidos a perícia no âmbito da investigação.
A relevância da entrega está no fato de Zanin passar a ter condições de examinar diretamente o conteúdo obtido pela PF, sem depender exclusivamente de relatórios, recortes ou mensagens previamente selecionadas por investigadores. O celular reúne comunicações produzidas durante um período considerado central para as apurações envolvendo Vorcaro e o Banco Master.
A decisão de Zanin ocorreu em meio a uma divergência no Supremo sobre o compartilhamento desse material. Ao determinar o envio dos dados, o ministro sustentou que não existe hierarquia entre integrantes da Corte e defendeu acesso irrestrito às provas necessárias para formar sua própria convicção.
A posição encontrou resistência do ministro André Mendonça. Segundo a reportagem, Mendonça encaminhou ofício no domingo argumentando que a abertura e o compartilhamento integral dos dados poderiam tumultuar o julgamento e comprometer o andamento e o êxito das investigações.
A divergência expõe uma questão sensível no caso Master. De um lado está a preservação do sigilo de uma investigação que ainda reúne e analisa provas. De outro, o entendimento de que ministros chamados a decidir sobre elementos decorrentes dessa investigação precisam conhecer integralmente o material que fundamenta as conclusões apresentadas pela Polícia Federal.
O celular de Vorcaro ganhou importância justamente pela quantidade e pela natureza das comunicações armazenadas no aparelho. Parte do conteúdo já aparece em documentos produzidos pela PF, que reproduzem conversas atribuídas ao banqueiro e a pessoas de seu círculo de relações.
Em uma representação policial de 164 páginas encaminhada ao STF, por exemplo, investigadores afirmam ter identificado mensagens relacionadas a uma estrutura que teria sido utilizada para obtenção de informações sigilosas, monitoramento de adversários e intimidação de desafetos. Essa é uma frente distinta, mas ajuda a dimensionar a importância do material digital apreendido.
Em um dos diálogos reproduzidos pela PF nessa representação, Vorcaro aparece, segundo os investigadores, falando sobre o jornalista Lauro Jardim. Em junho de 2025, teria afirmado que era necessário colocar pessoas seguindo o jornalista para obter informações sobre ele. Mourão respondeu que faria isso. Em julho, Vorcaro teria voltado ao assunto e dito que queria mandar “dar um pau” no jornalista e “quebrar todos os dentes” dele em uma ação que aparentasse um assalto. Mourão perguntou se poderia verificar a execução da ideia, e Vorcaro respondeu “Sim”.
Em outras mensagens reproduzidas no documento, a PF afirma que Vorcaro discutiu com Felipe Mourão se seria mais eficiente empregar policiais ou pessoas ligadas ao jogo do bicho para intimidar determinado alvo. Quando Fabiano Zettel perguntou se Mourão possuía os nomes e sabia onde encontrar as pessoas, Vorcaro respondeu, segundo a transcrição: “Tem tudo. Já levantou tudo”.
A Polícia Federal atribui a Mourão papel central nessa estrutura. Segundo a representação, ele recebia R$ 1 milhão por mês e era chamado de “Sicário” em conversas com Vorcaro e Zettel. Os investigadores dizem ter encontrado referências a planejamento e possível execução de agressões, utilização de intermediários armados, constrangimento de ex-funcionários e obtenção de informações pessoais para pressionar determinadas pessoas.
A PF também afirma ter identificado acessos indevidos a informações protegidas em sistemas do Ministério Público Federal, da Senasp e da própria Polícia Federal, inclusive procedimentos sigilosos ou submetidos a segredo de Justiça. O documento menciona ainda monitoramento presencial de jornalistas, empresários e ex-funcionários e conversas sobre utilização de policiais ou milícias contra desafetos.
Essas acusações estão sob investigação e não significam que os fatos atribuídos aos envolvidos tenham sido definitivamente comprovados. Os investigados têm direito de contestar as conclusões da PF e a interpretação dada às mensagens. Nos trechos examinados, também não há uma ordem explícita de Vorcaro para matar alguém, embora existam diálogos que a polícia associa a perseguição, intimidação e violência física.
É justamente a possibilidade de examinar as conversas em seu contexto original que torna a cópia integral do celular particularmente relevante. Trechos isolados podem adquirir significado diferente quando confrontados com mensagens anteriores e posteriores, datas, interlocutores e demais informações armazenadas no dispositivo.
Com a entrega determinada por Zanin, o debate deixa de envolver apenas aquilo que a Polícia Federal selecionou para seus relatórios. O gabinete do ministro passa a ter acesso ao conjunto dos dados extraídos do aparelho e poderá confrontar as conclusões dos investigadores com o material bruto produzido pela perícia.
A movimentação ocorre num momento decisivo para o caso. Zanin quer analisar o conteúdo antes de participar das deliberações relacionadas às mensagens e às provas provenientes dos aparelhos de Vorcaro. Mendonça, por sua vez, manifesta preocupação com os efeitos que a disseminação integral dos dados pode provocar sobre uma investigação ainda em andamento.
A entrega do celular, portanto, não encerra a controvérsia. Faz o contrário: transfere para dentro do Supremo uma discussão que até então estava concentrada principalmente nos autos da investigação. Agora, além de decidir sobre pedidos e medidas relacionados ao caso Master, ministros da Corte passam a discutir também até onde deve ir o acesso individual ao acervo digital apreendido pela Polícia Federal.
E o que está em disputa não é apenas um telefone. São as comunicações de um dos principais investigados do caso Master e o contexto completo de mensagens que podem ajudar o Supremo a determinar o peso de algumas das acusações mais graves surgidas até agora na investigação.