Brasil

Climas pesados

Redação DM

Publicado em 11 de novembro de 2015 às 22:41 | Atualizado há 11 anos

Hoje amanheci com a macaca, ou poderia ser com a avó atrás do toco, ou com a pá virada, ou com o estopim curto, ou… São tantas expressões, não importa. O importante é que não dá para ficar bem com este clima. Qual clima? O literal ou o do sentido figurado? Ambos, meu caro leitor. Ambos.

No sentido literal o tempo está abafado, muito calor, chuva que é bom, nada! Quando chove, são chuvas curtas, tempestades intempestivas, trazendo torvelinhos dias e noites. Só falta agora ela dar para ser seletiva, chovendo para determinadas classes sociais e para outras não! Para as classes mais abastadas chuva constante e calma, já para os da periferia (Pobre é lascado mesmo!) só trombas d’água, transbordamentos e transtornos. O que resulta, como sempre, na passagem de alguns pobres infelizes para a outra margem da vida.

Também pudera, com o dito ser racional destruindo a natureza e a destruir peremptoriamente a si mesmo só poderia resultar nisto mesmo. Sim, mas aí já não estou misturando os sentidos, o de sentido figurado vindo à tona? Verdade. (Não posso é perder os sentidos…) Visto que um é gerador de outro, é quase impossível desassociá-los.  Mas a borrasca da política dá-se no clima do sentido figurado, lógico. É que nós cidadãos brasileiros vivemos num clima árido, uma deserto de ideias onde o que se debate não são os problemas do povo e da nação, mas o da política em torno dela mesmo. Não importa: entra governo, sai governo, e é a mesma coisa.

Uma das primeiras providências seria acomodar os sentidos dos dois climas. Se o clima político fornecesse sombra aos brasileiros com projetos relevantes para o desenvolvimento do país, o clima daqui e global melhoraria. Mas projetos não existem, ou se existem não deslancham. Perdem terreno para a corrupção, o denuncismo, as CPIs, enfim, uma gama de problemas que se põem à frente das prioridades nacionais. Não que não seja importante combatê-los, mas nunca deixá-los sobrepor aos projetos que realmente interessam.

Esse clima no sentido figurado, desta feita, reflete no outro de sentido literal. Porque, enquanto o país perde tempo em descobrir quem mais afana o alheio, vão devorando nosso meio ambiente. Assim, muitas das vezes não é o clima da razão que prevalece, mas o do interesse, dos conchavos, dos lobbies. Tudo em favor da destruição do meio ambiente, nunca o contrário. Exemplo disto é quando viajamos, às margens das rodovias, são imensuráveis hectares de lavouras predatórias em intermináveis latifúndios, o que demanda reflexão sobre a nefasta destruição do cerrado e de outros biomas.

Daí surgem as perguntinhas básicas: será que Deus não nos abasteceu por completo? Será que a natureza, na sua forma intacta, com biomas, rios e mares abundantes em proteínas, com árvores repletas de frutos nativos e outras fontes de alimentos não seria suficiente para nos manter a vida? Por que o excedente se tornou fator de acumulação de riquezas? Pode ser utópico o que estou escrevendo, mesmo assim o homem está cavando a sua própria sepultura levando a cabo este sistema econômico consumista e depredador.

Voltando à minha revolta do início do texto, caso interesse ao leitor, ela deve-se em grande monta à burrice operante nas cabeças ocas de nossos governantes. (Li recentemente nas redes sociais um texto que diz que os problemas do país não são tanto os que alardeiam por aí, mas sim uma questão de burrice crônica). Concordo sem pestanejar e acrescento aí a falta de vergonha. O primeiro atributo, sem dúvida, é fruto do baixo nível de uma considerável chusma dos cabeças pensantes que são jogados na praça por nossas “excelentes” escolas e universidades.  É o preço que se paga pelas políticas educacionais da Pátria Educadora, bem como por formar robôs em série apenas se pensando no doutor mercado. Já o segundo, é uma questão para a Psicologia explicar o porquê de os políticos terem perdido as estribeiras do caráter.

Sob a égide de climas pesados sucedem os corolários da crônica burrice e da falta de vergonha: soluções mirabolantes e a toque de caixa, caixas sem fundo, quebradeira generalizada com a conta sendo repassada ao povo (como se este também não estivesse também quebrado), instituições em frangalhos, menosprezo do Estado ao sagrado Estado Democrático de Direito, o monstro da inflação expelindo chamas, barreira de lamaçal rompendo-se nos três poderes, birra do Presidente da Câmara Eduardo Cunha, mandando recado de que se é para a infelicidade geral da nação, diga ao povo que fico, enfim grande parte dos políticos com o c… trancado de medo se o homem abrir a boca. Mas nada se resolve, fica o dito pelo não dito e os políticos no bem bom saboreando suas deliciosas pizzas nos acordos acomodados sob a luz de velas em suntuosos jantares noturnos. E o povo com cara de tacho, chupando os dedos.

Vem daí que vez por outra acordamos com a avó atrás do toco, com a macaca ou com a pá virada etc, ficamos mais revoltados do que o de costume e lá vamos nós ao teclado. Afinal, haja clima para suportar esse tempo nebuloso de tantas maluquices e inoperâncias. E quanto mais digitamos, com frenéticas dedadas nas teclas do computador para gerar um texto de indignação, mais o clima torna-se pesado fora e dentro de nós. Sim, porque sabemos resultar inócuas as denúncias, pois nossos patrióticos políticos estão se lixando para o que não lhes interessa, olham apenas para os próprios umbigos, digo, contas bancárias. É certo que muitos já nem leem o que se escreve sobre eles e seus desmandos ou quando leem, fazem vistas grossas. Entra pelos olhos e sai pelos ouvidos. É que, como diz a música, “quem não tem vergonha, nunca terá”.

Assim creio.

 

(Joaquim de Azevedo Machado. Professor/Escritor. [email protected])

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