Brasil

Colarinho branco

Redação DM

Publicado em 12 de dezembro de 2015 às 22:13 | Atualizado há 11 anos

A reunião do banco começara. Ali presente, diante da sombra do seu acionista mais famoso e CEO, eles teriam que decidir a exclusão do mesmo. Envolvido com mirabolante fuga de um desqualificado qualquer de um governo espúrio e corrupto, ele apenas pensava em logo rever sua esposa.

Viera da Suíça, do banco comprado por eles. Falando português sem sotaque. Era impossível não deixar de lembrar quando a viu a primeira vez, agachada, lavando roupa, com o vestidinho de chita vermelho, caindo entre as suas fabulosas pernas. O rio Lençóis, o Ribeirão do Meio, o de Baixo, o riacho Grisante com sua bruma matinal. A Cachoeirinha, a Cachoeira da Primavera, banhos inesquecíveis.

Lidando com juros altíssimos, em que somente nesse país de moeda exótica e pleno em commodities poderia existir mulher igual. Suas férias após voltar de Chicago, onde fizera seu mestrado e doutorado foram escolhidas com muito zelo. Entretanto, ele jamais poderia adivinhar que aquele beijo no Salão de Areias teria transformado seu destino.

O banco dera tiros para tudo quanto é lado. Como seus negócios – fora sugestão dela – nessa terra devastada deram certo, pois comprara acres e mais acres no meio do sertão e lá resolvera plantar soja, ele sabia como vender o que de fato valeria à pena. Na sua primeira fala, propôs a venda de tudo que não era investimento. Silêncio sepulcral. Idêntico ao que fizera quando se deparara com a visão do sol se pondo em cima do Morro do Pai Inácio.

Seus sócios o miravam firmes, mas chocados. Nem elogiaram seus colarinhos impecavelmente brancos, que sua querida Maria Aparecida, a Cidinha Baiana, sempre fizera questão de lavar. Quem os via – belíssimo casal – não poderia imaginar que aquela escritora e chef internacional fora analfabeta até os quatorze anos. Muito menos que seus acertos no mercado de valores, sua técnica de Catalyst Trader fora estudada por muitos e rendera fortuna a eles.

Na verdade, ela era o fator impulsionador dele. Suas mãos de lixa passando nas costas brancas do suíço o arrepiavam até hoje. E ele não poderia deixar de dizer que o sócio teria que vender suas ações preferenciais (vender, não; trocar) pelas ordinárias, perdendo assim voz e voto. Pouco antes de casar, na sua única discussão com ela, sobre a profunda fenda do vestido, descobrira que em sociedade a opinião de cada um é única e valiosa e que não existe relação de poder entre casais que se amam, apenas trocas.

No lançamento do seu livro de estreia, ela o fez em português, idioma que os suíços-italianos veem com curiosidade e alegria. Todavia, para pedir dinheiro para bancos brasileiros – que são excelentes e sempre descontados na bolsa – era necessário falar a mesma língua. O fundo garantidor de crédito teria bilhões para cobrir os saques desesperados que os investidores gananciosos lá um dia confiaram? Como convencê-los?

Talvez pudesse dar o exemplo que nesse país o povo é frouxo e nem liga. Roubado secularmente por uma quadrilha financeira que se mantém no poder e que apenas se alternam, tudo ficaria impune. Porém, sua parceira dissera que tudo tem limites. Um dia haveria uma revolta, nem que fosse no Carnaval, estranha religião pagã de danças e beijos. Ele não entendia, como europeu colonizador, só entendia de mandar e extrair.

Contudo, resolveu negociar, explicou que o Congresso iria votar, que política se faz por Cantões. Também disse que o Banco Central era ótimo em colocar metas, mas péssimo em cumpri-las, como todo bom brasileiro que se preza. Seu colega de classe era Ministro da Fazenda. Nele confiava. Mas tinha medo dele tornar-se um bode expiatório. Seria uma buchada de bode.

No final, veio a luz. Seriam honestos. Denunciariam o colega, preservaria seu dinheiro que ganhara corretamente e pagariam os desmandos. E como sempre ouvira da sua mulher, a vida é como a cachoeira do Sossego, feita em degraus. Tem quedas, tem água, mas tem que ficar limpa. Tal e qual seus colarinhos eternamente brancos.

JB Alencastro é médico e escritor)

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