Brasil

Crônica da revisitação

Redação DM

Publicado em 28 de dezembro de 2015 às 23:20 | Atualizado há 11 anos

Eram Cândido e Dalzira, que se amavam eternamente.

Ele se foi para sempre, ela ficou pra semente.

Mas nesta terra tão árida não fecundou seu amor:

a vida ficou-lhe inválida, planta sem fruto e sem flor.

Ah, se Cândido soubesse, voltaria a este mundo:

Dalzira perdeu a voz, guarda um silêncio profundo.

Não perdeu a luz dos olhos, nem a graça do sorriso:

sonha ainda amor eterno com Cândido no paraíso.

 

“Era esta a sala, oh se me lembro, e quanto!”

Dois seres se separam e se perdem. Encontrar é ser de novo.  O reencontro é o renascer. Cada ser só se reencontra quando se perde. O que o ser não pode é deixar de reencontrar-se.

“Era esta a sala, oh se me lembro!”

Aqui, a poesia revela o renascer. A primeira recuperação do ser é a poesia. É pela poesia que agora estou sendo. O outro só poderá ser pela sua própria poesia. Ser é antes espelhar-se no outro. Depois ver o outro que se espelha. Não é apenas o espelhar-se a si próprio.

Estou por exemplo na casa de Cândido Porto. Sala antiga, que abrigou meu ser. Cândido Porto espelha-se nessa sala e chega até mim. Cândido é feliz ao sentir minha presença porque minha presença faz parte de sua sala. A casa é o abrigo do nosso ser.

Aquele retrato da parede espelha-se no semblante do meu amigo. É o ser do seu avô que nele se espelha. E se reflete em mim. Eu conto minha história que entra na memória do meu amigo e este a remete ao seu avô. Através da sua própria projeção de imagem. Reencontrar-se é ver o jogo das imagens e identificar a sua própria forma.

A imagem do outro é essencial a mim próprio. Na sala, Cândido Porto ao falar, ao olhar, ao gesticular, repõe as formas que se supunham perdidas. E o meu ser reencontra as próprias formas na sua casa, nesta sala. Não é preciso sair da sala para ver-se andando pela casa. Nem sair da casa para reencontrar-se com a paisagem. Tudo se reflete na sala no momento do reencontro.

A segunda recuperação do ser é a recepção do outro. Eu o visitei e ele agora é a visita que em sua própria casa espera ser recebido. É preciso eu ser como ele em sua própria casa para que ele seja como eu, ao receber-me. Neste sentido é que a visita se completa: ele me abre o ser da casa, eu lhe abro a casa do ser. A casa é fundamental, pois ali é que se encontra e se reencontra meu amigo Cândido Porto.

Agora ele me conta sua história que então entra na minha memória e a remeto a meus ancestrais, noutro lugar e noutro tempo. Através da minha própria introspecção: como se me abstraísse da presença do meu amigo. Era esta a sala… No reencontro das presenças passadas, hoje ausências, é o meu amigo quem recupera todas as formas antigas. E sou eu quem lhe projeta todas as ausências agora presentes.

“Era esta a sala, oh se me lembro, e quanto!”

De repente, a mãe do meu amigo, já ida há tanto tempo, – o vulto de iaiá –, reentra na sala e ele a vê espelhada nos meus olhos. A minha presença ali é agora essencial ao meu amigo: ao receber-me em sua sala é ele quem me visita, pois em meus olhos se reflete a imagem de sua mãe. Na imagem refletida de sua mãe, nos reencontramos como renascidos. Somos amigos, agora, como irmãos.

 

(Emílio Vieira, professor universitário, advogado e escritor, membro da Academia Goiana de Letras, da União Brasileira de Escritores de Goiás e da Associação Goiana de Imprensa – E-mail: [email protected])

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