Brasil

Defunto perfumado

Redação DM

Publicado em 15 de dezembro de 2015 às 00:19 | Atualizado há 11 anos

A impressão que me dá é a de que estou em um IML – Instituto de Medicina Legal, vendo defunto ser perfumado numa tentativa vã de melhorar as suas aparências. De que adianta se já está podre.

Antes de ser político fiz o curso de História. Sempre gostei de Ciências Humanas e me dediquei na busca do maior número de informações para o meu uso pessoal e para transferir aos meus alunos.

Foram belas viagens no tempo. Da pré-história até aqui, pude detalhar a evolução física e mental do homem. O caminho por onde passou e passa a humanidade é rico. Até a morte de Jesus cristo é um forte fundamento dos sistemas de vida que os homens encontraram na busca de suas realizações pessoais, mas que em muitas situações serviram ao coletivo – deve-se reconhecer para não ser tão exagerado na análise.

Bem sei que se não houver uma necessidade de realização pessoal antecedente nenhum inventor inventa nada. Mas o homem é um inventor. E a invenção não tem fim, essa é a questão.

Ao me tornar político os meus horizontes atravessaram os horizontes. Vi mais do que eu poderia imaginar que existisse. Se antes conheci a vida dos outros povos, como político aprendi sobre a vida do meu próprio povo.

Quando aportei no capítulo “governos e seus sistemas” meu céu ficou nublado. Um vale-tudo sem limites. Tanto para alcançar o poder como para mantê-lo. Daí, imagino, deve originar a famosa frase: “Em política só não vale perder.” Por isso, os métodos vão da alcova ao extermínio em praça pública. Tudo “em nome da causa”.

Hoje vejo que fui enganado pela história e pela minha longa vivência nos parlamentos pelos quais passei. Achei que já tivesse visto tudo de política e de mau-caratismo. Que nada! Conseguiram transformar as nossas instituições em defunto perfumado. Estamos em um mar de lama.

Só me resta clamar. “Senhor Deus dos desgraçados!/ Dizei-me vós, Senhor Deus!/ Se é loucura… se é verdade/ Tanto horror perante os céus?!/ Ó mar, por que não apagas/ Co’a esponja de tuas vagas/ De teu manto este borrão?…/ Astros! noites! tempestades!/ Rolai das imensidades!/ Varrei os mares, tufão!” (Castro Alves – Navio Negreiro – Tragédia no Mar, V).

 

(Iram Saraiva, ministro emérito do Tribunal de Contas da União)

 

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