Brasil

Deixem-me contar enquanto me lembro Brasil Futebol Clube de Gaspar Lopes

Redação DM

Publicado em 18 de agosto de 2015 às 21:44 | Atualizado há 11 anos

O nome era grandiloquente, nosso pessoal não deixava por menos: havia necessidade de impressionar os adversários. O uniforme tinha as mesmas cores da nossa bandeira: camisa amarela, calção azul e meias brancas.

O nosso time, o time de Gaspar Lopes (pequeno povoado localizado no sul de Minas Gerais) era  formado somente por habitantes do lugar. O José Carlos, mais conhecido por Batuque, liderava, incontestavelmente, o grupo, apesar de ser um dos mais jovens. Era o centro-avante, todos confiavam na sua rapidez, sua coragem e, sobretudo, seu senso de oportunidade. O goleiro era o Tabaco, crioulo lépido como um gato; quando estava em estado de graça tinha reflexo fenomenal (o estado de graça tinha muito a ver com as farras do dia anterior); quando o jogo era difícil, era escalado um elemento para vigiar o Tabaco e o Antonio Martins, seu irmão, que jogava na ponta esquerda.

Os dois não eram muito ciosos das suas responsabilidades e compromissos com o time. Pelo menos em uma oportunidade descobriu-se que o time da cidade de Fama tinha mandado um elemento a Gaspar Lopes no dia anterior ao jogo, com a incumbência de dar algumas “biritas” aos dois, o que aceitaram com muito agrado e, no dia seguinte, com o sol escaldante e a bola de “capotão” nº 5 rodando com muita velocidade no campo sem grama, os efeitos da noite anterior se manifestaram de maneira impiedosa. Este deslize dos dois foi desculpado porque, realmente, o Tabaco, fechava o gol; alguns diziam até que ele era macumbeiro.

O Carlito, funcionário da Rede Mineira de Viação, era o ponteiro; muito veloz, de pernas curtas e chutes violentos; deu-nos várias vitórias, algumas delas no apagar da luzes. Tinha, porém, um defeito: era muito “chorão”, queria ser o primeiro a receber todas as bolas enviadas da defesa, queria bater os escanteios dos dois lados e também as faltas.

O Pipoca era muito rápido; se recebesse a bola e se estivesse emparelhado com o beque, poderia se contar com a certeza de gol. Como o nome está dizendo, era um serelepe com a bola nos pés, driblava tanto para a esquerda como para a direita e chutava com os dois pés; tinha um defeito, cansava-se com muita facilidade (provavelmente porque exercia um serviço muito pesado na roça) e geralmente era substituído antes de terminar o jogo. Cinco outros seus irmãos (V-8, Nelson, Parabala, Ti Perigo e o Doente) chegaram a jogar no time, porém, nenhum deles com o seu brilhantismo. O único dos seus irmãos que realmente, na nossa concepção, poderia igualar ao Pipoca, seria o Servinho Tutu, porém ele nunca quis jogar no Brasil Futebol Clube – nas nossas “peladas” era incrível seu domínio de bola, porém…

O pessoal da família Piazalunga, proprietários da fábrica de queijos, sempre que podiam jogavam pelo “Brasil”; nestas oportunidades éramos imbatíveis na região. O Pedrinho era zagueiro, possuidor de uma disposição física invejável; dificilmente era driblado. Se isto acontecesse, a bola passava, mas o “desafiante” não!  Ficava estirado no chão.

O Netinho,  jogava no meio de campo e na meia-esquerda, realmente era um craque, dominava a bola com uma facilidade incrível, dava lançamentos de longas distâncias ao Batuque que eram meio-gols. Além de tudo, exercia forte liderança sobre os demais companheiros. O Zézé, irmão mais velho, jogava mais pelo prestigio dos demais irmãos, assim mesmo, somente alguns períodos; sua capacidade física era limitada pelo tamanho da sua barriga.

Se o jogo era contra um time de Alfenas, onde moravam, impunham tremendo respeito!

O time tinha um hino que era entoado pela torcida nos grandes acontecimentos, com muito orgulho e ufanismo.

Várias vezes, na companhia de meu pai, fui  acompanhar o Brasil Futebol Clube em outros lugares da região; tarefa, até certo ponto temerária. Em primeiro lugar pelo desconforto da viagem; íamos à carroceria de caminhões, sentados em tábuas presas de um lado a outro das laterais, como se fossem bancos (semelhantes aos paus-de-arara do nordeste). A ida era só festa e expectativa otimista; o retorno, na maioria das vezes, era decepcionante: acontecia de o time apanhar no campo e fora dele e ainda ter de viajar durante a noite, enfrentando o frio e, às vezes, chuvas no retorno.

Até hoje me pergunto a razão do meu pai se animar em levar-me nestes jogos; ele não era aficionado do esporte, raramente ia ao campo de Gaspar Lopes. Só podia ser com o intuito de agradar-me, por saber de como eu fazia planos…

Certa feita o time da “Chapada” (bairro de Alfenas) foi jogar em Gaspar Lopes e nós, a meninada, fizemos o maior terrorismo atrás do goleiro adversário. No final do jogo, um crioulo espigado, cabeçudo e muito magro, aproximou-se de mim e, de dedo em riste, fez-me uma ameaça que estremeci nas bases.

– Você vai ver, seu magricela, nós vamos nos encontrar em Alfenas, longe da sua turma.

No entusiasmo da torcida pelo nosso “Brasil”, havia esquecido que estava estudando em Alfenas e, por conseguinte, um alvo fácil e, sobretudo, indefeso. Tentei consertar o erro cometido:

– Isto é brincadeira!

– Com o Paçoca não se brinca, você vai ver!

Perdi o gosto de ver o final do jogo. Realmente, o “desgramado” do Paçoca cumpriu a promessa, perseguiu-me durante muito tempo, junto com outros seus colegas; todas as vezes que eu o via em Alfenas, dava voltas e mais voltas!

Só o tempo conseguiu apagar aquela mágoa e, finalmente, consegui conquistar sua amizade à custa de muito agrado e jogo de cintura. Se fizesse um balanço hoje, não saberia dizer, com toda sinceridade, se o Brasil Futebol Clube chegou a ser um bom time de futebol. No entanto, se colocassem nos pratos dessa balança, todas as realizações e todas as vibrações que ele me proporcionou, não teria dúvida em afirmar que o mesmo ocupou um espaço muito importante nas minhas emoções.

Ah!… Se eu pudesse torcer novamente pelo Brasil Futebol Clube!

 

(Hélio Moreira, membro da Academia Goiana de Letras, Academia Goiana de Medicina, Instituto Histórico e Geográfico de Goiás)

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