Delegada é mantida presa sob suspeita de atuar para facção criminosa
Giovanna Gonçalves - Estágio DM
Publicado em 17 de março de 2026 às 13:19 | Atualizado há 4 meses
Justiça decreta prisão preventiva de delegada suspeita de ligação com o PCC | Foto: Reprodução/Instagram
A Justiça de São Paulo decretou a prisão preventiva, por prazo indefinido, da delegada Layla Lima Ayub, de 36 anos, suspeita de ligação com o Primeiro Comando da Capital (PCC), e de Jardel Neto Pereira da Cruz, conhecido como Dedel, apontado como líder da facção. Ambos estavam presos temporariamente desde janeiro.
Indícios de vazamento de dados e obstrução
Na decisão que manteve a delegada presa, da 2ª Vara de Crimes Tributários, Organização Criminosa e Lavagem de Bens e Valores da Capital, são citados indícios de que ela acessou dados de um repositório digital em nuvem de um delegado, compartilhou informações sigilosas da Academia da Polícia Civil e divulgou uma música que faz apologia ao crime organizado.
As três condutas se somam às suspeitas iniciais contra Ayub, conhecidas à época da operação em que foi presa. A investigação aponta que ela namora um integrante da facção e que teria atuado como advogada de forma irregular, após tomar posse como delegada, para defender suspeitos de integrar facções criminosas no Pará.
A reportagem entrou em contato com a defesa da delegada, por meio de ligação telefônica e mensagens de texto na manhã desta terça-feira (17), mas não houve manifestação até a publicação deste texto.
Segundo o juiz, o acesso ao repositório em nuvem teria ocorrido para “antecipar-se a diligências, inclusive discutindo estratégias de obstrução”, e há “risco concreto de destruição de vestígios digitais, combinação de depoimentos e intimidação indireta de agentes públicos”.
Relação com suspeito e atuação irregular
Ayub tomou posse como delegada em dezembro de 2025, em cerimônia no Palácio dos Bandeirantes, na zona sul da capital paulista, com a presença do governador Tarcísio de Freitas. Desde então, fazia curso de formação na Academia da Polícia.
Na cerimônia, ela estava acompanhada de Dedel, de 28 anos, apontado como líder do PCC no Pará. Ele estava em liberdade condicional desde novembro.
Uma investigação do Ministério Público de Roraima apontou que Dedel teve papel importante na expansão do PCC na região Norte do país. A decisão judicial que decretou sua prisão temporária afirma, com base no inquérito que levou à sua condenação, que ele era “incumbido da prática de atentados contra autoridades do sistema prisional e magistrados”.
Os dois teriam se conhecido em 2025, em uma penitenciária em Marabá (PA), onde ele estava preso. Antes de passar no concurso de delegada, Ayub era advogada na cidade, considerada um dos poucos redutos do PCC no Pará.
Formalmente, ela ainda é casada com um delegado da Polícia Civil paraense. Teria se separado dele após conhecer o preso, com quem teria iniciado um relacionamento amoroso.
O que mais chamou a atenção dos investigadores foi o fato de que, após tomar posse como delegada, Ayub teria atuado irregularmente como advogada em uma audiência de custódia, em 28 de dezembro.
A ocorrência envolvia quatro presos apontados como integrantes de facção criminosa. Ela participou da audiência de forma virtual quando já havia solicitado o cancelamento de sua carteira da Ordem dos Advogados do Brasil. No entanto, o registro na subseção de Marabá continuava ativo, segundo a Promotoria.
Suspeita de lavagem de dinheiro
O Ministério Público de São Paulo, por meio do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado), também suspeita que Ayub e Dedel preparavam um esquema de lavagem de dinheiro. Eles haviam acabado de comprar uma padaria na zona leste da capital paulista.
“A prisão preventiva dos investigados se mostra necessária para a garantia da ordem pública, considerando as circunstâncias e a gravidade concreta dos crimes praticados, além da periculosidade social demonstrada”, diz a decisão da Justiça paulista. (Folhapress)