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Dialética transcendental: imortalidade e a existência de Deus

Redação DM

Publicado em 15 de junho de 2017 às 02:41 | Atualizado há 9 anos

Ficou assinalado antes, no Título 56 que a imortalidade da alma é pressuposto natural da existência de uma inteligência superior a tudo no Universo, que entre nós, no Ocidente, se dá o nome de Deus.

Em Dialética Transcendental, cujo termo conservamos, em parte, neste Título, Emmanuel Kant, em sua monumental obra “Crítica da Razão Pura”, analisada, em síntese, por Will Durant, em seu livro “A Filosofia de Emmanuel Kant” (“Os Grandes Filósofos – Emmanuel Kant” – Editora Tecnoprint Ltda. – Ediouro – Rio de Janeiro/RJ, p. 55/58), explora os dois temas: a imortalidade da alma e a existência de  Deus.

Sobre a imortalidade da alma, reproduzindo Emmanuel Kant, diz Will Durant, ora com suas palavras, ora transcrevendo Kant:

“…A ciência é, afinal, ingênua; ela supõe estar lidando com coisas em si, em sua vigorosamente externa e incorrompida realidade. A filosofia é um pouco mais sofisticada e compreende que todo o material da ciência consiste antes em sensações, percepções e concepções do que em coisas. “O maior mérito de Kant”, diz Schopenhauer, ‘é distinguir o fenômeno da coisa-em si.’

Segue-se que qualquer tentativa, seja da ciência ou da religião, de dizer exatamente o que é a realidade fundamental, se reduz à mera hipótese; “a compreensão não pode nunca passar dos limites da sensibilidade.” Uma ciência assim transcendental perde-se em “antinomias” e uma teologia assim transcendental perde-se em “paralogismos”. A cruel função da “dialética transcendental” é examinar a validade dessas tentativas da razão, de se evadir do círculo de sensações e aparências para o mundo, que não se pode conhecer, das coisas “em si”.

Antinomias são os dilemas insolúveis nascidos de uma ciência que tenta passar por cima da experiência. Assim por exemplo, quando o conhecimento tenta decidir se o mundo é finito ou infinito no espaço, o pensamento rebela-se contra ambas as suposições: somos levados a conceber, além de qualquer limite, algo mais longínquo, interminável.

E, no entanto, a infinitude é em si mesma inconcebível. E então: teve o mundo um começo temporal? Não podemos conceber a eternidade; mas não podemos também conceber nenhum ponto no passado, sem sentir imediatamente que antes dele existia algo. Ou terá aquela sequência de causas, que a ciência estuda, um começo, uma Causa Primeira? Sim, pois uma cadeia interminável é inconcebível; não, pois uma primeira causa não causada é igualmente inconcebível. Há alguma saída desses becos do pensamento? Há, diz Kant, se nos lembrarmos de que espaço, tempo e causa são modalidades de percepção e concepção que têm de entrar em toda a nossa experiência, já que são a trama e a estrutura da experiência. Esses dilemas surgem do fato de se supor que espaço, tempo e causas são coisas externas independentes da percepção. Nunca teremos qualquer experiência que não seja por nós interpretada em termos de espaço, tempo e causa; mas nunca teremos uma filosofia se esquecermos que esses elementos não são coisas, mas sim modalidades de interpretação e entendimento…

2 – E, dando continuidade, afirma que com tais assertivas, encerra-se a primeira Crítica, enfatizando que a alma é uma substância incorruptível.

Ora, sabendo-se que não se pode dizer, em princípio, que a alma é propriamente uma substância, que poderia dar a entender que fosse algo ponderável, entendemos a expressão do autor no sentido de significar que é algo que escapa, até hoje, ao pleno entendimento da ciência. Que a alma é algo, não se discute. Todavia, a expressão não corresponde à realidade da alma, ou espírito, data venia do ilustre filósofo.

Por oportuno, a questão nº 28, de “O Livro dos Espíritos”, dá-nos o conceito que mais se aproxima da realidade da alma, ou espírito. Senão, vejam-na:

  1. Pois que o espírito é, em si, alguma coisa, não seria mais exato e menos sujeito a confusão dar aos dois elementos gerais as designações de – matéria inerte e matéria inteligente?

“As palavras pouco nos importam. Compete-vos a vós formular a vossa linguagem de maneira a vos entenderdes. As vossas controvérsias provêm, quase sempre, de não vos entenderdes acerca dos termos que empregais, por ser incompleta a vossa linguagem para exprimir o que não vos fere os sentidos.”

Comentário de Allan Kardec:

“Um fato patente domina todas as hipóteses: vemos matéria destituída de inteligência e vemos um princípio inteligente que independe  da matéria. A origem e a conexão desta duas coisas nos são desconhecidas. Se promanam ou não de um só fonte; se há pontos de contato entre ambas; se a inteligência tem existência própria, ou se é uma propriedades, um efeito; se é mesmo, conforme à opinião de alguns, uma emanação da Divindade, ignoramos. Elas se nos mostram como sendo distintas; daí o considerarmo-las formando os dois princípios constitutivos do Universo. Vemos acima de tudo isso uma inteligência que domina todas as outras, que as governa, que se distingue delas por atributos essenciais. A essa inteligência suprema é que chamamos Deus.”

3 – Em sequência, diz o autor:

…O mesmo raciocínio se aplica aos paralogismos da teologia “racional”, que tenta provar pela razão teorética que a alma é uma substância incorruptível, que a vontade é livre e está acima da lei de causa e efeito e que existe um “ser necessário”, Deus, como a pressuposição de toda a realidade. A dialética transcendental tem de lembrar à teologia que substância, causa e necessidade são categorias finitas, modalidades de arranjo e classificação aplicáveis apenas à experiência sensorial. Não podemos aplicar esses conceitos ao mundo numenal (ou meramente inferido e conjecturado). A religião não pode ser provada pela razão teorética.

Termina assim a primeira Crítica…

4 – Em seguida, o autor de “A Filosofia de Emmanuel Kant”, no propósito de demonstrar que Kant entende que religião e ciência não são doutrinas adversas, mas, sim, que se fundem e se completam, e que é justamente a ideia errônea e incompleta que temos sobre ambas que nos levam à divergência e ao conflito entre elas, registra, por fim:

…Podemos bem imaginar David Hume, um galês ainda mais manhoso do que o próprio Kant, observando os resultados com um sorriso sardônico. Ali estava um livro tremendo, oitocentas páginas, repleto quase que além do suportável de uma terminologia pesada, propondo-se a solucionar todos os problemas da metafísica e concomitantemente a salvar a infabilidade da ciência e a verdade da religião. O que havia o livro realmente feito?  Havia destruído o mundo cândido da ciência, limitando-a a um universo de mera superfície e aparência, além do qual ela podia se manifestar somente em “antinomias” caricatas: assim foi “salva” a ciência! Os trechos mais eloquentes e incisivos do livro haviam argumentado que os objetos da fé – a alma livre e imortal e um Criador benevolente – nunca poderiam ser demonstrados pela razão: assim foi “salva” a religião!

Nota: de meu livro, inédito: “Deduções Filosóficas e Induções Científicas da Existência de Deus”.

 

(Weimar Muniz, [email protected])

 


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