Dialética transcendental: imperativo categórico
Redação DM
Publicado em 18 de junho de 2017 às 01:23 | Atualizado há 9 anos
Em sequência aos temas do Título anterior, Will Durant, autor de “A Filosofia de Emmanuel Kant” (“Os Grande Filósofos – Emmanuel Kant” – Editora TECNOPRINT Ltda.” – EDIOURO – Rio de Janeiro/RJ – p. 61/67) , criticando a obra de Kant (“Crítica da Razão Pura”), formula indagações, que, a nosso ver, enriquecem a Tese proposta .
Ei-las:
“Se a religião não pode ser baseada na ciência e na teologia, no que então o poderá ser? Na moral. A base na teologia é insegura demais; é melhor que seja abandonada, até mesmo destruída; a fé tem que ser colocada além do alcance ou domínio da razão.
Mas, consequentemente, a base moral da religião tem de ser absoluta, não pode derivar de experiências sensoriais passíveis de dúvidas ou inferências precárias; nem corrompida pela mistura com a razão falível; ela tem que derivar do ser interior pela intuição e percepção diretas. Temos que encontrar uma ética universal e necessária; princípios de moral a priori tão absolutas e certos como a matemática. Temos de mostrar que “a razão pura pode ser prática, isto é, pode determinar por si mesma a vontade, independentemente de todo o elemento empírico”; que o senso moral é inato e não derivado da experiência. O imperativo moral de que necessitamos, como base da religião, tem de ser imperativo absoluto, categórico…”
2 – De fato, a religião, ou fé, no que tange à crítica, diz respeito à Filosofia – ciência da cogitação –, que indaga com base no raciocínio dedutivo, puro e intuitivo, a priori, e jamais com base apenas no raciocínio indutivo, na área tão- somente da experiência, a posteriori, ressalvado o subsídio complementar da dedução, perfeitamente possível nos experimentos de ordem científica.
E, falando sobre o imperativo categórico, isto é, a imperiosidade de que o sentimento religioso da crença numa inteligência superior advém da intuição e, portanto, do raciocínio puro, a priori, em que a intuição é espontânea e infalível, em virtude de nossa origem divina, levando-nos a impulsos de natureza religiosa “inatos”, partidos da própria consciência, com a espontaneidade da água que jorra de fonte cristalina, à luz do sol, durante o dia, e, à noite, sob o testemunho dos astros que enfeitam a Via Láctea, complementa, através Will Durant:
… É o imperativo categórico dentro de nós, a ordem incondicional de nossa consciência de “agir como se a máxima de nossa ação se tornasse, por nossa vontade, uma lei universal da natureza”. Sabemos, não pelo raciocínio, mas por uma sensação intensa e imediata, que temos de evitar um comportamento que, se adotado por todos os homens, tornará impossível a vida em sociedade. Quero escapar de um compromisso com uma mentira? Porém, “ainda que possa desejar a mentira, não posso de forma alguma desejar que mentir seja uma lei universal. Pois com uma tal lei não haveria segurança”. Daí a sensação em mim de que não devo mentir, mesmo que me seja vantajoso. A prudência é hipotética; seu lema é “sinceridade quando essa for a melhor política”. Mas a lei moral em nossos corações é incondicional e absoluta…”
3 – No parágrafo seguinte, vê-se que a opinião de ambos, do autor de “Crítica da Razão Pura”, acolitado pelo autor de “A Filosofia de Emmanuel Kant”, é genuinamente evangélica:
…E uma ação é boa não porque tem bons resultados ou porque é sábia, mas porque é feita em obediência a esse sentido interior de dever, a essa lei moral que não provém de nossa experiência pessoal, mas rege imperiosamente e a priori todo o nosso comportamento, passado, presente e futuro. A única coisa absolutamente boa nesse mundo é uma vontade – a vontade de seguir a lei moral, indiferentemente aos lucros ou perdas que acarretam. Não te preocupes com tua felicidade, cumpre teu dever. “Moralidade não é propriamente a doutrina de como podemos nos tornar felizes, mas sim de como podemos nos tornar dignos da felicidade.” Busquemos a felicidade dos outros; mas, para nós, a perfeição – quer ela nos traga felicidade ou dor. Para conseguir a perfeição em ti mesmo e a felicidade nos outros, “age de forma a tratar a humanidade, quer na tua pessoa, quer na de outro, como um fim, não apenas como um meio” – isso também, como sentimos diretamente, é parte do imperativo categórico. Vivamos em conformidade com um tal princípio e muito em breve criaremos uma comunidade ideal de seres racionais. Para criá-la precisamos apenas agir como se já pertencêssemos a ela; temos que aplicar a lei perfeita no estado imperfeito. É uma ética dura, dizes, essa colocação do dever acima da beleza, da moralidade acima da felicidade; mas é só assim que podemos cessar de ser animais e começar a ser deuses…”
4 – E, na mesma linha de raciocínio, continuam:
…Reparem, entretanto, que esse absoluto comando do dever prova enfim a liberdade de nossas vontades. Como poderíamos jamais ter concebido uma tal noção do dever se não nos sentíssemos livres? Não podemos provar essa liberdade pela razão teorética; provamo-la ao senti-la diretamente na crise da escolha moral. Sentimos essa liberdade como a própria essência de nosso interior do, “Ego puro”. Sentimos dentro de nós a atividade espontânea de uma mente modelando as experiências e escolhendo a metas. Nossas ações, uma vez que as iniciamos, parecem seguir leis fixas e invariáveis, mas isso apenas porque percebemos seus resultados através dos sentidos que envolvem tudo o que transmitem na roupagem daquela lei causal que nossas próprias mentes elaboraram. Não obstante, estamos além e acima das leis que fazemos a fim de compreender o mundo de nossa experiência; cada um de nós é um centro de força iniciadora e poder criador. Sentimos, mas não podemos provar, que somos livres.
E também, apesar de não poder prová-lo, sentimos que somos imortais. Percebemos que a vida não é como essas peças de teatro tão queridas do povo, nas quais todo o vilão é punido e toda a ação virtuosa é recompensada […]. Como poderia sobreviver esse senso do dever, se em nossos corações não sentíssemos ser esta vida apenas uma parte da vida, este sonho terreno apenas um prelúdio embriônico de um novo nascimento de um novo despertar? Se não soubéssemos vagamente que, naquela vida posterior e mais longa, o equilíbrio será restabelecido e que até um copo d´água oferecido generosamente será amplamente recompensado? Finalmente, e pelo mesmo indício, temos certeza de que existe um Deus. Se o senso do dever implica na crença em recompensas futuras e a justifica, “o postulado da imortalidade… tem que levar à suposição da existência de uma causa adequada a esse efeito. Em outras palavras, tem que postular a existência de Deus”. Isso também não é prova por meio da “razão”. O senso moral, que trata com o mundo de nossas ações, tem que ter prioridade sobre aquela lógica teorética que foi desenvolvida apenas para lidar com os fenômenos sensoriais. Nossa razão nos deixa livres de crer que, por trás da coisa-em-si, há um Deus justo; nosso senso moral ordena que acreditemos nisso. Rousseau tinha razão: acima da lógica da mente está o sentimento do coração. O coração tem razões, como disse Pascal, que a razão nunca poderá compreender.”
Nota: de meu livro, inédito: “Deduções Filosóficas e Induções Científicas da Existência de Deus.”
(Weimar Muniz de Oliveira. [email protected])