Brasil

Dona Tereza, Ditinho

Redação DM

Publicado em 22 de dezembro de 2015 às 00:49 | Atualizado há 11 anos

Nos momentos da perda de pessoas queridas, sentimos o tempo a andar mais rápido do que gostaríamos, e a admiração, o respeito e a convivência tornam-se, às vezes, saudades. As pessoas se vão, findando um ciclo e iniciando outros. Muitas delas deixam, mais que um legado, o exemplo. Se buscássemos adjetivos para descrever a querida Dona Tereza do Chico do Otávio (como a conheci quando criança e a maioria das pessoas a conhecem em Silvânia) acharíamos o da devoção à família, da honestidade, do trabalho e da alegria sempre estampada em seu rosto.

Mãe de cidadãos que ela criou para o trabalho e para o bem: Elizabete, Silvino, Ditinho, Francisco (Chiquinho), Osmar Ismail, Osvaldo, José Luiz, João Batista e Cristiano, sempre soube trazer a disciplina aliada ao extremo amor, sentimento este que também foi distribuído a muitos dos que com ela tiveram o prazer de conviver.

Minhas reminiscências são de quando ela morava na enorme casa em estilo art déco, bem próximo à praça do Rosário – hoje transformada em salão de eventos pelo seu filho Osvaldão, outro sinônimo de trabalho e perseverança. Com um quintal enorme, repleto de pés de frutas – especialmente as jabuticabeiras –, bastava que entrássemos na casa para perceber o cheiro inenarrável do almoço feito em enormes panelas de ferro no fogão a lenha, ou de alguma quitanda ou doce que ela sempre fazia.

O tom de sua voz, às vezes enérgico – pois a prole era grande e as peraltices de crianças do interior não eram pequenas – nunca lhe roubou do semblante o sorriso e a amabilidade para com quem visitasse sua casa. Dona Tereza era caridosa e sua religiosidade a fazia ser ainda mais iluminada.

Filha de uma das mais tradicionais famílias de Silvânia, nunca permitiu que sua posição social a tornasse maior do que quaisquer outros, pois o seu tratamento para todos sempre foi o mesmo. Aliás, com os mais humildes era até mais amável.

Não é a convivência contínua que nos torna próximos, mas a admiração em acompanhar a trajetória de um ser, sabendo valorizar todas as suas ações e as tomarmos como exemplo para a nossa vida. E não são poucos os exemplos que tenho comigo dessa mãe guerreira, avó devotada e cidadã silvaniense que nos enche de orgulho.

Por viver longe de minha terra, minha mãe liga constantemente dando conta de quem faleceu. Às vezes a notícia chega tarde, o que me impossibilita de dar o abraço nos amigos e participar de uma despedida momentânea, pois creio que a vida continua além do sepulcro. Resta-me manifestar meus sentimentos e somar-me às tristezas dos familiares com minhas palavras, tendo a absoluta convicção de que cada filho soube distribuir o amor que recebeu de sua honrada mãe durante sua vida – atitudes que Dona Tereza veria como retribuição.

Quando crianças e adolescentes, vemos a vida como infinita, não nos preocupamos com a morte e ela é apenas uma fatalidade que ocorria com este ou com aquele. Mas ao estar bem próximo do meu cinquentenário, observo-a sobre outro prisma: as pessoas envelhecem, adoecem, lutam para sobreviver e partem.

No livro Ilusões As Aventuras de um Messias Indeciso, do americano Richard Bach, existe uma frase que sempre carrego comigo: Não fique triste nas despedidas. Uma despedida é necessária antes de vocês poderem se encontrar outra vez”. E encontrar-se de novo, depois de momentos ou de vidas, é certo para os que são amigos.

Que cada familiar de dona Tereza receba o meu fraterno abraço, que exprime o respeito a quem soube cativar, exemplificar e dignificar a vida humana.

Outro que nos deixou, foi Ditinho, simplesmente Ditinho, aquele moreno alto, bonito e sensual (como ele sempre brincava que era!), professor aposentado e de uma alegria imensa, que nos vendia um doce de leite em pedaços que duvido que aja igual. Irmão do amigo de serenata José Luiz dos Santos, da tia Amélia (querida e amável professora), tio do querido amigo Luzo, Clarindo, José Carlos, Tereza, Rita e Cláudia. Em minhas últimas peregrinações por Silvânia não o encontrei nas ruas, onde sempre parava para ouvir uma anedota, que somente ele sabia contar. Eu, hoje, encontro-me triste, pois faltou-me o abraço.

Após a conclusão deste artigo, vi em uma postagem no Facebook de Inês, a caçula do casal Manoel Tristão e dona Aninha, que a mãe havia desencarnado. De pronto me vieram muitas recordações, pois seus filhos Antônio, Lelo, Lu e Luciano foram meus amigos de infância e morávamos na mesma rua e não foram poucas nossas estripulias.

Dona Aninha, como é conhecida por todos, foi uma mãe enérgica e firme no trato com os filhos, acho que tinham mais medo dela do que do pai Manoel (eu também tinha!), mas nós dávamos muitos motivos, pois éramos terríveis.

Exímia costureira, dificilmente a via quieta, pois sempre que entrava em sua casa, na Rua Santo Antônio, ela estava sentada à máquina de costura ou envolta em algum dos inúmeros afazeres de sua casa.

Aninha do siô Manoel, dos filhos, dos netos, dos vários silvanienses que ela ajudou a vestir, dona Aninha do bom dia! boa tarde! boa noite! do até logo! do até breve!

Ditinho do sorriso, da alegria de viver, do doce de leite, da arte do ensinar, do cativar, da saudade e do adeus!

Dona Tereza da bondade, do acolhimento, da generosidade, da humildade, da grandiosidade e do exemplo de mulher.

Que Deus os acolham em sua infinita bondade e, de uma forma ou de outra, continuem a zelar por nós.

 

(Cleverlan Antônio do Vale, graduado em gestão pública, administração de empresas, pós-graduado em Políticas Públicas e Docência Universitária, doutorando em economia, articulista do DM – [email protected])

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