Drogas: é preciso pensar nisso
Redação DM
Publicado em 16 de novembro de 2015 às 23:59 | Atualizado há 11 anosEm um País de muitas falsidades na gestão pública, poucas delas tem sido mais enganosas do que a política de combate ao uso de drogas. Não é privilégio de um ou outro Estado, mas de todos e como as cidades estão dentro desses Estados, nelas a falsidade também permeia.
É um “jogo de empurra”. O governo federal empurra para os governos estaduais, esses para os municipais e o problema está aí. Não há um só município onde o problema não tenha chegado. E por trás dessa irresponsabilidade desumana e absurda está o mais importante de todos os bens: a vida.
Sequer existem números confiáveis sobre a questão. Eles são tão absurdos que é mais fácil manipular do que enfrentar a questão com a dimensão que ela realmente tem. O mais inaceitável nisso tudo é ver a questão ser utilizada como mecanismo de propaganda. Montam boutiques com fachadas bem decoradas para iludir a população que há um enfrentamento e aqui são notados dois objetivos: minimizar o vendaval que o problema significa e ganhar notoriedade.
Veja por exemplo o Observatório Brasileiro de Informações Sobre Drogas (OBID). Trata de um departamento ligado ao Ministério da Justiça, que deveria pesquisar os números, diagnosticar as origens e planejar as ações, em duas vertentes: combater o tráfico e tratar o viciado. No papel o OBID é muito bonito, na prática ele nunca saiu do papel. O site onde números deveriam estar expostos é encontrado apenas programação de encontros e a definição do que o departamento é. Meras letras em cima do papel e desse papel só se tem as letras. É tudo no papel.
Enquanto isso a degradação humana gerada pelas drogas podem ser vista pelas cidades (pelo campo também), mas a visibilidade nas cidades onde há maior contingente humano é mais perceptível.
Brasileiros e brasileiras vítimas das drogas podem ser vistos nos semáforos, pedindo esmola para sustentar o vício. Podem ser vistos nas praças usando deliberadamente todo tipo de droga. Se a esmola não é suficiente eles se utilizam de outros meios para manter o vício. As atividades mais comuns são os roubos e a prostituição. Por trás dessas duas atividades há violência cruel, que em efeito dominó vai gerando outras violências. Isso não é colocado no papel. Como são seres degradados, suas vidas não fazem parte do contexto midiático.
Diz o novelista francês Victor Hugo na obra Os Miseráveis: “As mazelas humanas vistas diariamente viram peças rotineiras no cotidiano e passam a fazer parte do contexto social. Morre aí a indignação e com ela muitas vidas morrem também”. De tanto ver esses brasileiros morrendo a cada dia pelas ruas e praças, dá se a impressão que aquilo é um fato normal, natural na vida social. O que está dentro da normalidade não precisa de ações do poder público.
Com essa prática cria no consciente coletivo que governos dos municípios, dos Estados e o federal não devem nada para esses brasileiros. Isso é um absurdo.
Outra cena comum no cotidiano das cidades é a ação dos traficantes. Eles chegam (normalmente de moto), entregam a droga e saem, sem serem importunados. São senhores das próprias ações. São vorazes. Recrutam brasileiros cada vez mais jovens para o uso do que vendem e asseguram a lucratividade do negócio. Não existem barreiras para a penetração dos traficantes. Invadem vilas, vilarejos, hospitais, empresas e o que é mais triste, invadem escolas. Lá onde a falsidade ideológica diz que é repressão a presença da polícia é que eles agem com mais voracidade.
Em época de campanha política o tema entra no debate com muito vigor. Todos escrevem nas suas propostas de atuação se eleitos forem, propostas mirabolantes para colocar na cadeia os traficantes e conduzir para o tratamento os dependentes. É mais tinta grafando letras no papel, de onde não sai nenhuma ação prática.
Se já não bastassem as irresponsabilidades apresentadas aqui, existe ainda uma absurda rondando o poder brasileiro, a da legalização da maconha. Esse quadro precisa mudar. É preciso haver indignação ao assistir alguém usando drogas pelas cidades. É preciso indignar com cada assassinato de usuário que se tem notícia. É preciso que a sociedade cobre do poder público, ações concretas para mudar essa situação.
É preciso que as pessoas conscientes tenham a coragem de colocar a cara na resistência contra a legalização da maconha e é preciso que o poder público seja pressionado para cumprir um papel que é dele. As famílias não podem continuar perdendo seus filhos queridos para as drogas. Nessa semana em que há mais um punhado de papel com letras mortas sobre as drogas no País, é preciso se pensar nessas coisas.
Alcides Ribeiro Filho é professor e empresário)