E na Caixa de Pândora
Redação DM
Publicado em 22 de dezembro de 2015 às 00:47 | Atualizado há 11 anosNa mitologia grega, Prometeu era filho do titã Jápeto, e irmão do desventurado Atlas. No impetuoso e hostil clã dos titãs, Prometeu era o mais ponderado. Quando houve a rebelião dos olímpicos, ele anteviu para que lado as coisas estavam se inclinando. Sem pensar duas vezes, abandonou seu próprio clã e convenceu seu irmão, Epimeteu, a lutar juntos aos rebeldes.
Sábia decisão, pois lutaram do lado vitorioso. Zeus, o senhor dos céus, concedeu aos dois o direito de seguir vivendo sob a Terra, enquanto seus familiares foram condenados ao tártaro. Bem, a história de Prometeu é bem longa, porém, encurtando a narrativa, e chegando direto ao ponto, foi Prometeu o titã responsável pela invenção do homem no mundo grego.
Embora vivos e dotados de espírito, os humanos continuavam paralisados, como se um medo terrível os petrificasse. Por que isso acontecia? Porque o titã havia dado aos homens o poder de ver o futuro. E como mortais não lhe cessavam as lembranças de seus futuros: A morte. Por isso ficavam petrificados. Para livra-los desse medo, Prometeu retirou-lhes esse dom, e assim os homens passaram a viver na mais absoluta ignorância e alienação.
Na tragédia grega, Prometeu Acorrentado, do século 5 a. C, do dramaturgo Ésquilo, ele vaticina que os homens “Tinham olhos para ver, mas não tiravam proveito do que viam; tinha ouvidos, mas não compreendiam os sons; como vultos em um sonho, ao longo dos dias, andavam sem propósito em total confusão. E viviam no fundo solo, em cavernas escuras, como bandos de formigas”. Ao perceber isso, o irmão de Epimeteu, ensinou aos homens os segredos da astronomia. Conduziu-os até as florestas e lhes ensinou quais plantas deveriam se evitadas, e quais curavam. Quais animais poderiam ser domesticados. Ensinou-lhes a cura de várias doenças e instruiu os homens a tirarem da terra os metais necessários para forjar ferramentas. Presenteou a humanidade com os números e as letras.
Assim poderiam escrever histórias, fazer cálculos e registrar o passado. Ao ver isso tudo acontecendo, Zeus ficou furioso, advertiu Prometeu, que esse não ensinasse aos seus filhos os segredos para dominarem o fogo.
Prometeu é, por assim dizer, o primeiro mestre dos humanos. O educador dos homens no mundo grego. Desde o inicio disto que conhecemos como humanidade, o papel do educador é de fundamental importância. Para instruir, desvendar, ensinar, desmistificar. E o que querem nossos governantes? Retirar do educador comprometido com a transformação social e política o poder de instruir, de desvendar, de ensinar e desmistificar. As Organizações Sociais, solução apresentada pelo governador Marconi Perillo como solução para educação, não passa de um projeto neoliberal que em minha opinião tem dois motivos definidos: Diminuição das responsabilidades do Estado; e desempoderamento da classe docente.
Qual educador fará uma crítica ao governador do Estado, se aquele que o contrata, por meio de uma O.S., é apadrinhado do rei? Qual categoria irá para ruas reivindicar melhores condições de trabalho e qualidade na educação, se no outro dia seu “acerto” estará batido na mesa do empresário da educação? Todo mundo sabe como são as relações no modelo celetista: Manda quem pode, obedece quem tem juízo. Relação vertical, de cima para baixo.
Relação horizontal esse é o caráter das ocupações dos colégios estaduais. Inspirados em movimentos como a Revoltas dos Pinguins no Chile e o movimento de ocupação em São Paulo, as manifestações de desobediência civil em Goiás mostra o protagonismo dos estudantes secundaristas que sempre foram à vanguarda do movimento estudantil.
Mas as ocupações das escolas em Goiás evidenciam uma nova forma de organização dessas manifestações. Sumiram os partidos políticos e os sindicatos e nascem novas formas de organização.
“Quem fala e age? Sempre uma multiplicidade, mesmo que seja na pessoa que fala ou age. Nós somos todos pequenos grupos. Não existe mais representação, só existe ação: ação de teoria, ação de prática em relações de revezamento ou em rede. Aqueles que agem e lutam deixaram de ser representados, seja por um partido ou um sindicato que se arrogaria o direito de ser a consciência deles.” Gilles Deuleuze.
De 2013 para cá, essa rapaziada que segue em frente e segura o rojão têm demonstrado uma rebeldia e tenacidade daqueles que fazem a hora e não esperam acontecer. Eles não querem esperar a escola pública e gratuita, deixar de ser pública e gratuita, e por isso ocupam. Ocupam para que as O.S.s não ocupem as escolas públicas.
Entretanto, nesse momento de efervescência de rebeldia e protagonismo na luta dos estudantes e docentes, onde está o Conselho Estadual de Educação que não se pronuncia? Onde estão às comissões de educação dos parlamentos que não disseram uma vírgula até agora? Onde estão os milhares de políticos que usam a palavra educação, durante suas campanhas eleitorais?
Enquanto houver uma escola ocupada, já são 22 (escrevo esse artigo no dia 19 de dezembro 2015) haverá esperança.
E por falar em esperança… Prometeu, foi rebelde como os nossos estudantes secundaristas que ocupam as escolas são e esperou que Hélios, o deus do Sol, surgisse no horizonte, conduzindo sua carruagem de chamas. Assim que o carro do Sol estava passando perto do cume do Olimpo, Prometeu acendeu uma tocha em seu calor e presenteou-a aos homens. Assim, eles puderam cozinhar e assar sua comida. Forjaram o ferro e outros metais, e a humanidade se espalhou pelo mundo.
Para punir Prometeu, Zeus ordenou que esse fosse amarado no alto de uma montanha e todos os dias uma águia dilacerasse seu fígado, que se reconstituiria durante a noite para ser dilacerado novamente. Aos filhos de Prometeu o castigo foi tão pior quanto. Sob as ordens do deus dos Céus, Hefesto criou Pândora, que foi tão bela quanto Helena de Troia, e fez com que Epimeteu se apaixonasse por ela. Para o casamento de Epimeteu e Pândora, Zeus deu a ela uma caixa de presente, que só poderia se aberta na Terra. Assim que a abriram-na todos os males e misérias destinadas a assolar os humanos estavam lá e foram saindo uma a uma: a Velhice, a Doença, a Insanidade, o Vício e muitos outros. As desgraças saíram voando e picando Epimeteu e Pândora e depois se espalhou pela Terra.
Mas ao aprisionar todas as maldades na caixa, Zeus deixou entrar um espírito ambíguo, de aparência frágil, entretanto, muito poderoso: a Esperança.
É ela quem move alunos, pais e professores, para que nossa escola pública já não aceite essa caixa de Marconi Perillo, chamada Organização Social.
(Edergênio Vieira, poeta e educador na Rede Municipal de Ensino de Anápolis – [email protected] @edergenio)